Patchwork




"Ver é ter à distância"
Maurice Merleau-Ponty


Comecei a pensar, num surto derridiano, a relação entretenimento e arte na atualidade. Aparentemente, a partir da oposição binária dos termos, essa relação deveria ser apresentada da seguinte forma: entretenimento / arte. Entendendo, certamente, o primeiro termo como presença (ideal) e o segundo como ausência (contingente). Através dessa oposição binária, eu queria visualizar a possibilidade de inverter essa relação de poder. No entanto, vendo como anda o nosso cenário artístico atual, ao invés de visualizar essa inversão, acabei foi percebendo uma nova equação entre os termos: ENTRETENIMENTO / arte.

Eric Hobsbawn, em A Era dos Extremos (Companhia das Letras, 1995), ao falar sobre a arte na primeira metade do século XX, enfatiza o momento em que ela foi substituída pela idéia da diversão de massa. Agora, no século XXI, essa fórmula virou regra. É isso que vemos nos “grandes” eventos artísticos que chegam à Goiânia. Um exemplo disso foi a recente exposição "Picasso: paixão e erotismo", carro chefe da edição 2007 do Circuito Cultural Banco do Brasil.

Com o Circuito Cultural do Banco do Brasil, o Centro Cultural Oscar Niemeyer foi tomado por uma procissão de pessoas que lotaram a exposição. Parecia uma espécie de ritual religioso e Picasso era o ícone no altar. Isso me mostrou que não é à toa que Affonso Romano Sant’Anna, no livro Desconstruir Duchamp (Vieira & Lent, 2003), associa a arte contemporânea à religião:

É aqui que a “arte contemporânea” se confunde com misticismo e religião: um diálogo com o ausente, mediado pelo “artista” (crítico e curadores) como sacerdotes de um credo. Na religião há de ter fé. Em relação às obras contemporâneas, há que “acreditar” nas intenções do artista (p. 24).

Mas não se trata apenas de acreditar nas intenções do artista, deve-se acreditar também nas intenções de todos aqueles envolvidos no processo de mediação do ato criativo, sobretudo, os críticos de arte, curadores e agentes culturais especializados.

Nessa exposição de Picasso, os anúncios diziam que se tratavam de obras pertencentes “à Coleção Píer Paolo Cimatti [...] formada por gravuras originais do artista espanhol”. No entanto, numa entrevista também recente, a escultora Maria Guilhermina chamou a atenção para o fato de Píer Paolo Cimatti ter sido secretário pessoal de Picasso. Segundo a Guilhermina, as gravuras que compunham a exposição eram cópias descartadas por Picasso. Ou seja, nem mesmo com a reprodutibilidade técnica, intrínseca ao processo da gravura, essas obras poderiam ser consideradas originais. Elas compunham, na verdade, o lixo do artista. A grande “sacada” do ex-secretário de Picasso foi ver que o artista tinha o toque de Midas: tudo o que tocava virava ouro.

Amarrados à exposição de gravuras de Picasso, estavam também shows, como um certo “Acústico MTV”, uma leva daqueles mesmos cantores goianos sempre presentes em todo e qualquer evento que acontece na cidade etc. Enfim, uma série de entretenimento que banalizou ainda mais o componente arte daquela minha equação.

Acho que eventos como o Circuito Cultural Banco do Brasil podem ser muito legais, mas têm que ser mais honestos com o público, especialmente tendo em pauta o objetivo de “proporcionar aos participantes um pouco mais de conhecimento sobre arte e cultura”. Diversão é algo bastante saudável para o ser humano, mas, talvez pelo surgimento de umas leis duvidosas de incentivo à cultura, toda forma de entretenimento acaba travestida de arte.

Infelizmente, durante o Circuito Cultural Banco do Brasil, aconteceu, no MAG (Museu da arte de Goiânia), a exposição “A Escrita Chinesa: do ideograma ao computador”, que, apesar de modesta, foi super interessante e informativa. Como não poderia deixar de ser, essa exposição foi ofuscada pelo brilho do C.C.B.B.

Entre erros e acertos, o MAG tem contribuído muito com a arte em Goiânia. Nesse percurso do MAG, eu me lembro de uma exposição de reproduções de obras impressionistas. As reproduções eram péssimas, as cores, as proporções, as molduras, a orientação dos monitores etc, tudo ajudava a descontextualizar o Impressionismo. Tive a oportunidade de conversar com uma “autoridade” da área artística da cidade sobre essa exposição e disse que o dinheiro público teria sido melhor aproveitado se as crianças das escolas de Goiânia tivessem sido levadas até a feira livre (que acontece duas vezes por semana na rua ao lado do museu) para observar como a luz se refletia nas frutas, verduras e outros objetos presentes no local. Essa pessoa até concordou comigo, mas disse que não teria professores/monitores capazes de orientar tal experiência. Só não entendi como alguém poderia falar sobre o Impressionismo sem ter noção desse fenômeno tão caro aos artistas impressionistas.

