a nau sem porto

Juarroz, Llansol & Jabés

Nilson Oliveira









Como conceber um pensamento que não seja outro? [Jacques Hanssoun]

O pensamento-outro é um pensamento em línguas, uma mundialização tradutora de códigos, de sistemas e de constelações de signos que circulam no mundo.

[Abdelkebi Khatibi]

É estranho como alguns autores permanecem apartados da cena editorial brasileira, refugiados no limite da fronteira pela completa ausência de tradução ou, quando compartilham do idioma, ignorados por razões que escapam ao entendimento dos leitores, comentadores ou apreciadores da escrita literária. A literatura esta em continuo movimento, é inteiramente m-o-b-i-l-i, ela sempre move os seus laços, dentro ou fora do foco, dentro ou fora da fronteira. Os leitores, em geral, estão sempre diante de inquietações e provocações geradas pela escrita, pelo estilo, pelas renovações que o espaço literário não pára de gerar. Uma questão se abre. Mas toda questão verdadeira está aberta a um conjunto de questões [o conjunto é a realização dessa abertura que é o sentido da questão]. Daí sua força movediça, sua intensidade, seu valor. Mas agora, vemos que existe nela, mais profundidade, um desvio que desvia o questionamento de poder ser questão e de obter resposta. Esse desvio é o centro da questão profunda, uma quebra que move para muito longe, essa é a força da escrita literária. Essas escritas transitam sempre no limite, como a viagem de Ahab[1], está sempre por perfurar o limite das coisas, de um mar a outro, navegam o tempo todo, atravessam o labirinto da escrita alcançando sua outra margem. Nela, as escritas atravessam-se, num jogo incessante de possibilidades e pensamentos. Estão curvadas ao aberto do inominável, em uma jornada que não reconhece o caminho volta.

A PAIXÃO OBSCURA

Borges e Cioran tinham em comum a paixão por autores obscuros; estendiam seus radares para muito longe – além da fronteira, do cânone, do limite do acervo ocidental – para alcançar o inusitado de obras que, pela força, deslocavam-se como árvores sem raiz, no coração do desconhecido, por fora do lugar, do idioma, em cruzadas pela superfície do espaço literário. Cioran, debruçado em figuras que vão dos místicos (de toda ordem), passando por filósofos, escritores. Desenraizando uma genealogia do desconhecido. E Borges, atravessado no conhecimento alhures: árabe, nômade, imemorial. São dessas fontes que eles extraíram sua força, sua capacidade de trânsito, seja pelo limiar da filosofia, da literatura ou do que for. Saberes que, como num eterno retorno, fortaleceram o pensamento, a escritura, fazendo deles o que foram e são, pela potência de suas obras. Borges e Cioran: referências que tangenciaram saberes além da fronteira, evidências que nos empurram aos abismos da outra margem; margem cujos nomes se multiplicam em um sem número, em escritas que provocam a sede de cada leitor. Nessa esfera, Edmond Jabés, Maria Gabriela Llansol e Roberto Juarroz, surgem como figuras que de um certo modo já lemos ou ouvimos falar, mas que da totalidade da suas obras estamos, no espaço editorial brasileiro, apartados, envoltos por uma lacuna, cujos esses nomes, tal como outros, têm pouca penetração. Mas ainda assim, graças à ousadia de alguns, por vezes desponta no horizonte vestígios significativos, traduções ou ensaios, cercando as obras desses autores, evidenciando cada vez mais a força dessas Naus no espaço literário. O ensaio e a tradução de alguns poemas de Juarroz por Nonato Cardoso[2]; as traduções de Jabés feitas por Caio Meira[3] ; e o Livro de ensaios ‘sobre Llansol’, organizado por Lúcia Castello Branco[4], denotam perfeitamente isso, são como linhas invisíveis que, pelo seu vigor, atravessaram momentos essenciais dessas escritas, deixando ao leitor atento pistas para, na trilhas desse arquipélago, uma jornada mais distante.

O BILINGÜISMO ATIVO

A literatura é uma região sem muro, um não lugar, um fluxo de transito enlouquecido, onde as escritas se atravessam em línguas estranhas, o bilingüismo ativo. Comunicam-se pelo intenso das suas obras. O livro que hoje desponta do desconhecido vai cada vez mais, pela força da sua opacidade, sobrepujando a babel, enredando-se para o aberto de Alexandria ou para as estantes do desconhecido, em qualquer ponto remoto. Tangenciam por qualquer lugar, não descansam nunca. Atravessam o infinito das fileiras, ao lado Põe, Lautréamont, Musil, Celine, Kafka, Bataille, Thomas Bernhard, Blanchot e outros e mais outros. São os sonâmbulos da escritura, aqueles que rondaram a noite sem descanso, que ergueram suas obras com a substancia do eterno, com o liquido que vaza das artérias. Esses livros não têm destino, pertencem a ninguém, não reconhecem pátria nem fronteira, circulam o mudo e assombra os leitores, convoca-nos cada vez mais à travessia do inevitável, suas paginas estão sempre abertas.

