Mieloma de Ocasião


Notas sobre "O Som e a Fúria"


Fuçando na minha estante, folheando meus livros, dei com os olhos na minha edição de O Som e a Fúria, de William Faulkner (Cosac&Naify, trad. Paulo Henriques Britto). Toda rabiscada e repleta de anotações. Não me lembrava de ter anotado tanta coisa assim nela. Não há indicações de datas. Tudo anotado com tinta preta. Rabiscos, rasuras. Na falta do que fazer, transcrevo tudo aqui:


Publicado pela primeira vez em 1929. O apêndice só foi acrescentado em 1946. É o quarto romance de Faulkner (1897-1962). O Sul profundo, escuríssimo e decadente. Os Compson, uma família putrefata. Temos Candance (Caddy) Compson e sua filha Quentin como eixos narrativos, embora nenhum dos capítulos seja narrado por nenhuma delas. Duas mulheres "perdidas". O romance tem quatro partes:


1) Narrada por Benjamin (Benjy), o irmão idiota de Caddy, um retardado mental de 33 anos. É a parte mais louca do livro, onde entramos na cabeça de um débil mental e fatos, lembranças, flashes e tudo o mais se atropelam e nunca sabemos muito bem o que está acontencendo. Há coisas às quais ele alude que só se tornarão um pouco (não muito) mais claras nas partes seguintes.


2) Narrada por Quentin (outro irmão de Caddy, homônimo da filha desta), regride dezoito anos (ela se passa em 1910 e as demais em 1928) até o dia em que o narrador se mata. Quentin, obcecado pela irmã, apaixonado por ela e, mais ainda, obcecado pela sua virgindade há muito perdida, torturado pela promiscuidade dela, e viscoso de um passado aristocrático de sua família. O passado perdido é de alguma forma simbolizado pelo rompimento do hímen da irmã. Quentin sente a derrocada da família, mas não a compreende e não sabe o que fazer com tudo isso. O pai vendeu o pouco de terra que restava à família para custear seus estudos em Harvard. Não teve peito pra consumar o incesto, mas o teve pra se matar.


3) Narrada por Jason (homônimo do pai alcoólatra), o terceiro irmão de Candance, mais uma vez em 1928. Grosso, racista, direto, desonesto (rouba o dinheiro que Candance envia há anos para a filha Quentin), mas, por outro lado, é o único Compson racional e pragmático. Jason é estóico e, conforme o autor, não confia em ninguém porque, para ele, todos são Compson, daí que não são confiáveis. É roubado pela sobrinha, no que não foi de todo roubado, posto que a maior parte do dinheiro que ela leva (foge com um animador de circo) era mesmo dela, enviado pela mãe. Antes, castrou o irmão idiota, Benjamin, depois que ele tentou atacar uma garota e, depois, não hesita em interná-lo num hospício assim que a mãe de ambos morre. Se Quentin (irmão) sente a decadência da família, Jason a compreende inteiramente.


4) Narrador onisciente, fixando-se no dia, em 1928, seguinte ao furto e fuga de Quentin. Segundo Faulkner, ele se viu "obrigado" a escrever esta quarta parte e o apêndice para contar a história que seus próprios personagens/participantes não souberam contar.


O título? Ora, é tirado do Macbeth, de William Shakespeare: "A TALE TOLD BY AN IDIOT, FULL OF SOUND AND FURY, SIGNIFYING NOTHING" ( "Uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada").


Faulkner deu várias versões para a gênese de O Som e a Fúria, entre as quais esta, uma imagem: uma menina empoleirada num pé de pêra, com as calcinhas sujas, olhando um funeral, enquanto que seus irmãos, menos corajosos do que ela, esperam no chão. O que é, então? Não é apenas a saga dos Compson narrada por meio de pinceladas ríspidas, elípticas, ou mais uma história de decadência. É a condição humana, claro, todos arremessados no turbilhão do tempo, inexoravelmente. O caos. Na literatura de Faulkner, passado e futuro só parecem fazer sentido, por menor e mais ridículo que seja, quando encarnados no presente.




André de Leones

André de Leones nasceu em Goiânia no ano da desgraça do nosso senhor eu-sei-que-você-não-existe 1980. É autor do romance "Hoje está um dia morto" (ed. Record), vencedor do Prêmio SESC de Literatura 2005 e na época ele achou que isso significava alguma coisa. Venceu também, com um livro de contos de título engraçado nunca publicado, o Prêmio Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, mas esta piada já é velha. Mantém o blog http://canissapiens.blogspot.com, cheio de piadas mais novas.
E-mail: alleones@gmail.com