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dúvida, amor, poesia e traição ou simplesmente sobre judas e dante — parte dois ou final
a traição inquire dúvidas. esta é a senha, mote, palavraentrada ou óvulossêmen do segundo tomo do novíssimo testamento — que o público em geral não conhece. aliás, o público em geral — que eu não sei exatamente do que se trata — não conhece sequer o primeiro tomo, ainda que levando em conta uma página do jornal o popular (mar. 2005) e uma indicação de leitura da revista entrelivros (out 2005) — neste caso, por força da poeta de mão pejada micheliny verunsky, autora de geografia íntima do deserto (landy, 2003). bom, feita esta digressão quiçá desnecessária, deixem-me voltar ou vão embora. aquela senha não somente abriu o segundo tomo do novíssimo testamento — cujo cantar de abertura é “judas ou a traição inquire dúvidas” — como impediu que eu continuasse o cantar, o tomo e a trilogia toda. (só mais esta digressão: o novíssimo testamento é uma trilogia. embora alguns leitores pensem que aquele conjunto publicado seja o poema tríptico em si. bem, não é ou não é para ser. de todo modo, não deixa de ser uma trilogia. mas os leitores que não prestaram atenção, vão lá à edição (ufg, 2004) e confiram a informação na folha-de-rosto. acabei.) a traição inquire dúvidas. se eu não fosse eu, fosse, por exemplo, matsuo bachô ou cancão — estes poetas com uma capacidade de concisão invejável —, esta senha sairia na conta exata como segunda parte deste texto — iniciado no número anterior ou primeiro de ruídobranco, como queiram. para o azar geral, não sou e tenho uma verve atrevidamente épica — o que significa uma boa dose de hipérboles, um gosto insaturado para desgraça e uma despreguiça de falarescrever que só vendo… mas desta vez vou devagar — tanto que supraespaceei as linhas um pouco, para o leitor não pensar que eu não sou eu, se o texto não sair tão longo como de costume. se um mote empurra ou tem a finalidade, ou função única de empurrar, o barco de uma suposta obra literária para conferir propulsão ao motor — daí mote, motor, motivo, moção, mover etc. —, nada mais natural do que realizar esta finalidade ou dar azo a sua função até certo grau de presteza. mas, como diz patrícia martins em “uma experiência estética” (“patchwork” atual ou fev.): “a arte como representação da natureza deixou de ser um ideal artístico há mais ou menos um século”. e por extensão: natureza não é coisa própria para os movimentos da arte, ainda que se defira materiais, disposição biomotora e sinapses — afinal de contas, sem sinapse, pollock teria vivido de pintar retratos em cody, wyoming; samuel beckett não teria passado de professor de italiano e/ou francês em dublin ou mesmo em foxrock, onde nasceu; cancão (joão batista de siqueira) teria se limitado a sua condição prática de oficial de justiça lá em são josé do egito, no sertão de pernambuco, e eu nunca teria lido flores do pajeú; e antúlio madureira jamais seria capaz de tocar schubert usando um serrote de serralheiro. materiais, disposição motora e sinapses à parte, os movimentos da arte são coisas da cultura. grosso modo, e isto não é uma novidade, a natureza não faz arte sozinha. mas como pode um mote, ele mesmo, movido das entranhas de seu autor — sujeito historicamente materializado a serviço das relações sociais e da neurose — com uma única função apenas — por isso é um mote —, trair a si mesmo, e a seu autor por extensão, descumprindo sua finalidade? penso que chega um dia que o mote se esquece de ser, mesmo que tenha acontecido — até porque não seria mote sem acontecer. sou pisciano: geralmente, gosto de fazer perguntas; mais geralmente ainda, gosto de não respondê-las; e, sobretudo, não sei lidar muito bem com isso — senão, seria taurino. logo, exatamente onde doem os sisos quando nascem, lateja-me a pergunta: quem traiu quem? judas a jesus, ou o contrário? ando fortemente balançado, se os sisos agüentarem e não precisarem de uma cirurgia — dessas que deixam um veio de cordões atados no fundo da boca —, a pensar que as questões da pergunta têm resposta positiva. este é o lugar onde o amor pede licença para descalçar as botas. se o amor descalça as botas, a traição hasteia a flâmula. então o amor precisa de vigília? não. a ele apenas foi negado o direito de descansar. jesus queria fazer, e fez, uma revolução sócio-política entre os judeus sob o domínio de roma. não raro, sobretudo em sociedades teocráticas como as das ovelhas de caifás, uma revolução sócio-política é também uma revolução religiosa — independentemente de sincera vontade ou necessidade de revolução espiritual. daí sócrates, o platonismo, ihwh (iavá, iavé ou eu sou aquele que é e coisa semelhante ou de ossatura maior), augusto, vergílio, maria, madalena, paulo, plotino, santo agostinho, são francisco de assis, são boaventura, dante, tomás de aquino, joana d’arc etc. judas queria fazer, e não fez, uma revolução sócio-política entre os judeus sob o domínio de roma. ele nunca havia encontrado homem mais determinado a tanto do que aquele tal de yeshuah, de olhos amendoados e duros, com certa ternura, a pele tostada de sol, o cabelo escuro e longo encruado pelo ar seco, pelo sol e pela areia desértica do oriente-médio, as mãos calejadas e cicatrizadas de trabalho pesado com madeira, pregos e redes de pesca, e os dentes brancos, que judas sempre quis ter, mas a vida pior não lhe ensinou como. para judas, e talvez jesus nunca tenha perguntado, a revolução deveria ser armada, não de palavras nem de epilíricas sobre o reino dos céus, a casa do pai etc., deveria ser armada de lâmina crassa, pedra de aguilhoar, e mota pela vontade e pela necessidade do derrame de sangue romano e de judeus agraciados com prebendas patrícias. jesus parecia ter o tino para um coisa assim. no entanto, ao que tudo indica, depois da sabatina — que me perdoem o termo, de vez que é posterior à passagem da idade média baixa para o renascimento — na feira, mercado, sinagoga ou coisa que o valha, na jerusalém da época — lugarzinho destinado a cenário da derruição humana —, tudo também indica que judas ficou ainda mais empolgado com a determinação daquele homem. a questão é: jesus lhe deixou tudo claro? tudo indica que não. bem, de todo modo, judas continuou com aquele homem, que mais ressuscitava do que matava. logo, inferimos que judas também não deve ter deixado claro a ele suas intenções de revolução. por isso trair, traduzir, trazer, transitar, transar etc. têm a mesma implicação radical: mover ou ser movido ou fazer com que se mova de um ponto para o outro. na primeira parte deste texto, sem razões muito aparentes, quis dialogar com o leitor no sentido de fazê-lo fustigado a voltar-se com mais cuidado para a pertinente presença da dúvida no conjunto de todas as relações humanas. amar, ler poesia, trabalhar, informar-se do mundo em volta em tempo sincrônico senão real etc. deve ser vivido sempre com um florir reticencial de interrogações gritando de garganta afora. no final, não teremos feito muito mais do que perguntar. creio que toda vez que uma pergunta leva a outra ou gera mais uma questão dentro de seu próprio sistema inquisidor, a nova pergunta ou questão já é parte do mundo possível das repostas. e se? bem, não sei ainda. e quando, prometo: não avisarei.