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Editorial
Funciona assim: ouçam “1979”, em “C-dur”, de Paulo Guicheney. Em minha concepção, uma peça de serenidade e fúria. Movam-se, em seguida, para “arte”, em “Patchwork”, de Patrícia Martins. O percurso da experiência estética, ingênua e crítica, como recepção pela vontade de inverter a fórmula entretenimento/arte, gerando arte/entretenimento, de Patrícia, é um bom mote — seria dizer motivo, mas jamais pretexto — para a apreciação da terça maior de Paulo. “1979” está executada pelo pianista Robervaldo Linhares, que já gravou e fez estréias de Almeida Prado — o grande compositor autor de 16 poesilúdios. A peça de Paulo configura o retrato de quem, imiscuído num perau de dúvidas, tem a face apascentada, e, de repente, por violenta inquietude, grita. O texto “arte”, de Patrícia, convida-nos a um movimento de educação artística a serviço da honestidade para a recepção estética, sobretudo em Goiás, a fim de que o entretenimento desregre as rédeas dos agentes de controle.
Por falar em tais agentes, movam-se para “Pop: algumas idéias”, em “Neuropop”. Em seu fragmento-texto, porque o todo deve ser acessado no .pdf em anexo, Wilton Cardoso nos dispõe a dissolução da dicotomia Grande Arte X Arte Popular — vigente até a adolescência do modernismo. Ao longo do texto, Wilton nos leva a observar como o pop ocupou o cenário cultural, desmaterializando e reconfigurando as instâncias estéticas. “Pop: algumas idéias” é um prolongamento do Tratactus marginale: poesia e capitalismo, e-book de Wilton Cardoso, do qual falei em oportunidades alhures e que é o texto-motivo de “página p.” desta edição. Na coluna, o texto trás o mesmo título do e-book e a alternativa “Taumaturgia do cinismo pela marginália”. A escritura em “página p.” faz um anacronismo com o termo “cinismo” e com o termo “cão”, apreciando o tópico “Da littera: profundos, construtores e marginais” do Tratactus em comparação à vida e à “filosofia de vida” de Diógenes O cínico ou O filósofo cão, Yeshuah O Cristo ou Jesus, e de Quincas Borba.
Apreciada "1979", em "C-dur" e lidas as colunas "Patchwork", "Neuropop" e "página p.", movam-se para uma de nossas novas colunas, “Cova do corvo”, assinada por Frederico Martins, responsável pela identidade visual de ruídobranco desde sua criação, no longínquo janeiro deste ano. “Imagens poéticas” configura a coluna como um espaço de texto visual. Ainda no âmbito da apreciação estética — até parece que a revista é temática —, movam-se para “Mieloma de ocasião”. O texto: “Notas sobre ‘O som e a fúria’”. Como se pode reconhecer, trata-se de uma recepção do prosador de Hoje está um dia morto, nosso André de Leones, sobre o romance de William Faulkner. O som e a fúria é dessas prosas desconcertantes, e André encarna bem isso descrevendo e interpretando a saga de decadência dos Compson. Imbuído nisso, André percalça os longos saltos no tempo desse romancista que a crítica contemporânea francesa Pascale Casanova colocou como escritor de ruptura, capaz de demover as atenções voltadas para o centro cultural, fazendo com que as margens o perpetre.
Ideografia: processo de Pound. Desdobrar belezas: processo de Wesley Peres. Movam-se para “Vaca de nariz sutil” agora e gozem de um intensa experiência poética. Qualquer coisa, voltem às colunas sobre recepção estética, depois retornem à coluna de Wesley, este poeta de origamis. Ainda na coluna, o poeta faz seus antiprosemas visuais dialogarem com a escrita de Dheyne de Souza, poeta de habilidade de condão e pássaros, que pode ser melhor conhecida em seu blog “Incontinência poética”, acessível pelo link correspondente — aí no menu destro desta página.
Outra coluna-novidade de ruídobranco é “Êxtimo”, do psicanalista Cristiano Pimenta. Movam-se para lá. O texto: “Extimidade” — intimidade por fora. “A arte é algo que afeta o corpo” é a tese do Cristiano. Dedilhando Lacan e Freud acerca das pulsões, da heterogeneidade corpórea, da experiência de conflito que a vida trava com o corpo, que, intrigantemente, é seu cúmplice, o autor disserta sobre a criação e a recepção estética como um “viver para ter o que dizer”, parafraseando o pianista russo Anton Grigorievitch Rubinstein. O texto desse nosso novo colunista convida a uma outra apreciação de “1979”, de “Imagens poéticas” e do organorigami desdobrado de “Vaca de nariz sutil”. Voltem lá: há, interpretando o Cristiano, sempre um trauma de carne exposta em vida, movendo o desejo que nos tira da potência de ser para a ação de existir.
Em nossa coluna quase-criptogr(u)af(rd)ada “Contribuições”, temos, de abertura, “Corifeu” e “O salto”, de Arturo Gamero, jovem poeta de Joinvile, Santa Catarina, autor do livro-poema ou do poema-livro Cerâmica noturna. O primeiro é o poema da metamorfose noturna de quem recôndito converte o silêncio da solidão em um desfile de metáforas regidas por um sujeito confinado no mundo. O segundo é uma dedicatória a Paul Celan, uma das maiores vozes com que a língua alemã presenteou o século XX. O poema nos convida à embriaguez da emoção de reinventar a imagem de Celan quando se suicidou no Sena, em 1970: “Na galeria em que a luz soprou a embarcação, o sol é um lago duramente iluminado, encoberto de silêncio./ O rio é o bocejo no coração das urnas, alfaiate da desfiguração”. Em seguida, “Contribuições” traz a poesia densa e pesada e delineada na sutileza de versos rápidos de Orides Fontela como objeto de apreciação estética de Wania Majadas, em “A verbalização do sangue”. Concentrada na coletânea Trevo (Duas Cidade, 1988), que reúne quatro livros da poeta (Transposição, Helianto, Alba e Rosácea), Wania descreve, em uma brevidade devoradora de ausências, os fundamentos e fluxos próprios da identidade poética de Orides Fontela. Ainda nesta coluna, compondo o quadro de textos para apreciação estética e sobre isso, este editor apresenta ao público o poeta e prosador das nervuras de Orfeu e Tânatos, Nilson Pereira. O texto para recepção é o conto “O algo”. Prosa tão desconcertante quanto exigente de nosso casamento de inteligência e sensibilidade, e que é, simultaneamente, algo em-corpo-em-si e algo em-enredo, para mais dentro do título.
Antes de mover-se tanto, caros leitoresnautas, não deixem de apreciar a nova concepção visual de ruídobranco. Haja novidade! E, não querendo seguir meu roteiro de movimentos, movam-se como julgarem necessário, mas se movam. Devo reconhecer, e sei que vocês não discordarão, que esta nova edição de ruídobranco é a melhor até então. Mas não se apoquentem nem parem por aqui, seremos ainda melhores na próxima.
jamesson buarque