Vaca de Nariz Sutil


Jean Dubuffet



METAPROSEMA


Pensar respirar, pensar, não pensar, não sei, tento me embriagar de não ser eu, sei lá. Beatriz ou Ângela, também nem sei em quem penso, o nome do corpo cujo cheiro se desdobra em algum lugar vazio da memória. Não, não bebo enquanto essa voz vai sendo-me eu isso, não, nunca bebo, sou sempre assim, e minha memória não é outra coisa. Serei sempre, serei sempre o que já está morto, o que morre em cada palavra. Cada palavra materializa quem sou, isto é, a ausência de qualquer eu. Essa é minha fé: não há eu nenhum. Esse é meu inferno: a despeito da minha fé e das minhas metáforas, morrerei. Somos pó desde já, como diz o Vieira. Sempre fomos. Mas agora esse eu — que há, que não há, pouco importa — esse eu-pó pulsa e dói e sonha e é tão mesquinho e se dissolve em suas divisões: é palavra e é corpo e nódoa nua de matéria dormente e é silêncio comprimido no crânio e é acéfalo e corrosão de ventos e amor à passante de saia curta e é deus sem casa e é rato, santo, ser que ama o beco que há em cada humano que há, que não há. Deus, o mundo é mesmo azul! Deus, sei que é uma palavra, e que as palavras podem matar e assim fazer moldura em torno da dor de pulsar, pulsar mesmo, a carne pulsando, ser carne pulsando, um músculo enviando esse vinho de gosto metálico, ser corrente elétrica codificada de um modo que o corpo conhece e entende, mas nós não. Quando em linguagem, moramos de fora do corpo. Acreditamos de mais nas palavras. Acreditamos de menos. Estamos engarranchados no mais ou menos. O caminho do meio, gritam os budas nossos de cada dia. Que meio o quê? Como se houvesse pontas. A linguagem é a ou b, como quer os budas da linguagem? Isso é a máquina da linguagem, isso é o osso movediço da linguagem. Mas e o desarranjo da linguagem? mas e o eco e o oco? mas e a língua maltrapilha? Ninguém sabe o que fazer com ela, a língua do homem no boteco, a língua da mulher que ganha a vida lambendo outra língua, a língua da criança que diz só palavra que se diz a si mesma. E então? Falo da vida, só disso falo, e por isso falo do que mata a vida vivificando-a, da palavra com que fazendo malabarismos ou deixando-a quieta tentamos rearranjar o impossível, isto é, que o outro receba o que lhe enviamos. E o duas vezes impossível: que haja simetria entre minha intenção e minha palavra (ou ausência dela).


e não saber de nenhum modo o que se diz, e morrer-se vivendo-se corpo, fazendo-se palavra esbarrada de carne, e frequentar os terríveis abismos da superfície, e não mais viver a tensão calma dos opostos, do arcoedalira, mas a tensão do sem rumo, o campo do que não se opõe, mas se rasga urdindo, urdindo o que morre com o que já é morto no que morre, o eterno é o que já é morto, o que não nasceu, e apenas nos freqüenta, nós, coisa supostamente nascida. É isso, somos a coisa supostamente nascida, coisa que sucede e antecede a pétrea maciez da aniquilação. Não se trata de nenhuma metáfora mais, nem de dizer a coisa mesma. De repente sei que soube desde sempre, todos os terrores, todos os sonhos infinitamente piores do que se pensa que é a vida são o próprio nervo da vidamorte, da vidamorta, da morteviva. Sabe, quando temos um pesadelo, como quando sonhei com um leão em carne viva, respirando, um leve ronco navalhar? E aí acordamos, e respiramos pois era apenas um sonho? Pois é, sempre soube disso sem saber, quando acordamos é que dormimos, pois o nervo da vida estava lá no leão em carne viva, vivo e morto. Vestimos de palavra o leão, ou mesmo de sonho, vestimos a palavra e dormimos, e doemos a dor mineral da palavra, em carne morta e viva, em sonho de que o pesadelo é o que não existe: a realidade, querem a realidade? vejam Francis Bacon, o desenho de seus gritos ausentes... Sonhem de muito perto a nervura disso que tento apontar ao não falar disso.

O que pretendo é enfiar o leão em carne viva, vivê-lo nas palavras, dar uma morte de bolso, dar a possibilidade de chamar de arte o que é morte, sem no entanto des-afiar a navalha da fina respiração da carne viva que somos. Que a palavra não pretenda mais qualquer aplacamento, qualquer consolo. Que a palavra não mate a coisa nem a vivifique. Que a palavra seja ela própria corpo, mineral e artéria, vento e veias, borboleta e carne em decomposição, criança e morte que a criança sabe muito antes de nós.


É evidente que tudo é autobiografia, na medida em que a palavra é a carne daquele que falescreve inocentemente crendo que a palavra de algum modo o aloje fora do corpo, ou que mineralizando o corpo, torna-o monumento, coisa eternamente viva porque eternamente morta. Tudo não é outra coisa. As palavras não dizem outra coisa, dizem a elas mesmas, dizem o seu artifício, dizem que na verdade são a encarnação, a morte em carne, viva. Ao menos é isso que diz a palavra poética, que pode estar em qualquer lugar, em nenhum lugar, é isso a única coisa que a palavra poética diz: que a palavra é isso, encarnação do desparecimento do homem, do homem-carne-palavra.


Bom, há também o amor. Ficção poderosa, porque extrai da não-ficção-morte (miolo da linguagem) a potência de fazer existir o que não existe. O amor move nossas estratégias, sustenta-as. É a morte revestida de vida, ocultando mostrando a morte: “Eu morro por ti” “Estou morrendo de amor por você” “Você é minha vida”, não é assim que falam os apaixonados? Não é assim que nós nos falamos, Ana, Camila, Beatriz, Literatura, Ideais, Livros, Vinho, Futilidade, Tempo, Corrosão, Vida, Morte? Tenho medo de dizer o que digo. De qualquer forma, queira eu ou não, o medo é mesmo um dos nomes do homem, senão que o nome que mais o nomeia, apesar de nomeá-lo aos pedaços.


Então que literatura não é bem dizer ou bem escrever nada ou tudo. Literatura é o não em carne viva, talvez. Talvez, a implosão corrosiva que aloja o homem, que lhe dá o descanso de buscar descanso. Que lhe dá a paz de não querê-la. Talvez. Que faz cessar o deslizamento infinito de “talvezes”. Máscara e rosto não se opõem nem são iguais. Tudo é o giro em falso que sustenta o que é insustentável: a coisa homem e os seus nomes.




Wesley Peres

Wesley tem 31 anos, mas sempre acham que ele tem cara de 30. É autor de Água Anônima (Prêmio Cora Coralina, 2001) e Rio Revoando (Com-Arte/USP, 2003). Em 2007 lançará Palimpsestos, pela UFG. Acha deplorável pessoas que gostam de Fanta Uva, gosta muito de estourar aquelas bolinhas de plástico e da literatura produzida na Papua-Nova Guiné. Ah, é psicanalista e mestrando em literatura pela UFG. Mora na Cataluña. E-mail: wesleyperes@uol.com.br