Neuropop
Pistols: The Dark Side of the Beatles
O rock funciona por crises e arremetidas. Elvis foi uma dessas arremetidas que impulsionam o rock mais além. Os Beatles foram outra. Os meninos de Liverpool queriam, no começo, apenas se divertir, ganhar dinheiro e garotas. A coisa, no entanto, foi ficando séria. A banda se transformou em fenômeno de massa e isto muda muito as coisas. Quando restrita a Liverpool, por exemplo, a atração das meninas era um fenômeno de bando, depois a energia sexual das garotas se metamorfoseou em histeria coletiva (energia massiva). John & cia. passaram a ser uma espécie de buraco negro que atraia para si grandes quantidades de desejo: sexo, dinheiro, bajulação, ódio e admiração. Foi o segundo caso de fama mundial no rock – o primeiro tinha sido Elvis.
Os Beatles viraram um negócio sério e seus integrantes sentiram isso. Sua reação foi um misto de adesão e repulsa ao espírito comercial. A rebeldia, capitaneada por Lennon, implicou numa aproximação com a onda hippie e suas experiências mágicas com o sexo livre, as drogas, as viagens, o oriente... Essas atitudes, que eram comportamentais e estéticas, causavam furor nos meios conservadores da sociedade, mas exercia uma irresistível atração na juventude. Este confronto de gerações movimentava a vida social e principalmente a mídia, o que significava divulgação gratuita e involuntária, a melhor forma de propaganda. Era uma bola de neve mercantil que se alimentava de sua própria negação: quanto mais John e sua trupe faziam música e tomavam atitudes rebeldes ao status quo, mais eles vendiam.
Elvis foi o fenômeno da década de 50 e os Beatles de 60. Não se pode dizer que os Sex Pistols foram a banda de 70 (que provavelmente foi o Pink Floyd). Mas os Pistols foram a crise mais feia do rock, a mais contestadora, anárquica e explosiva. Porque eram vagabundos viciados, porque seu líder, vocalista e letrista, Johnny Rotten era um irlandês pobre numa Inglaterra preconceituosa, porque tinham talento para compor canções que, apesar de pesadas, mal tocadas e gritadas por Rotten, eram ritmicamente empolgantes e grudavam nos ouvidos das pessoas – eram hits sujos. São características que aproximam os Pistols dos negros americanos: desajuste social, revolta e ritmo alucinante se auto-alimentando. Mais que os Beatles, os Pistols se conectaram com a origem do rock: negra e jovem. Eram o adolescente prestes a entrar no mundo responsável do adulto e que, no entanto, recusa este mundo calculado. Eram o negro/irlandês pobre, proscrito e revoltado, marcado pela sociedade como cidadão de segunda, desde antes de seu nascimento. Duas rebeldias que se juntam um ritmo lancinante e contagiante, rock.
Jovens no ocidente, negros dos EUA, irlandeses na Inglaterra, são situações de minorias, massas bárbaras da periferia, fora dos sistemas produtivos e rebeldes a eles. Mas, paradoxalmente, é da energia selvagem dessas massas que o mercado e a sociedade se alimenta. É na periferia que pulsa a energia desejada pelas massas do centro. Assim, os Pistols e o punk também se tornaram um grande negócio midiático e, principalmente, possibilitaram o negócio maior ainda que foi o rock inglês dos anos 80 e 90, o qual não seria possível sem os Beatles e os Pistols, magia branca e negra da canção pop inglesa
Os brancos (e mesmo os negros) para serem roqueiros, conectam-se com o negro e sua rebeldia rítmica. O contragolpe da indústria cultural é a absorção da energia selvagem que o rock libera. A indústria cultural não cria nem impõe arbitrariamente uma música ou um estilo, ela funciona mais como antena e aparelho de captura. Primeiro ela sonda, identifica e testa as energias musicais e comportamentais das massas bárbaras da periferia, injetando-as nas massas civilizadas do centro. Caso estas se contagiem (pois trata-se de um fenômeno de contágio), as energias periféricas são absorvidas e seus artistas são sugados ao mundo da fama, dos mega-espetáculos e do dinheiro: os Beatles condecorados pela rainha, Rotten participando de um reality show. O rock sempre fracassa (na maior parte das vezes cinicamente) em seu desejo de um novo mundo. Mas nos deixa, como sobra, como vinho, como ritmo, o rastro venenoso desse desejo.
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Os Beatles não eram exímios instrumentistas nem cantores excepcionais, como Elvis, mas os Pistols definitivamente não sabiam tocar nem cantar. Eles faziam uma zoeira raivosa em cima de letras pobres e agressivas e de um rock básico extremamente alto e sujo para a época. Além disso eram muito mais drogados e estavam quase sempre chapados. Duraram pouco, uns dois anos. Foi um furacão do rock, energia, revolta e anarquia. Os Beatles eram carismáticos, os Pistols eram magnéticos, mas insuportavelmente grosseiros e chulos (aliás, por isto mesmo eram magnéticos). Os Beatles foram os espíritos de luz da canção, enquanto os Pistols foram o exu (a barra pesada) do rock. Meio dia, meia noite.
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Há uma energia não absorvida nos Beatles e nos Pistols. Não é a que está nos pólos do bem e do mal, da luz e das sombras. Estas foram conformadas às forças maniqueístas da sociedade ocidental. Esta energia rebelde ficou como sobra no meio do caminho, passando em meio às polaridades do bem e do mal, da noite e do dia: aurora. Nela, pulsa o que realmente se quis (e quer), seja com os Beatles, seja com os Pistols, uma espécie de mundo novo, hippie & punk, anárquico, vário e solidário.
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Na década de 80, muito rock paulista e candango foi devedor dos Sex Pistols. Legião, Capital, Plebe, Ira, Titãs, Inocentes, RDP não seriam o que foram sem o punk e os Pistols. O caso mais intrigante é o da Legião, que oscilava entre a revolta energética do punk e uma vontade construtiva e moralista, quase de auto-ajuda, quase gospel: anarquia e conformismo de Renato Russo.
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yoda/marx
implacável
a força
é
quebre
fuja
negue
ab
sorvido
você
será
pelo lado negro (ou) pelo lado luz
um rastro
venenoso
resta
você
deixar