AS VERTIGENS DO ARQUIPÉLAGO

I

Roberto Juarroz é um caso de convívio intenso com a escrita literária. Viajou, pesquisou, escreveu, traduziu, mergulhou ao centro das escrituras perfiladas por fora da raiz como em Heráclito, Mallarmé, René Char. Injetou na literatura ares de renovação, de força, de inusitado, em voltas com o pensamento, com o exílio, enredando-se para mais distante. Juarroz foi poeta de uma escrita peculiar, de um estilo que atravessou os alicerces do inominável e do possível, presente em todas as coisas e fora delas. Toda a sua obra consiste em um único tema: Poesia vertical[5], que se engendra em uma infinidade de números, como se através desse ciclo incessante perfilasse as bandas do infinito.

II

Maria Gabriela Llansol é dessas escritoras que agem silenciosas; sua movimentação é quase invisível, dela só vemos as irrupções, suas cintilações que jorram num lastro cada vez mais sólido, líquido, surpreendente; sua escrita se espraia em uma obra extensa e diversa que navega numa constante superação de si. O que começa em um livro apaga em outro ou atravessa seu limite edificando um plano; a obra vista em perspectiva que se estende além do limite da vista, em um mar de areia líquida que engole todo aquele que nela se lança, que seduz o leitor como um canto de seria, atrai para o centro da sua atmosfera. Seu movimento líquido revolve a não mais poder, escorre em uma jornada cujo curso ou destino é desconhecido.

III

Edmond Jabés é o poeta da travessia, do pensamento nômade, um pensamento encontrado nas margens, nas distâncias e nas questões silenciosas, um pensamento abolido das reminiscências, desenraizado do peso da identidade. Da escrita de Jabés cintilam os ventos de um pensamento-outro, pensamento que vaga pelo deserto da página branca, em um ciclo sagrado em torno do inexistente. Corre por suas veias a escritura, o exílio, o acontecimento. Esse é o investimento de Jabés, o combate pelas entranhas de um pensamento que se desloca, estando sempre aberto, sendo sempre outro. A escrita de Jabés age silenciosa e encontra no sujeito a decisão de não-ser; que consiste no desejo nômade de convocar o ausente, para tornar real sua presença, fora dela e do mundo; para presentificá-la em sua realidade de escritura. Seu lugar é o não-ligar. Esse é seu combate, sua matéria de fim e de começo, ofício de interminável busca.



[1] Moby Dick , Herman Melville: Francisco Alves, 1982

[2] Roberto Juarroz, Nonato Cardoso: revista Polichinello, nº 1, 2004 e nº 4, 2005.

[3] http://www.caiomeira.kit.net/escritos.htm

[4] Os absolutamente sós: Llansol - Lacan – Letra: Autêntica, 2000.

[5] Roberto Juarroz, Poesia Vertical I e II: Emecê, Buenos Aires, 2005

O LIVRO POR VIR

I Maria Gabriela Llansol

Há textos reais — trazem uma coroa na sua humildade.

Há textos moveis — trazem o desprendimento no seu

próprio ser. Trocam-se por imagens.

Há fio frios nas janelas, que as mantêm abertas.

Há alegrias indizíveis que nascem de anéis que enterramos

nas palavras, nos lagos, no alto das

montanhas.

Há certezas tão verdadeiras como incertezas.

Há lugares que já alcançamos sem nunca os ter habitado.

Há o êxodo que consome os tempos, um a um, como pétalas.

Há o insondável perfume claro — nesse lugar libidinal.

Há o sexo de ler

[Do livro: Inquérito Às quatro confidencias, Relógio D’Água. Lisboa 1996]

II Roberto Juarroz

Certas luzes apagadas

iluminam mais

que as luzes acesas.

Há lugares onde não é preciso

que algo esteja aceso para que ilumine.

Além disso a coisas

que clareiam melhor com as luzes apagadas,

como alguns extratos oblíquos do homem

e alguns ângulos que se instalam furtivamente

nos espaços mais abertos

E existe também uma intempérie da luz,

uma zona despojada e imparcial

onde não há diferença

entre luzes acesas

e as luzes apagadas.

Tradução: Nonato Cardoso.

[Do Livro Poesia vertical 1, Emecé, Buenos Aires. 2005]

III Edmond Jabés

I

Uma noite para levar

um outro sol.

II

O cego conheceria

a doçura primitiva

de ser inteiramente noite?

III

"Um sol está em nós — dizia um

sábio — A manhã o ignora e, portanto, fez

de minha vida um manhã perpétua."

IV

"Não há — dizia ainda o

sábio — transparência que, uma vez, não tenha

sido desmascarada."

Tradução: Caio Meira

[La mémoire et la main, 1974-1989]

Nilson Oliveira, editor da revista Polichinello, autor de

A Outra Morte de Haroldo Maranhão (edições IAP 2006)

nilson_olliveira@yahoo.com.br