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em torno ou pelo propósito da página p.


principalmente pretendo pensar sobre poesia, nesta página p. prioritariamente porque sou poeta e preciso perscrutar este meu pensar de popa a proa. participam, desta perturbação, palavras e problemas que me parecem potencialmente pertinentes: paralelepípedos, porque é o paralelogramo dos parênteses que permeiam as pessoas passo a passo na vida; pedregulho, porque é os próprios pepinos e porradas que os operários impotentemente precisam pagar para ser; puxa-puxa, porque é o possível esticar de porcarias para além do impossível, perseverando os pulhas que pomos de pé às porteiras dos pórticos políticos; e porta, porque é sempre paralela e permissível — provavelmente por força dos poderes públicos em sua perdição presente. peculiarmente, pontuando minha pessoa e preso a minha profissão, tudo isso pertence ao campo da poesia porque predomina em minhas pretensões não pilhérias ou picardias, porém: produtos do pensamento pelos quais as sinapses assumem o formato de poema, seja em verso, pintura ou prosa.

sem mais torneios, primeiro texto:

dúvida, amor, poesia e traição ou simplesmente sobre judas e dante — parte um

seria possível virar do lado na cama e o mundo desemborcar? temos uma vida toda para não ser sem risco. e se? a traição inquire dúvidas. mais tarde é possível que se queira tudo de volta. para os práticos: a oscilação das procelas políticas que movem a infra-estrutura social independentemente do bem-estar público e a infidelidade partidária que dela decorre são bons exemplos disso, o casamento com o ex-cônjuge também. antes mal-acompanhado do que só. para os outros: as palavras bastam. um exemplo crônico — nos dois sentidos mais imediatos do termo — é a pressa de licitação que levou ao desabamento da estação de metrô em são paulo. não tem volta. conserto é reparo. mais tarde é possível que se queira tudo de volta. nada volta. nem tudo foi como se queria. quando tínhamos, não era o que queríamos; somente agora, que não temos mais, queremos. e se não virarmos de lado, não saberemos como é ter o que não temos e poderíamos ter? do outro lado do travesseiro pode morar fadas ou sapos.

ouvi falar de sopa de sapos. não é saudável guardar veneno no cântico dos lábios. casar com sapo deve ser parcial. não casar é recalque: uma pré-concepção das possibilidades. tudo é possível. basta imaginar. imaginamos realizar tudo na possibilidade. se houver arrependimento, somos irremediavelmente culpados de termos imaginado. não consigo pensar que a arquitetura de qualquer época tenha sido possível sem imaginação prévia. paralelepípedo não dá em árvore. há sempre uma matemática de imaginação. peixes vivem de imaginação. “se eu sair, as escamas secam?” “e se eu for pescado, serei pedro?” não há saída para a dúvida quando ela instala a ignição do pensamento para imaginar: “tempo haverá, tempo haverá, tempo para ti e tempo para mim, e tempo ainda para uma centena de indecisões, e uma centena de visões e revisões, antes do chá com torradas”, eliot. pedro, depois de pescado, construiu uma pedreira, e até hoje lá se fabrica pedregulhos e lá é aonde afluem ruminantes para ouvir supostos sacerdotes. o neopentecostalismo, como é óbvio, mas deve ser pontuado porque o óbvio tem a propriedade de cegar, é o melhor exemplo prático disso. “e se eu ficar aqui a vida toda, morrerei afogado?” “mas, quando eu morrer, seja quando for, não foi a vida toda que se foi?” não há mais nem menos nem mais ou menos, simplesmente há, ou. e se?

embora isso, a vida vive de mais ou menos. por isso existem operários, patrões, miseráveis, meninas de classe média alta que se prostituem e vendem o segredo do escorpião como se fosse doce de jaca, e também existe aquele menino de aproximadamente doze anos que foi encontrado morto debaixo de sacos de lixo na esquina das ruas dr. joão passalaqua e santo antonio, em são paulo, no último dia treze às vinte e três horas. ouvi falar que as fadas não podem morrer. quanto mais fadas morrem, mais gente deixa de imaginar. casar com fadas deve ser total. safo era uma fada e morreu. engraçado… continuo imaginando: e se? tenho um amor e ele é maior do que o amor que posso ter. amar é muito solitário. é como água em copo cheio. por isso dante, beatriz e vênus formam uma trindade. recomendo: largue este texto, e vá ler o banquete. sugiro que se informe melhor sobre astronomia para não fazer bagunça entre dante e a cartografia astral da nasa.

