Vaca de Nariz Sutil

Jean Dubuffet


O espirro de uma vaca de nariz sutil


O ruído branco é um silêncio que não se opõe ao som. Silêncio construído. Um bom poema é um ruído branco. Rasura na comunicação. Branco é, ainda, a cor da angústia. A ausência de um nome para o medo.

Um bom poema é um nome para a angústia, um revestimento para esse silêncio extremo. Heidegger diz que todo grande poeta é autor de um único poema, inescrito. Um poema inescrito é um ruído branco.

Inescrito no sentido de não estar nas palavras, mas, assim mesmo, ser efeito delas. Numa espécie de revelação vazia, pode-se descobrir que a palavra não oculta nada, nem revela, pois nada há a ser ocultado, ou revelado. A palavra inventa algo que estava lá, desde antes da palavra: um ruído branco.

O ruído branco é um paradoxo. O contrário de si mesmo. Aproxima-se do que escapa à linguagem, mas só se aproxima do que escapa da linguagem por meio da linguagem.

O ruído branco é a morte que se antecipa por meio da linguagem e torna o homem mortal. Um bom poema torna o homem mortal. O homem é a única criatura que se recusa a ser aquilo que é (Camus). Mortal. Assim, é preciso que o poema quebre as vértebras dessa recusa e devolva ao homem aquilo que lhe pertence, única essência possível: sua própria mortalidade.

Morreremos em azul, talvez, mas será ainda assim um ruído branco.

Ruído Branco é um par de significantes, e os significantes deslizam, ar modulado por cordas, enviado ao corpo do outro, ouvidadentro, raptando sentimentos informes, construindo outros. Entre um e outro ouvido, o som atravessa o silêncio intracrânio e envia-se para os desfiladeiros do corpo, e o corpo retorna sinais ao silêncio intracrânio, e de algum modo, esse par de significantes, ruído branco, som em si mesmo sem sentido, transforma-se numa experiência de sentido.

Mas algo permanece só o que era, som em si, infectado pelo corpo, infectando o corpo de uma teia qualquer, de algo que liga, que pode colocar o homem de pé.

Um bom poema está neste corte, neste hiato entre a palavra com som alado que se dissolve no corpo ouvidadentro e apalavra como paramento deste ruído que é idêntico a sua máscara. Branca ou azul, pouco importa.

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O nome do site foi motivado pelo título do livro de Don DeLillo, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, tradução de Paulo Henriques Britto:

Agora uma auto-estrada passa atrás do quintal, muitos metros abaixo do terreno da casa, e à noite, quando nos deitamos em nossa cama de bronze, alguns carros passam por ela com um murmúrio remoto e constante que contorna nosso sono como almas mortas balbuciando nas margens de um sonho (p.10).

Um murmúrio remoto e constante que contorna nosso sono como almas mortas balbuciando nas margens de um sonho. Isso é um ruído branco, com certeza. Mas é prosa ou poesia? Usarei esse espaço para colocar em questão esses limites tensos entre prosa e poesia. Ora “teorizando”, ora publicando textos que, como diz um não tão jovem poeta amigo meu, poderiam ser chamados de prosemas.

Sim, dentre outras coisas, este será um espaço para investigação, construção e disseminação de prosemas. Então, o nome VACA DE NARIZ SUTIL. Homenagem a um grande prosemador, Campos de Carvalho.

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O espirro de uma vaca de nariz sutil, evidentemente, é um ruído branco.





Wesley Peres

Wesley tem 31 anos, mas sempre acham que ele tem cara de 30. É autor de Água Anônima (Prêmio Cora Coralina, 2001) e Rio Revoando (Com-Arte/USP, 2003). Em 2007 lançará Palimpsestos, pela UFG. Acha deplorável pessoas que gostam de Fanta Uva, gosta muito de estourar aquelas bolinhas de plástico e da literatura produzida na Papua-Nova Guiné. Ah, é psicanalista e mestrando em literatura pela UFG. Mora na Cataluña. E-mail: wesleyperes@uol.com.br