Neuropop
CANÇÃO & POEMA Por mais que um poema evoque a fala ou o canto (ou ambos), por mais rítmico, melódico ou vocal que seja, trata-se de uma evocação apenas. Chamamento em silêncio. O poema se desenrola num mar de silêncio à procura do canto, da fala, do ruído. As partículas fonéticas ecoam umas nas outras, se chocam e se quebram, esmigalham, aceleram, diminuem, andam aos pares, concentram-se, precipitam-se, agitam-se, evolam-se. Tudo em silêncio, no silêncio, nos poros sonoros do poema impregnados do mar de silêncio da página. Por mais que a canção tenda ao sussurro, à pausa e ao silêncio, por mais que se cale e os instrumentos rarefaçam a música, ela se processará como linha de voz numa ambiência instrumental. Sempre se preencherá de sons efetivos. Sua mídia é sonora por natureza. Pleno de som, mesmo evocando o silêncio. *** O poema soando pelos poros do silêncio da página é o desejo de som em ato, potência sonora. O que faz a riqueza vocal do poema são as miríades de possibilidades sonoras que ele dispara de seu silêncio congênito. O poema provoca a questão: o que poderia ser o texto enquanto voz, enquanto vozes, enquanto fábrica de fala musicada? Eis seu infinito dilema com o silêncio. É nesta questão, é no permanente adiamento de sua resposta que fervilha a vida fonética da escrita poética. E cada vez que se declama um poema é como se muitas outras possibilidades sonoras se fechassem (muitas vozes se calassem). No poema a música da fala não existe na ação de falar, mas no ato de calar, deixando o texto cantar na mente, no corpo silente do leitor. Iaras de mil árias de silêncio me encantam: cio do som. *** A letra da canção é um esboço da poesia que o canto vai efetuar. Depois de gravada, a canção pode se tornar tão rica quanto o poema, em termos de margem atingida. A canção também joga com o silêncio, mas não se encontra mergulhada nele como o poema e sim entrecortada por ele. Silêncio intermitente. A canção vibra no ouvinte. Miríades de atmosferas sonoras proliferam pelo seu corpo e chegam a contaminar a língua. Ele ouve e canta junto, dança, se encanta. A canção é magnética, performática. Prazer sonoro. *** A canção dispara o corpo das pessoas. Uma pessoa se torna em muitas, em massa corporal sacudida pelo som que libera nela o que há de multidão – ínfimo infinito. E as pessoas juntas se tornam massa, mar em ondas moduladas (e modulantes) enquanto o canto as atravessa. A canção é performática, seu magnetismo não é apenas de ordem auditiva, mas corporal, gestual, teatral, é da ordem da dança e do coro coletivos, transe do corpo contaminado pelo ouvido. A canção é som, mas também performance, postura e pose. Ela gesticula, contorce e contagia o corpo que se torna um pleno de som. Corpo eletrificado de som. Diferente da música erudita, do balé e da ópera, feitas para ouvir e ver, na canção o público canta e dança junto, seja no show, em casa, na rua, no bar, na boate, no automóvel... O artista é um mestre de cerimônias, um pajé magnético que incita as massas a mexerem sincronicamente seus corpos e línguas. O som da canção desprende as pessoas de suas personas e as lança na multidão (mesmo que sua audição seja solitária), como se estivessem drogadas, transe, trança interminável de fluxos desgarrados. O corpo do artista, o corpo sonoro da canção e o corpo das pessoas disparam-se mutuamente e os corpos se precipitam em massas que se misturam continuamente. Massas emprenham massas, elétricas, dementes, em movimentos ondulatórios. E o capital ama estes movimentos e entra como fluxo a mais, como corpo massivo a mais, desejando se propagar por todos os outros corpos e modulá-los: ele dança junto e quer guiar a dança, dar o compasso. É uma dança monstruosa e fabulosa das massas, comparável apenas ao transe proporcionado pelos espetáculos esportivos populares. Para se saber do pulsar da canção é preciso entendê-la como corpo e explorar sua interação com outros corpos em estado de massa, de amorfia fluida, magnetizados pelo som. São atmosferas que se imbricam estes vários corpos heterogêneos, digladiando-se e comungando-se ao mesmo tempo e no mesmo movimento. A performance dos corpos não é um elemento exterior à canção, mas se imbrica no feixe que a constitui enquanto coisa estética. A canção pop é um chacoalhar arrítmico e concomitante de corpos plurais. É um feixe feroz de massas diversas. Turbilhão sonoro. Canção, corpo, contorção. (Para ler mais, clique aqui). Bônus