A arte como representação da natureza deixou de ser um ideal artístico há mais ou menos um século. O artista rompeu com o código referencial em favor do código poético. Assim, a arte, que tinha um referencial na realidade exterior, passou a ser centrada em sua lógica interna, adquiriu sua própria realidade fora do âmbito convencional.
Mas, um século depois de processada essa mudança, o que vemos, na postura do observador diante da arte contemporânea, é a neutralidade ou a apatia diante da obra. O que é estranho uma vez que o espectador ganhou o status de co-autor, podendo interagir com a obra num verdadeiro processo de comunhão. A lógica interna, própria da arte atual, parece não fazer sentido. O espectador pergunta, com freqüência, o que o artista quer dizer ou qual o significado da obra, como se houvesse um significado fixo. A obra de arte deveria provocar um diálogo intersubjetivo entre artista e espectador.
A origem desse problema, como não poderia deixar de ser, está centrada em questões que envolvem toda a conjuntura social, econômica, política, cultural etc. Nossa educação é voltada para a formação de pessoas mais ou menos funcionais para o mercado de trabalho. Se, por um lado, temos acesso à informação como nunca, por outro lado, nossa capacidade de gerar conhecimento é estancada. Nesse contexto, as informações se transformam em respostas prontas. Para que as informações se tornem conhecimento, é preciso avaliá-las através de processos cognitivos lógicos. Os mesmos processos que, quando precários, segundo Piaget, nos afastam da compreensão do mundo.
Na era da informação, o gosto pela arte pode se transformar em dogma. O que é adquirido como informação passa a reger o que deve ser apreciado. O dogma de “autoridades” assume o lugar da capacidade de interação com a obra.
Outra atitude freqüente é a preferência pela arte como representação da natureza exterior. Isso ajuda a evitar o estranhamento diante de obras mais instigantes e o que acaba sendo avaliado, muitas vezes, é somente a técnica do artista.
É comum, também, que a arte seja avaliada pela emoção que ela provoca. No entanto, a emoção é apenas um aspecto biológico do organismo. Ela é uma reação automática dos seres vivos, humanos ou não, que permite responder a certas situações de maneira não deliberada. A emoção não envolve processos cognitivos, ou seja, ela está aquém do conhecimento.
Na experiência estética, deve haver uma apreciação cuja via de acesso é o sentimento. Este, ao contrário da emoção, “é uma reação cognitiva de reconhecimento de certas estruturas do mundo, cujos critérios não são explícitos. É percepção das tensões dirigidas, comunicadas e expressas pelos aspectos estáticos e dinâmicos da forma, tamanho, tonalidade ou altura. Essas tensões são tão perceptíveis quanto o espaço e a quantidade”*. Existe uma relação entre emoção e sentimento: o sentimento esclarece o que motiva a emoção, ele faz a transposição do mundo da regulação automática para o mundo da regulação deliberada.
Ao nos colocarmos diante da arte com sentimento, nós passamos a nos relacionar com ela de uma forma mais profunda, acolhendo-a em todas as suas potencialidades. Assim, podemos viver uma experiência estética nova e capaz de ampliar o nosso horizonte interior. O que é articulado, nesse caso, não é uma emoção, uma agitação afetiva, mas um sentimento, uma forma de conhecimento.
Desse modo, o gosto deixa de ser uma preferência e passa a ser um interesse de conhecer, uma capacidade de julgamento sem preconceitos. Isso nos leva a um diálogo intersubjetivo com a obra de arte para além da técnica.
*Filosofando: Introdução à Filosofia. Aranha e Martins. São Paulo, Editora Moderna, 1993, p. 347.