Patchwork


Montagem - Cut-up - Apropriacão - Invasão


Ninguém poderia imaginar que o ato aparentemente infantil de se apropriar de materiais aleatórios e juntá-los em um suporte, com o auxílio de cola, pudesse se transformar numa técnica artística da maior importância para a arte moderna e contemporânea.

Os artistas George Braque (1882 – 1963) e Pablo Picasso (1881 – 1975) são apontados como os precursores da colagem. Eles passaram a utilizar texturas pré-existentes, recortadas de jornais, revistas, tecidos e outros fragmentos, coladas à tela e ligadas através de cores e desenhos. Essa prática cubista de utilizar materiais recuperados ou apropriados, não criados pelo artista, também estava presente, como técnica e conceito, nos ready-made de Marcel Duchamp (1887 – 1968).

Os artistas construtivistas russos, paralelamente, aderiram ao equivalente fotográfico da colagem, a fotomontagem. Com essa forma de colagem, os construtivistas levantaram questões importantes sobre a natureza da realidade e, também, sobre a possibilidade de novas realidades criadas pelos artistas. Alexander Rodchencko (1891 – 1956) e Gustav Klucis (1895 – 1944) usavam a fotomontagem como um meio de representar os novos ideais soviéticos, promovendo a proliferação de imagens através da mídia de massa.

Uma forma de colagem em três dimensões, ou assemblage, era utilizada por Vladimir Tatlin (1885 – 1953), ele denominava seu trabalho de “compilação de materiais”. Tatlin construía objetos arranjados sobre um plano, porém, esses objetos podiam se mover no espaço, sugerindo uma nova relação entre as formas abstratas e o espaço material.

A fotomontagem também se tornou a principal técnica estruturante do trabalho artístico dos dadaístas alemães. Para esses artistas, a técnica combinava as possibilidades pictóricas da colagem com o realismo da fotografia. A fotomontagem os auxiliava na representação da realidade caótica da Alemanha pós-Primeira Guerra Mundial.

Atualmente, a colagem digital tem sido muito utilizada por artistas do mundo todo. O princípio é o mesmo da colagem, mas a apropriação e a manipulação das imagens são feitas com o auxílio de programas de computador. As imagens são tratadas com efeitos especiais e perdem qualquer referência com suas formas originais. É possível encontrar grupos na Internet dedicados à manipulação de imagens, numa espécie de competição virtual. A colagem com a utilização do computador é um processo dinâmico e intertextual, num contexto em que o conceito de autoria deixa de ter qualquer significado.

A poster art, uma forma de colagem conhecida também como pós-grafite ou arte urbana, tem se despontado como a nova tendência na arte de rua. O mais importante nessa forma de colagem é registrar um pensamento crítico ou de protesto através da imagem/colagem de cartazes. A proposta dos artistas que se utilizam desse recurso é criar um contraponto ao panorama convencional nas cidades repletas de propagandas e outros apelos visuais.

A colagem é sem dúvida um gesto não conformista. Essa técnica aparentemente simples introduziu duas questões fundamentais para a arte moderna e contemporânea: o mecanismo da Gestalt, no qual a arte deixa de se preocupar com o reconhecimento das partes, em oposição ao que ocorre na representação figurativa, passando a dedicar-se à emergência do todo; e a mudança de paradigma, com a arte superando o caráter de produção manual artesanal, para se tornar contexto e conceito.




Patrícia Ferreira Martins

Patrícia é artista plástica e, atualmente, doutoranda em letras e lingüística pela UFG. Adora música alternativa na linha punk rock e grindcore. Também adora literatura, assistir televisão, surfar na internet, comer pipoca no cinema e tomar mirinda com os amigos. É casada com o Wellington.
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