Mieloma de Ocasião


FIÓDOR

Em Operação Shylock: Uma Confissão, uma das obras-primas do escritor norte-americano Philip Roth, há uma passagem maravilhosa em que o autor, ali também personagem e narrador do romance, conversa com o escritor israelense Aaron Appelfeld sobre o que ele, Roth, considera “a maior frase de Dostoiévski”. Transcrevo a passagem na íntegra:

“Você se lembra, em Crime e Castigo, quando a irmã de Raskólnikov, Dúnia, é atraída ao apartamento de Svidrigáilov? Ele a tranca consigo, põe a chave no bolso e, então, como uma serpente, parte para seduzi-la, à força se necessário. Mas, para seu espanto, no momento em que a tem acuada, a linda e bem-educada Dúnia tira um revólver da bolsa e aponta para o coração dele. A maior frase de Dostoiévski vem quando Svidrigáilov vê o revólver.”

“Diga”, disse Aaron.

“”Isso, disse Svidrigáilov, muda tudo.’”

Os romances de Fiódor Dostoiévski são como bombas de efeito retardado, pelo menos para mim. Eu me lembro de quando lia Os Demônios pela primeira vez. Estava ainda no começo do volume e um amigo me disse: “A passagem com a confissão de Stavroguin é uma das coisas mais horripilantes que já li. Espere só até chegar lá.” De fato, quando li essa passagem, lembro-me de ter ficado bastante impressionado, mas não a ponto de achar aquilo uma das “coisas mais horripilantes” em que já tivesse posto os olhos. No entanto, semanas e meses após terminar a leitura, mesmo já tendo lido outros livros desde então, aquela e outras passagens de Os Demônios ocupavam a minha cabeça e os meus pesadelos. E o crime de Stavroguin, aquele crime especificamente que ele “confessa” a certa altura, passou, de fato, a configurar em minha memória como uma das coisas mais terríveis e profundissimamente humanas (na pior acepção possível do termo “humanas”) de que tomei conhecimento em toda a minha vida como leitor.

Sempre que termino de ler ou reler um romance de Dostoiévski, faço como Svidrigáilov e digo: “Isso muda tudo”. Porque nada fica no lugar. O demônio Fiódor captura instantes da mais negra humanidade, provando com todas as letras e frases, por meio de seu estilo pedregoso, rascante e ríspido, que, desgraçadamente, o que melhor define o ser humano é mesmo a sua enorme capacidade de perpetrar a violência contra os outros e contra si.

Cada assassinato em cada livro de Dostoiévski é, na verdade, o assassinato da humanidade inteira. Cada estupro é o estupro da humanidade inteira. Cada grito de dor ou de desespero é o grito de dor ou de desespero da humanidade inteira. Muito mais do que Henry Miller, aquele bêbado chato, é o demônio Fiódor o nosso, ao mesmo tempo, redentor e exorcista. É de Fiódor a cusparada certeira em tudo o que há, inclusive na própria arte e até mesmo nas fuças de Deus.

Apesar de toda a condenação do niilismo perpetrada em seus livros, especialmente em Os Demônios, Dostoiévski talvez seja, paradoxalmente, o único “atleta niilista de Cristo” da Literatura. Conciliando o irreconciliável, ele nos mostra que tanto Deus quanto o Nada se encontram no Homem, e o Homem, invariavelmente, de forma literal ou figurada, sempre acaba metendo um tiro no próprio ânus.

A obra do autor russo encerra vários paradoxos, contradições incríveis. Ainda que, do ponto de vista dele, se Deus não existisse tudo seria possível, o que seus romances nos mostram é que, independentemente da existência ou não do Papai Pederasta do Céu, tudo é possível.

O que eu estranhamente sinto ao ler esses livros maravilhosos é que Fiódor desempenha, ao mesmo tempo, os papéis de Jesus e dos caras que condenaram e pregaram Jesus na cruz. Não é que ele queira salvar ou condenar ninguém. Está mais para o fato de que ele professe uma fé tornada inviável justamente pelo que ele próprio narra, explicita, escancara.

Ressalve-se, contudo, que este é um modo (o meu, é claro) de encarar a coisa. Um crente certamente entenderá pelo outro lado, salvaguardando o Pai, o Filho e a joça do Espírito Santo, entendendo as narrativas do escritor russo quase como autos-de-fé. Mas mesmo um crente, por outro lado, ao terminar de ler qualquer um dos romances de Fiódor Dostoiévski, poderia também exprimir a mesma coisa que o espantado Svidrigáilov diante de Dúnia e sua arma: “Isso muda tudo”.


Observação: se alguns dos nomes de personagens dostoievskianos estiverem erroneamente grafados, peço desculpas. Não estou com nenhum dos livros do autor à mão para confirmar quaisquer detalhes.




André de Leones

André de Leones nasceu em Goiânia no ano da desgraça do nosso senhor eu-sei-que-você-não-existe 1980. É autor do romance "Hoje está um dia morto" (ed. Record), vencedor do Prêmio SESC de Literatura 2005 e na época ele achou que isso significava alguma coisa. Venceu também, com um livro de contos de título engraçado nunca publicado, o Prêmio Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, mas esta piada já é velha. Mantém o blog http://canissapiens.blogspot.com, cheio de piadas mais novas.
E-mail: alleones@gmail.com