Mieloma de Ocasião


Einstein, reinventor do universo

Se, conforme Harold Bloom, William Shakespeare inventou o humano, Albert Einstein reinventou o universo. As iluminações do sujeito foram e são tantas e tão extasiantes e maravilhosas que mesmo um suposto literato como eu, um (como dizem os "especialistas" com aquele olhar de desdém) "leigo", não pode deixar de procurar, dentro das minhas limitações, entendê-las. Mesmo sitiado pelos (com a licença de Clarice Lispector) esbarros da minha pouca inteligência, o pouco que consigo vislumbrar é avassalador. Principalmente o conceito de tempo imaginário, o qual, literariamente, já havia sido criado e usado por Marcel Proust nos volumes de Em Busca do Tempo Perdido, um monumento da literatura mundial.

O que eu pretendo aqui é abordar os pilares das teorias de Einstein mediante apontamentos tão obtusos quanto incompletos. Li uma batelada de artigos e ensaios de outros leigos como eu e de gente do quilate de Stephen Hawking (que, nos seus melhores textos, consegue, sim, explicar coisas complexíssimas de uma maneira pelo menos humanamente compreensível). Baseei-me mais em duas fontes. A principal delas é o ensaio O Sonho de Einstein, de Hawking, publicado no livro Buracos-Negros, Universos-Bebês e Outros Ensaios (Editora Rocco - Rio de Janeiro, 2000). Outra fonte é uma matéria trazida pela edição de Veja de 27 de julho de 2005. Ambas as fontes esclareceram muitas coisas pra mim. Daí que escrevi algumas notas esparsas e confusas.

Teoria da Relatividade Especial ou Restrita (1905) - Espaço e tempo estão compaginados e são relativos, dependendo da velocidade do observador. Mas a velocidade da luz é sempre constante. A idéia de um "tempo individual"; a constatação de que o tempo passa mais devagar quando um indivíduo está em alta velocidade em relação a outro (o batido mas válido exemplo dos gêmeos: um fica na Terra e o outro viaja pelo espaço numa velocidade muito alta; para o que está no espaço, o tempo passa mais lentamente em relação ao que ficou na Terra).

A velocidade da luz é sempre constante, independentemente da velocidade do observador.

A Teoria da Relatividade Especial demonstra que o tempo não existe, quantitativamente, por si só, estando compaginado ao espaço: falamos, então, de espaço-tempo.

Partindo do princípio de que a velocidade da luz é invariável, Einstein concluiu que, em altíssimas velocidades, o tempo se dilata e o espaço encolhe.

Teoria da Relatividade Geral (1915) - Nesta teoria, um avanço em relação às idéias de Isaac Newton: para Einstein, a gravidade não é apenas uma força que age entre os corpos, atraindo-os, mas uma deformação do espaço-tempo, fruto da massa e da energia inerentes aos próprios corpos, que desvia e/ou retém tudo o que deles se aproxima. Um exemplo? O Sol mantendo sob sua órbita os planetas do sistema solar.

A gravidade altera também a rota da luz. As posições de certas estrelas que vemos no céu, por exemplo, estão "erradas" para nós, pois o trajeto da luz dessas estrelas sofre deformações e alterações por culpa da força gravitacional do Sol.

Em outras palavras, o espaço-tempo é encurvado pela matéria e energia que contém.

Massa e energia são sempre positivas, de tal maneira que a gravidade atrai os corpos uns para os outros. O espaço-tempo, portanto, está encurvado sobre si mesmo, pois essa tal curvatura positiva do espaço-tempo, resultante da massa e da energia presentes no universo, implica que o espaço-tempo, e por decorrência o universo, sejam dinâmicos, ou seja, influenciam e são influenciados pelos eventos. O universo não é estático, inalterável, imutável. Contrariamente a essa conclusão, está o que Einstein chamou de "o maior erro de sua vida": o "termo cosmológico" ou "constante cosmológica". Vou tentar explicar.

No momento em que formulou a Relatividade Geral, Einstein acreditava que o universo era imutável, ao contrário do que previam, inclusive, as equações originais de sua própria teoria. Criou, então, o "termo cosmológico", negativo, que, relacionado com a curvatura do espaço-tempo, positiva, fazia com que ambos se anulassem, mantendo o universo inalterado, sem expansão ou retração visíveis. Em 1929, Edwin Hubble descobriu que o universo está, sim, em expansão, observando que galáxias distantes estão se afastando de nós. É curioso isso. Einstein estava originalmente certo, duvidou dos próprios cálculos, refez parte deles e caminhou para o erro que, mais tarde, reconheceu e chamou de "o maior de sua vida".

Sob diversos aspectos, portanto, a Teoria da Relatividade Geral é uma teoria incompleta. Ela previa singularidades (lugares em que o espaço-tempo teria um começo ou um término), mas não foi capaz de precisar o que adviria dessas singularidades. E o que seria?

A Teoria de Relatividade Geral nos trouxe a noção de que o espaço-tempo está encurvado sobre si mesmo. Uma curvatura positiva, que significa, em essência, que o universo não é estático. Conforme Hubble constataria em 1929, o universo está, sim, em expansão. O que eu quero anotar aqui, entretanto, não são dados ou impressões acerca dessa expansão, mas, sim, o que advém daquela curvatura.

O que faz o espaço-tempo se encurvar sobre si é a própria matéria presente no universo. O mais louco é que essa curvatura pode se dar de forma tão acentuada que uma porção do universo pode se despregar do restante do cosmos. É o que os cientistas chamam de buraco negro.

Os buracos negros, grosso modo, são estrelas colapsadas após o fim do seu combustível nuclear. Estrelas vitimadas pela ação de sua própria gravidade. Um objeto que caia num buraco negro, para escapar dele, teria de se locomover a uma velocidade maior que a da luz, o que, de acordo com a Relatividade Geral, é impossível.

É por tudo isso que se diz que a Teoria da Relatividade Geral prevê singularidades, isto é, "lugares" em que o espaço-tempo tem um início e/ou um fim, mas NÃO é capaz de dizer exatamente COMO se deram e se dão tais singularidades.

Gente como Stephen Hawking acha que este COMO seria explicado pela conjunção das teorias de Einstein com a mecânica quântica. Quem sou eu pra duvidar?




André de Leones

André de Leones nasceu em Goiânia no ano da desgraça do nosso senhor eu-sei-que-você-não-existe 1980. É autor do romance "Hoje está um dia morto" (ed. Record), vencedor do Prêmio SESC de Literatura 2005 e na época ele achou que isso significava alguma coisa. Venceu também, com um livro de contos de título engraçado nunca publicado, o Prêmio Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, mas esta piada já é velha. Mantém o blog http://canissapiens.blogspot.com, cheio de piadas mais novas.
E-mail: alleones@gmail.com