Editorial


ruídobranco continua viva, se alguém pensou que abeirávamos o silêncio. este é nosso segundo volume, edição, número ou coisa que o valha. continuamos lúdicos, sem perder a sisudez e sempre descalçados das botas da frivolidade. passamos por hanói, zurique, são tiago de compostela, nova iorque, garanhuns, boituva e nem arredamos os pés de goiânia. faltou um diálogo mais intenso no último volume (etc.), mas tudo se justifica pela apreensão: “aonde isto vai dar?”. dará sempre, esperamos — e a espera monta guarida batendo polichinelo — na ruídoplosão do sentimento — esta arquitetura psíquica com ética dentro. por isso, cara e caro leitornautas, não se apoquentem, voltaremos mais vezes e vezes mais com o peso salino das lágrimas e a elasticidade dos sorrisos. e por falar em sentimento, força supressora da paixão — esta égua desenfreada —, na coluna patchwork, patrícia martins nos convida à leitura de “uma experiência estética” — texto de onde roubei aquela imagem da arquitetura etc. e de onde fiz uma ablação para a página p. no texto da coluna, a autora começa indagando, com sua sempre acuidade crítica, sobre a postura do observador da arte contemporânea, este co-autor perdido na conquista da própria interatividade com as obras. a autora expõe o problema à dialética entre mundo funcional e desinteressado, colocando devidamente em crise a necessidade de recepção lógica impingida à obra de arte pelo mundo ocidental. em neuropop, wilton cardoso nos dá sua “canção da cidade”, lembrando-nos do “programa para a necessidade – 3”, de seu tratactus marginale (2006) — disponível para download ou pirataria na naumarginal (v. link), por excelente iniciativa contracomercial do autor. no “programa”, o wilton já nos ensinava, antes da “canção”: “Escrever coisas necessárias, várias, móveis, imbricadas com a vida e encharcadas de mundo. Estender o texto na carne das cidades, enredá-lo para que seja a viagem pela margem da urbe, para que seja a sua própria margem” (p. 10) — que, para não matar o poema à força de certos recortes, é a melhor apresentação que dele posso fazer neste espaço limitado. andré de leones, em mieloma de ocasião, põe-nos em contato com a teoria da relatividade geral, de einstein, não nos limitando a lembrar de que dela resulta parte da conduta do sujeito contemporâneo, mas nos levando a observar que einstein é o autorcientista do mito da formação cosmogônica do universo, superando newton, kepler, galileu, os medievais e os antigos (árabes, gregos e hindus). na pagina p., jamesson buarque finalmente conclui seu texto “dúvida, amor, poesia e traição ou simplesmente sobre judas e dante”, sem uma boa dose de credo, a despeito de seu novíssimo testamento, e sob o pretexto do mote: “a traição inquire dúvidas”. com seu “metaprosema”, em vaca de nariz sutil, wesley peres, na boa medida do gosto de seu prosema romanceado casa entre vértebras, põe em questão a linguagem e a criação literária, pondo a própria questão também em questão, e nos convida àquilo que a apoteose da literatura sobre si mesma no século xx assumiu o cargo de olvidar: a imaginação. a própria forma escolhida pelo autor, e na qual é mestre, voltada para si mesma sem se ensimesmar por força do mero cinismo da linguagem autoexplicativa, é uma tessitura de formas onde até um leão em carne viva, com o qual se sonha sem dormir e se vê em sono, ruge em nome da encarnação da verdade. em c-dur, paulo guicheney, com a peça eletroacústica “a voz de um corpo despedaçado”, oferece-nos um gesto de criação de cultura sobre cultura, partindo da matéria morta que se faz viva na comunhão de melodia com sibilos, sussurros, cliques, e quiçá urros suspendendo uivos. a composição do paulo nos arranca de nossa acomodada recepção musical com injeções de metamorfose moduladas em pedaços na distensão do espaço-tempo. o texto “despedaçado, porém vivo”, do psicanalista cristiano pimenta nos golpeia para pensar “a voz de um corpo despedaçado” saindo do estado de redução da melodia (sonoridade pura) em movimento para o estado de expansão sintático-semântica da língua, que é uma desapropriação inteligente da pureza musical, em um sentido de interlinguagens.

jamesson buarque