virar do lado da cama desemborca o amor? o amor desemborcado é outro amor? se a água se derrama ou é derramada do copo, o copo fica cheio de ar. o amor é para encher. sempre temos a sensação de que vamos encontrar uma pessoa só para amar até morrer. encontramos três pessoas três vezes na vida dentro da geografia dos relógios ondequando nos concebemos. e a sensação continua lá. por isso as pessoas que têm paixão política sempre votam no mesmo partido. elas até inventam na imaginação uma correção contra a infidelidade partidária praticada por seus escolhidos. as pessoas que encontramos para amar são a mesma em outro corpo. o amor precisa de mais de um corpo para funcionar. ele é para encher — poderia se chamar de hipérbole também. quem sabe? essas pessoas que encontramos somos nós mesmos. o amor é muito para dentro. no ego do amor não cabe compartimentos. nele há os anticorpos mais eficientes. sempre amamos quem queremos, por isso imaginamos. daí aquela canção do arnaldo antunes da época dos titãs, “demais”, que diz assim no comecinho: “tudo eu já fiz pra te esquecer, mas foi em vão, e agora quero voltar”. na verdade, para voltar atrás é tarde. os caranguejos andam para frente de retravés. quer dizer que você somente ama pelo mesmo amor, mas não encontrou outro parasita, daí a tentativa de reconciliação. reconciliação é reflorestar as pálpebras porque os cílios caíram depois da última procela de lágrimas. pode observar o amor da mídia pela desgraça: muda somente de geografia.

o amor também é fatal. é preciso muito trauma para não amar mãe, pai etc. a pior coisa do mundo é ter filhos: você vira pigmalião de repente, e é obrigado a amar suas miniaturas como se fossem galateiazinhas, eximindo-se de erotismo, é claro! não tê-los é muito vago: o amor gosta de se amostrar. pior é ser poeta. gerardo mello mourão me ensinou: poeta nascitur. o poeta nasce feito. o poeta, todo ele e ele todo, é ens amoris por excelência. um ente de amor. se eu não fosse poeta, eu não seria outra coisa. então eu era. poeta vive dos outros sendo somente ele: homero inventou a grécia e helena; virgílio inventou roma e dido; dante inventou a itália e beatriz; camões inventou os portugueses e inês de castro etc. yeshuah, que também se chama jesus, inventou um terço da humanidade e maria — todas — e madalena — as duas. kardec o reinventou e reinventou platão, que inventou sócrates. poeta vive de invenção. inventar é ir para dentro, onde só basta o amor e só o amor se basta, gonçalves dias. eu, por exemplo, meu piaga, amo tanto que via de regra vivo gripado: o amor congestiona a respiração.

percurso sugerido como necessário:

a poesia de safo; os cânticos de salomão; a poesia de catulo; a arte de amar de ovídio; as cantigas de amigo de d. dinis; o banquete de dante; em nome de deus (o filme) de clive donner; o amante (o romance) de marguerite duras (e o filme de jean-jacques annaud); o amor natural de drummond; o soneto camoniano que inicia “amor é fogo”; a definição de pessoa: “o amor é como uma sombra que passa sobre um rio ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio”; a declaração de florbela: “minha alma de sonhar-te anda perdida, meus olhos andam cegos de te ver, não és sequer razão de meu querer, pois tu és já toda minha vida” e os poemas pássaro e mulher e mulher e pássaro de dora ferreira da silva.




Jamesson Buarque

jamesson buarque é poeta, professor, crítico literário e doutorando em estudos literários na ufg. publicou os delírios e novíssimo testamento. sente-se muito mais antigo do que sua idade tri-trina cristã. além de poesia e magistério, gosta de vinho, cachaça mineira, desenho animado, cinema, política, bíblia e fenomenologia, tudo misturado. importante: é sobre essa mistura sua coluna.
E-mail: jamessonbuarque@yahoo.com.br