Neuropop


POP: algumas idéias



O que até o século XIX os intelectuais chamavam de cultura ou arte no ocidente era claramente dividido em duas: a alta e a popular. Os frankfurtianos no início de século XX mostraram como esta divisão tradicional estava se desfazendo em favor do que eles chamaram de indústria cultural. Havia três facetas importantes na indústria cultural. Primeiro, do ponto de vista tecnológico, ela se baseava numa nova mídia que podemos chamar de elétrica, ou audiovisual, a partir da qual se constituíram as novas artes do século XX: rádio, cinema, TV. De certo modo, a informática hoje é uma espécie de síntese e evolução técnica dessas mídias audiovisuais. Segundo, do ponto de vista econômico, a indústria cultural se constituía como extensão imediata do capital: do modo de produção ao consumo, ela estava imersa no ambiente do mercado. Terceiro, do ponto de vista dos fluxos estéticos que ela reordenava, a divisão entre alta cultura e cultura popular foi se desfazendo a passos largos. Na verdade, a própria cultura popular foi sendo minada em sua profusão de identidades e a alta cultura, que se construiu como universal, foram sendo absorvidas nos processos parciais da arte de massa.

O processo do pop provavelmente começou a se efetivar em fins do séc. XIX e início do XX, mas certamente ele dominou a cena estética na segunda metade do século XX. O período estético que conhecemos como modernismo foi, na verdade, o último e magnífico suspiro da Grande Arte como recorte estético ainda discernível. Depois, o campo estético se modificou radical e irreversivelmente, de tal modo que, se pudéssemos fotografar três momentos estéticos do ocidente, por exemplo, a década de 70, meados do século XIX e início do século XVI, é bem possível que encontraremos mais semelhanças entre estes dois últimos do que entre o primeiro e o segundo que, no entanto, são praticamente vizinhos no tempo.

Quando o rock surgiu, no início da hegemonia pop, a reação cristã a ele foi de imediato repúdio: em sua essência, acreditavam padres, pastores e fiéis, o rock era demoníaco e a única reação possível era o repúdio. Esta também era a crença dos roqueiros, que se queriam, a si e a sua música, alternativos por natureza. Mas, num determinado momento, os cristãos perceberam a inessencialidade do pop e, em conseqüência, do rock. O anticristo não é um dado intrínseco (ser) do rock, a ponto de, caso este elemento seja retirado, não seja possível satisfazer as sensibilidades roqueiras: tudo no rock, como em qualquer fenômeno pop, é intercambiável: o que se faz são derivativas, não a partir do rock, mas com o rock. No pop, nada parte de nada, nada se inicia de algum lugar ou ser, mas sempre se varia em meio: trata-se de um ambiente movediço, no qual os fluxos não se enovelam num ser, mas em vórtices precários, prontos a se dissipar: a descartabilidade e a obsolescência são inerentes ao pop.

A resistência no pop implica, em primeiro lugar, no reconhecimento da impossibilidade de volta das essências, da nobreza, do ser. Inclusive na literatura não é mais possível a existência de espaços de nobreza espiritual. Não há mais como fundar Estados literários (a última tentativa, no Brasil, foi o concretismo), com seus mestres e hierarquias, não há mais como afirmar um espaço estético purificado, separado e superior ao pop, um espaço cuja ascensão a ele garantiria, por si, o enobrecimento espiritual, pois o desejo não circula mais assim, o estético não funciona, não tem mais este recorte. O cinema e a canção nunca tentaram estas coisas, pois já nasceram pop. É necessário partir do pop, mesmo a literatura e as outras outrora ‘grandes artes’. Tentar, a partir de seu ambiente, uma fuga, atingir o bruxo fora dos vórtices, como aconteceu no tropicalismo, em algumas manifestações do rock brasil, como o fez Leminski e muita poesia marginal. Para a resistência é preciso todo o exercício de uma antropopfagia.



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