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Sobre Gerardo Mello Mourão, sua morte e a experiência e a necessidade de ler sua obra


Entre os mais próximos, um punhado de pessoas das mais legais, e entre os relativamente próximos, uma pinha de pessoas sobre as quais um juízo mais preciso sempre está nas asas da lonjura, sou conhecido como aquele que estuda a obra de Gerardo Mello Mourão. Tanto é que, para uns — segundo relatos dignos de um telefonema ou de um email —, quando souberam da morte do poeta no dia 9 de março, a primeira coisa em que pensaram foi em mim — ainda que eu não seja exatamente uma coisa. Mas não foi isso que eles quiseram dizer, porque me são bastante queridos. Eu estava na Cataluña — ou em Catalão, como alguns querem ou insistem tanto —, na hospitalidade da casa de meu amigo Wesley Peres, quando soube da morte de meu poeta. No dia seguinte, movido pela consternação, escrevi “Nênia a Gerardo e convite” (disponível aqui), uma carta ao poeta e editor do Jornal de Poesia, Soares Feitosa. Na ocasião de minha estadia naquele pedaço de Goiás com cara de Minas Gerais, quase sem cerrado e com ladeiras para todos os lados, Wesley Peres e eu lemos trechos de Invenção do mar entre outros poemas e garrafas de vinho chileno. A experiência teve como pauta o princípio da diluição. Tecnicamente falando, há dois tipos de diluição: uma pop e outra, digamos, cult — por falta de palavra melhor. Pela primeira, uma série de saberes e de instrumentos de composição estética — lembrem-se de que estou falando de poesia — são absorvidos ao ponto da nulidade historial relativa ao passado, a uma tradição ou a uma fonte de influência cultural (de filosofia, arte, ciência ou inteligência em geral) para serem convertidos em referências comerciais imediatas. Nada contra isso, diga-se de passagem, ou de dentro mesmo. Aqueles que conseguem reconstituir as diluições da cultura pop, como meus amigos Patrícia Martins e Wilton Cardoso — e eu mesmo, porque também sou meu amigo —, conseguem apreciar uma dada peça deste universo e atingir um prazer estético em seus próprios princípios. Como diz o Wilton, em seu Tratactus marginale — fundamentado em Deleuze e Guattari —, tudo se transforma em produto, bem-de-consumo, quando sugado pelo olho do capitalismo e devolvido para as sociedades. Em tempo: o olho do capitalismo, sua máquina de processamento comercial, este armazém de gente irrefreável, converte tudo, absolutamente tudo, em mercadoria. A diluição cult — … — é aquela cuja série de saberes e de instrumentos de composição estética — os mesmos da diluição pop — são absorvidos a fim de evitar a nulidade historial, aliás, a fim de enfatizar sua historicidade, quer dizer, desvelá-la — logo que tantas vezes intrínseca —, ainda que tal diluição também termine sendo sugada e regurgitada pelo olho do capitalismo como mercadoria. Esta a experiência de leitura da poesia de Gerardo Mello Mourão: a tradição (clássica, medieval, nordestina e moderna) e a contemporaneidade suprassumidas — para usar as palavras do Wesley. Uma experiência de recepção estética dessa natureza mantém relação direta com a noção de conhecimento enciclopédico. Conhecer a poesia de Gerardo Mello Mourão é equivalente a ler uma enciclopédia. Quando digo uma enciclopédia, digo um compêndio de humanidade que não somente passa pela literatura, filosofia, religião, política, antropologia, história, sociologia etc., mas também pelo folclore, pela experiência cotidiana e inevitável de respirar e pela grande lição de meu poeta: a vitalidade da morte. A morte é vital porque não se esquece de acontecer, nem para seus sobreviventes de noventa anos, com a experimentação de um século e do atlas nas costas, como foi o caso de meu poeta. Gerardo Mello Mourão morreu. Sócrates também morreu. Quiseram, inclusive, matar a Deus. Mas aí o buraco é mais embaixo e não vem ao caso, embora eu o tenha citado. Da maneira que escrevi ao cumpádi Soares Feitosa, farei aqui também um convite — somente o convite porque não estou mais no espírito da nênia. Convoco a todos para conhecer a poesia deste cantor da genealogia americana, como a ele se referiram Ezra Pound, Octavio Paz, Albert Camus, Robert Graves, Michel Deguy e Jorge Luís Borges. É caros e caras, os próprios. Sugiro que comecem mais para cá no tempo, com aquele livro que eu julgo a invenção de Gerardo Mello Mourão para poesia brasileira, quiçá para a ocidental: Invenção do mar, prêmio Jabuti de 1998, e livro poema de 5.065 versos que nos mostra como é possível uma epopéia nos dias atuais, a despeito da filistia pseudo-pejada de certa banda crítica da literatura ocidental. Mas do que Os peãs — livro comentado por aqueles senhores acima citados, e livro que para Drummond deveria estar em todas as escolas brasileiras, para que nele nosso povo se aprendesse e se conhecesse —, Invenção do mar consegue cantar, como uma interpretação possível de brasilidade — ombro a ombro com Os sertões, de Euclides, e com O grande sertão: veredas, de Rosa — o nascimento de nossa condição antropossocial no mundo. Depois convido a todos para irem a Cânon e fuga — livro de poemas cujos versos foram escritos sobre pautas de música erudita clássica e contemporânea, da música popular brasileira e da música medieval dos trovadores galegos-portugueses e dos provençais. Em seguida vocês poderiam ir ao último livro de poemas, Alguma partitura, onde há o mais belo e inteligente poema longo-breve da poesia brasileira: “Suíte do couro”. Obviamente, parte de vocês discordarão de mim, mas reconhecerão que “Suíte do couro” não deve aos melhores, quer dizer, ombreia-se com “O poema sujo”, de Gullar, “O cão sem plumas”, de Cabral, “A máquina do mundo”, de Drummond, com “O navio negreiro”, de Castro Alves, e com “A tempestade”, de Gonçalves Dias. Aliás, desses, apenas três são os principais mestres do poema longo e do longo-breve da literatura brasileira: Gerardo Mello Mourão, Gonçalves Dias e João Cabral. Finalmente, vão todos a Os peãs. Já estarão bastante dispostos e preparados para tanto. Caso contrário, façam como quiser. E fiquem sabendo que há também O Cabo das Tormentas, Três pavanas e Susana – 3: elegia e inventário, além do romance considerado em enquête da Folha de São Paulo, Le Monde, The New York Times e por professores-críticos da Oxford e da Sorbonne como um dos onze melhores do mundo e um dos dez melhores em língua portuguesa, O valete de espadas — infelizmente, sem reedição no Brasil. Mas os garimpeiros de sebos, como Wesley Peres, poderão, de repente, encontrar um exemplar. Também infelizmente, o normal é encontrar, nos sebos, exemplares em espanhol, francês, inglês e tcheco. Quando se encontra em português, é lusitano. Em português brasileiro, nunca tive notícia. Eu tenho um — também em português lusitano —, que me foi dado pelo próprio poeta, mas o empréstimo que dele fiz deverá durar longa data. Também em prosa, vocês poderão ir ao livro de ensaios Invenção do saber e à hagiologia O bêbado de Deus, sobre a vida e os feitos de São Gerardo Majella, o irreverente santo que dá nome ao poeta. (Mello Mourão conta que São Gerardo, certa vez, bêbado, para variar, e proibido de fazer milagres pela Igreja, suspendeu por levitação um suicida que pulou de uma ponte; em seguida pediu às pessoas na rua que chamasse o bispo, depois perguntou a este, em público, se deveria ou não continuar o milagre.) Assim, se todos aceitarem meu convite, poderão conhecer aquele poeta que professores-críticos e lingüistas europeus, reunidos em 1998 na Sorbonne, colocaram como um dos três pilares da poesia em língua portuguesa, do lado de Camões e de Pessoa. O poeta que Drummond, Hélio Pelegrino e Nelson Rodrigues chamaram de nosso Dante; o poeta que Carpeaux insistiu em colocar na estirpe dos grandes; poeta que ficou entre os três finalistas a Nobel de literatura em 1979; e poeta que a Guilda Órfica — sociedade espanhola remanescente do renascimento (e isto não é um trocadilho) — colocou no primeiro degrau do pódio daqueles que escreveram em língua ocidental durante o século XX. Um poeta dotado desta voz:

