Número 3
<< Contribuições >>
Editorial
Para não deixar ninguém mal-acostumado, desta vez respeitarei o sistema de caixa-alta e caixa-baixa até última ordem. Estamos de volta e temos boas novas — se é que ainda se anuncia assim uma boa notícia. Nosso colunista Wesley Peres, com seu romance prosemado Casa entre vértebras foi congratulado com o primeiro lugar do Prêmio Sesc de Literatura e deverá ter seu livro publicado ainda este ano pela Editora Record, repetindo o feito de nosso também colunista André de Leones, autor do romance Hoje está um dia morto (Record, 2006). Este prosemador pejado, Wesley Peres, também lançará, pela Editora da UFG e ainda este ano, seu Palimpsestos — livro para o qual tive a oportunidade de fazer as “orelhas”. Faço saber que a coluna funda a obrigação de mais intervenções. Conhecer todo o projeto é uma necessidade que já ouço encher nossa caixa-de-email. Ademais, já estou vendo vocês, leitornautas, enchendo nossa caixa-de-email também para grelar seus olhos no meio do texto a sopro de eco movido a garras de paredes de cidades sussurrando laivas de sangue e crepúsculo e aurora. Em “Neuropop”, Wilton Cardoso nos convida a algumas de suas melhores revelações críticas provenientes do Tratactus marginale. Neste caso, trata-se do texto “Canção & poema”. O autor não se limita a discutir a distinção entre o formato, o discurso e as intenções da canção em relação ao poema, mas dá um salto longo, propondo algo que uma ontologia própria de cada objeto estético deste. Afinal, como o próprio autor nos descreve, a canção, porque performática, acasala-se ao corpo dos gestos, enquanto o poema, este objeto de língua para dentro, torneia com as diversas ginásticas dos idiomas pela ausência de corpo que o coabite de fora. “Cada assassinato em cada livro de Dostoiévski é, na verdade, o assassinato da humanidade inteira” — eis uma observação com precisão nanométrica. O destaque é uma das sutis apreciações que André de Leones faz em “Fiódor”, texto de “Mieloma de Ocasião” acerca da dimensão humana, da capacidade de perscrutação do desespero, do grito, do hoje comum subterrâneo pouco consultável (quiçá inconsútil) do inventor do romance da modernidade, Fiódor Dostoiévski. A “página p.” trás, oportunamente e infelizmente, uma homenagem ao grande poeta Gerardo Mello Mourão. Oportunamente porque este ano o poeta comemorou seus 90 anos e porque sua obra reclama mais e mais um lugar no cânone brasileiro. Infelizmente porque a homenagem é movida, também, pela morte do poeta, no dia 9 de março. O colunista aproveita o texto para dialogar com Wesley Peres, Patrícia Martins e Wilton Cardoso, além de fazer indicações para sua carta “Nênia a Gerardo e convite”, no Jornal de Poesia, e para a competente revista “confraria — arte e literatura”. Em “Vaca de nariz sutil”, Wesley Peres aproveita o espaço para dar a você, leitornauta, conhecimento de Vicente Franz Cecim, escritor paraense que é uma espécie de xamã da prosemia nacional. Entrevistado pela professora e escritora Rita de Cássia, também paraense, o autor de Viagem a Andara oO livro invisível (Iluminuras, 1988), mantendo seu tom de misticismo ou sublimação do fazer literário, fala sobre sua narrativa sem enredo, e de seu interstício entre verso e prosa que ele chama de “escritura”. A escolha de Wesley Peres, mais o texto de “Patchwork” do último número de ruídobranco, e os textos atuais de “Neuropop” e “página p.” compõe o círculo de debate sobre recepção estética como leitura com princípio de prazer e como leitura crítica. Beethoven, com seu sabor de angústia e alegria, Samuel Barber em certos compassos de adágio, inventio de Glenn Gould sobre variações de Bach, György Ligeti com sua contra-recusa da tonalidade, misturados a Gustav Mahler, que ao contrário de Ligeti, rompe com os limites da tonalidade, é o resultado da peça “Música Eletroacústica nº 3” , de Paulo Guicheney. A peça, além do espaço de ruídobranco, está disponível no site Sussurro da UFRJ e foi apresentada na Bienal de Música do Mato Grosso em 2004. Da escuridão comum ao mercado editorial brasileiro, comentando “a paixão pela obscuridade” de Borges e de Cioran, Nilson Oliveira, editor da Revista Polichinello, inaugura no espaço “Contribuições” apresentando Edmond Jabés, Maria Gabriela Llansol e Roberto Juarroz. O espaço, a partir deste número, leitornautas, existe para sua participação. Em “Contribuições” vocês tanto poderão apresentar textos críticos da própria verve — como os nossos e o de Nilson Oliveira —, poderão estabelecer um diálogo ou discussão ou debate com nossos textos e/ou poderão apresentar textos de terceiros, que acaso queiram ver publicados no espaço de ruídobranco. Dentro disso, os colunistas desta revista, de todo modo, não abdicam do direito de selecionar os textos enviados, afinal de contas, temos um conselho editorial.
jamesson buarque