Enfim, esse meu percurso foi só pra chegar num ponto: na minha opinião, todos esses equívocos no campo das artes poderiam ser atenuados com um ensino sério de arte-educação na escola. A partir disso, teríamos uma população muito mais preparada para lidar com a arte em seus mais diversos níveis. Falo em população como um todo, pois a arte afeta a todos em algum dos níveis de sua existência.

Podemos dizer que, num primeiro nível, a arte existe em estado puro que não se encaixa ao padrão de mercado ou de socialização. Também é possível pensar na arte no momento em que o artista transpõe essa arte em estado puro para um meio material (mesmo no caso da arte considerada imaterial, é preciso contar com uma série de equipamentos como computadores, periféricos, cabos etc. para sustentar essa arte). Nesse ponto, a arte passa de possibilidade para finalidade. A partir desse processo surge um terceiro nível em que instâncias paralelas de arte aparecem na forma de agentes culturais especializados.

Esses três momentos, ou instâncias da arte, são definidos por Martin Grossmann, no texto “Um Ensaio para a Experiência da Suspensão”*, como sendo os níveis da suspensão, da transposição e da mediação da arte. O nível da suspensão, primeiro local de existência da arte, segundo Grossmann, não faz parte do mundo material. Esse é um momento em que a arte não se encontra inserida no tempo e nem no espaço. Ela é apenas uma idéia em suspensão, modelada apenas pelos sentidos e processos mentais. Essa modelagem virtual é possibilitada pela intenção do ser humano de se expressar de maneira criativa. Para Grossmann, todos nós somos potencialmente artistas nesse nível, pois tudo é possível sem os limites do mundo concreto. A arte em suspensão está fora do alcance da linguagem, não sendo possível compartilhá-la, questioná-la ou analisá-la. Esse é um processo puramente individual, é a criação em estado ideal.

Os problemas com a arte começam quando passamos da idéia em suspensão para a transposição. A diferença entre todo mundo e o artista aparece quando, através da intenção, o artista transpõe suas idéias criativas para o mundo social. Assim, a arte passa a fazer parte do tempo e do espaço e, também, passa a ocupar um lugar na sociedade. A partir de sua existência material, ela passa a deslocar sentidos em sua comunicação com a sociedade. Nesse processo de comunicação, a arte se envolve com todos os problemas da linguagem.

O artista não interage somente com o meio necessário para concretizar sua arte, ele se torna um agente cultural interagindo com o ambiente, com o público, com interlocutores e muitos outros mediadores interessados em representar e transmitir suas concepções artísticas. A rede de socialização da arte se amplia em um leque de mediadores na forma de agentes culturais que conduzem o processo de institucionalização da arte. Entre os agentes culturais encontram-se historiadores, teóricos, curadores, críticos, marchands etc. que avaliam e selecionam o que é inserido nos museus, galerias, coleções, patrimônio etc. Ainda com a necessidade continuada de socialização da arte, podemos enumerar uma série de agentes culturais paralelos como professores, pesquisadores, jornalistas, monitores etc, todos envolvidos na mediação do ato criativo.

Acredito que a falta de um ensino sério de arte-educação nas escolas faz com que, em Goiânia, não existam críticos de arte (com exceção, talvez, do folclorista, historiador e pesquisador Ático Vilas-Boas da Mota), jornalistas capacitados a falar de arte, professores/monitores capazes de perceber o reflexo da luz nos objetos e uma população capaz de agir como protagonista no campo das artes.

Com o ensino de arte-educação, acho que um dia minha equação entre entretenimento e arte possa ficar da seguinte forma: arte / entretenimento. Assim, diante de algum possível “grande” evento artístico que possa passar pela cidade, no futuro, trazendo mais um ícone da arte, o público possa notar que esse ícone, ou rei, para parafrasear Affonso Romano Sant’Anna, poderá não estar apenas nu, mas poderá também já ter rolado escada abaixo, embora os promotores do evento ainda possam querer fazer o público se curvar e elogiar a aura das vestes inexistentes desse rei.


* Disponível aqui





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Releitura de uma obra de Josquin por Paulo Guicheney exclusivo para Patchwork



Patrícia Ferreira Martins

Patrícia é artista plástica e, atualmente, doutoranda em letras e lingüística pela UFG. Adora música alternativa na linha punk rock e grindcore. Também adora literatura, assistir televisão, surfar na internet, comer pipoca no cinema e tomar mirinda com os amigos. É casada com o Wellington.
E-mail: patricia@wsmartins.net