Agora é noite:

por suas alcovas, camarinhas, corredores

cantamos o miolo da noite

tropeçamos

nos féretros da luz

e no ventre das trevas:

e nas deusas sem ventre: quem

saberia de um deus?

Pois,

perdera-se o deus da véspera

o derradeiro:

e na mudez da luz

na escuridão do som

cresce

reina

o silêncio

e do silêncio

suspeitas

vozes

onde donde alaonde

nunca antes se formara voz

— na garganta dos infantes —

uma

virgem

viaja a um gesto um ventre

na garganta dos infantes

e salta à boca do silêncio

e estremecem uns seios:

partem-se as rochas

raízes rompem o chão

dançam as folhas em suas copas

mas sepulcros não se abrem e na boca

dos infantes

o grito cresce em vão:

no céu-da-boca um súbito sabor

sugestão de sumos e de polpas

desse mel longínquo agriamargo mel

de sal e mel das videiras do vale:

— eras tu naquele tempo.

Que foi registrada em seu último poema, “O nome de Deus”, infelizmente não completado (disponível aqui), somente pode ser voz de uma raça à parte. Sobre isso, como o próprio Gerardo Mello Mourão cantou um dia: “há uma raça dos homens/ e uma raça dos deuses/ e a raça dos que tocam/ pelos bosques dos homens/ a música dos deuses”, esta é a raça de Mello Mourão: Poeta. Porque planetário, como disse sobre ele Tristão de Athayde, e humanista convicto, como disse o líder negro Abdias Nascimento, meu poeta é também o cantor de todas as raças e das mulheres, como me implica a concluir estas observações — mais longas do que as alhures e por motivos óbvios — os seguintes versos de Invenção do mar,que é uma boa maneira de calar-me:

E entre os pecados e virtudes heróicas

germinava a sabedoria das gentes:

o branco ia aprender, poeta, na escola do negro

e o negro ia aprender na escola do índio

e o índio ia aprender nas escola do branco

e a terra começava a produzir

seus varões valentes, justos, sábios

e suas mulheres de ancas torneadas a sopro de flauta,

o andar ensinado pelas ondas do mar,

a fala aprendida ao murmúrio das águas

e à doçura das brisas — e a cútis

entre o lírio e a canela, entre aurora e crepúsculo




Jamesson Buarque

jamesson buarque é poeta, professor, crítico literário e doutorando em estudos literários na ufg. publicou os delírios e novíssimo testamento. sente-se muito mais antigo do que sua idade tri-trina cristã. além de poesia e magistério, gosta de vinho, cachaça mineira, desenho animado, cinema, política, bíblia e fenomenologia, tudo misturado. importante: é sobre essa mistura sua coluna.
E-mail: jamessonbuarque@yahoo.com.br