Mieloma de Ocasião


Pynchon para iniciantes

Thomas Pynchon é provavelmente o melhor escritor vivo. O único talvez capaz de rivalizar com ele, W.G. Sebald, morreu há alguns anos em um acidente de carro. José Saramago transformou-se numa espécie de piada de português repetida à exaustão, embora ainda soe engraçada aqui e ali. António Lobo Antunes permanece vigoroso, mas seu crescente hermetismo pode ser um problema. Salman Rushdie está cada vez melhor, mas não chega às alturas de Pynchon. Com Philip Roth, Don DelLillo, J. G. Ballard, Bret Easton Ellis e V. S. Naipaul é a mesma coisa. Pynchon é o que há.

Os muito burros ou apenas preguiçosos costumam elogiar os romances menores de Pynchon (“menores” no que diz respeito ao número de páginas mesmo) e meio que desclassificar os maiores como “intransponíveis” e “ilegíveis”. Os muito burros e os preguiçosos são o que são: muito burros e preguiçosos. Porque as narrativas picarescas, tresloucadas e movidas pelo que Martim Vasques da Cunha chama de “o triunfo da paranóia” de Pynchon são parte do que de melhor se produziu em literatura desde sempre. Livros como V, O Arco-Íris da Gravidade, Vineland e Mason & Dixon não são apenas divertidíssimos e magnificamente bem escritos, mas funcionam como uma espécie de elegia por um mundo que não tem e provavelmente nunca teve sentido. Para Pynchon, só existe sentido na palavra, é a palavra o único porto mais ou menos seguro – daí que seus enredos escorregadios, coalhados de centenas de personagens com nomes esquisitos (Zoyd Wheeler, Tyrone Slothrop, Frenesi, Sábio Cão Inglês, Samuel Peach, Benny Profane e a “Turma Muito Doida” etc.), todos pensando em um milhão de conspirações por segundo, todos irrespondivelmente paranóicos, como se essa paranóia fosse a única coisa capaz de emprestar sentido e alguma ordem a um mundo sem sentido e totalmente caótico, os enredos dos romances de Pynchon são como alucinações nascidas de uma outra alucinação maior: a História.

Nos dizeres de Harold Bloom, o texto pynchoniano é uma espécie de código secreto por meio do qual o autor faz de tudo para fugir às amarras do Estado, porque o Estado, ali, é como se fosse uma alucinação metida em outra alucinação. A grande sacada de Pynchon é justamente essa: construir um nada que se alimenta do nada, parodiando de forma magnífica toda a estrutura social e a própria Historia, que mais parece um palco onde se digladiam paranóicos. Nesse sentido, sua literatura funciona, para roubar uma expressão de Sérgio Augusto de Andrade sobre o cinema de Polanski, como um riso engendrado nas trevas, mas também como a única forma possível de prece, por assim dizer, no seio de um mundo, a rigor, morto e enterrado.

A literatura de Pynchon rasga toda e qualquer ideologia mediante a injeção, em seus alicerces, do germe da paranóia. Seus personagens, sempre à deriva, sempre perseguidos por “eles”, são vítimas ou filhos do vácuo advindo da ausência da Providência, do intelecto ou de qualquer coisa que os preencha, que os emprenhe de sentido, que os leve em direção a algo para além deles mesmos. Vazio de si em si, o personagem pynchoniano recorre à paranóia ou é engolido por ela. Num mundo regido pela entropia, o Vazio é o nada que é tudo.

Que Pynchon seja um autor recluso, que nunca cedeu entrevistas e cuja única foto conhecida é de quando ele tinha dezoito anos ou menos, bem, isso não é acidental, mas absolutamente coerente com a sua literatura. E o fato de, por exemplo, escrever Mason & Dixon, cujo enredo se passa no século XVIII, em inglês castiço não é algo gratuito, não se trata de um estilismo vazio. Há verdade ali. Porque Pynchon sabe que só a palavra salva, só a palavra é capaz, ainda que pela via da desordem (planejada, mas ainda desordem), de emprestar alguma ordem ao caos.


André de Leones

André de Leones nasceu em Goiânia no ano da desgraça do nosso senhor eu-sei-que-você-não-existe 1980. É autor do romance "Hoje está um dia morto" (ed. Record), vencedor do Prêmio SESC de Literatura 2005 e na época ele achou que isso significava alguma coisa. Venceu também, com um livro de contos de título engraçado nunca publicado, o Prêmio Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, mas esta piada já é velha. Mantém o blog http://canissapiens.blogspot.com, cheio de piadas mais novas.
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