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Tratactus marginale: poesia e capitalismo, de Wilton Cardoso, Ou taumaturgia do cinismo pela marginália
Cínico ou cão: aquele dado à abnegação das coisas materiais. Exemplos: Diógenes (séc. V-IV a.C.), Yeshuah (séc. I a partir dele mesmo) e Quincas Borba (séc. XIX-XX d.C.) — os cinco: o primeiro e o último com seu respectivo cachorro de estimação, e o segundo, sempre sozinho, coitado. (Seria também o caso de Buda, Epicuro, Zoroastro, São Francisco de Assis, São Gerardo Meiella ou O bêbado de Deus, e Rimbaud — mais para tanto, eu precisaria de umas três edições de ruídobranco, e, no frigir dos ovos, chegaria ao mesmo ponto crítico de falar apenas dos três primeiros supracitados. (Então, prometo: ficarei por aqui.)
Diógenes morava num tina de barro — um barril mesmo, semelhante à “residência” do Chaves (outro caso, um caso pastelão, mas um caso, que é o que efetivamente importa) —, às vezes em Atenas e às vezes em Corinto. Mais em Atenas. Veio de Sínope: onde provavelmente não morava em lugar nenhum — que é o mesmo que morar em todos os lugares. Era de fato um cão, kyôn: “costumo fazer festa para quem me dá alguma coisa, rosnar para quem me rejeita, e cravar os dentes nos crápulas”.
Yeshuah, quando faltava vinho nos barris, milagrava águas, num gesto taumatúrgico para consagração de corpos e almas. Passou mais de um mês no deserto, e quando voltou, foi pregar, diga-se parabolar, antes de banhar-se e mesmo de comer. O mais importante, assim como Diógenes, que veio antes dele e dos hippies: julgava que a terra inteira, todos os seus espaços, era sua casa, nem o impressionava riqueza ou poder. Yeshuah milagrava mais coisas além de água: olhos, pernas, peixes, pães, perebas hanseniásicas, sem falar de sua fabulosa taumaturgia da auto-ressurreição e da ressurreição alheia — o famoso caso Lázaro. Importante: não tinha templo, nem igreja, nem altar, nem ágora, nem feira nem shopping onde milagrar: fazia tudo pelas ruas, perambulando, vagava — e vaga é espaço viandando entre o tempo e o nada. Diógenes era, digamos, mas radical: urinava em qualquer lugar público e em público, bem como se masturbava também em público: maneira de passar, quiçá matar, a fome quando lhe faltava o único e por isso repetido prato de lentilhas. Eram hirsutos, como hirsuto o foi (era ou é) Quincas Borba.
O louco machadiano autor de Humanitas, confidente do quase-famoso Rubião e amigo de um certo Brás Cubas, também louco, mas não exatamente cínico ou cão, no sentido que tais termos gozam nesta escritura, foi (era ou é) figura de ações ridículas e intenções sublimes — pensando nestes termos como o pensou Hegel em seu idealismo da Beleza e do Sublime. (Nesse caso, é bom pensar como pensou Hegel porque é menos particular. Particulares: Hume, Vico, Dilthey, Croce, Gadamer, frankfurtianos, Derrida, Bobbio, Ricoeur. Quase particulares: Chateaubriand, Schopenhauer, Nietzsche, Husserl, Foucault. Não-particulares, como Hegel, mas criptografados como o fossem: Kant, Comenius, Rousseau e Marx.) Antes de ficar milionário, e de morrer certamente por tanto, Quincas Borba mendigava, e isto é recíproco a morar num barril e a milagrar. Humanitas, ou humanidade, a filosofia traduzida como Humanitismo, diz respeito à essência indestrutível dos seres, como aquilo indiferente aos valores morais e materiais. Daí seu cão, também chamado de Quincas Borba, e assim — não pelo nome, mas pela Humanitas — o cão de Diógenes, era cheio disso que existe em todos, gente ou não, mesmo depois da morte. Logo, tanto faz indumentárias, cetros e pratos cheios de variedades.
Pronto: instaladas as pessoas e, logo, os lugares — as ruas, o ermo, a vastidão toda da terra, sobretudo seus baldios, incluindo nisto o dentro das bátegas — e também o tempo — dir-se-ia melhor, os tempos: antes, durante e depois de Cristo, o próprio Yeshuah, embora ele não seja o centro da questão, se existe uma —, instaladas(os), eu dizia, posso partir ao que importa: a marginália. Tomo como verdadeiro que a marginália é aquilo que Wilton Cardoso assinala em seu Tratactus marginale: poesia e capitalismo: coisa mais antiga do que a poesia marginal da década brasileira de 1970, do que a geração beat (década americana de 1950) — acrescento — e que imbrica vida e poema. Wilton desenvolve o problema — se é que é isso — no tópico “Da littera: profundos, construtores e marginais”, do ponto 22. ao 51. Embora aparentemente anti-aristotélico e avesso a Jakobson, Wilton trata da marginália como categoremas. Mas tais considerações são dissolvidas em sua escritura, seria dizer: rizomatizadas — para anunciar sua jamais velada relação com Deleuze e Guatarry.
Permitam-me uma quase brevíssima digressão: Wilton Cardoso não é, in praxe, um cínico ou um cão, porque tem vida funcional, não mora num barril nem urina nem se masturba em público, não milagra enquanto pervaga e nem mendiga. Seria dizer: tem vida funcional ativa. De todo modo, no tópico “De como fugir numa cidade”, dentro do que chamo seu terceiro “Programa para a necessidade”, ele nos ensina que é preciso inventar outra cidade além-aquém da cidade que funciona. Ali, onde os mecanismos e os agentes de controle se desregulam ou fazem a curva — como assinala Manuel de Barros: “A linha reta não sonha” —, vive o Wilton cínico e cão, que passa a fome escrevendo compulsoriamente, e isto é recíproco a masturbar-se em público, a milagrar e a mendigar. Pronto.
Voltando: como a marginália é coisa mais antiga e como Wilton não faz detalhamentos disso — até porque não é desnecessariamente delongado como o sou, e porque antigo é antigo e ponto (.) —, comecei esta escritura pelos anciãos. Mas isso pode parecer óbvio, como bem julgarão vocês, leitoresnautas; no entanto, eu não perderia a oportunidade de vociferar detalhes. De todo modo, meu juízo crítico — se tenho um — implica em que na “Ad-vertência” do Tratactus, Wilton anuncia a antiguidade da marginália ao asseverar que escrever é olfativo. Entenda-se escrever como está no tópico “Verbosfera”, do que chamo primeiro “Programa para a necessidade”. Segundo Wilton, há duas maneiras disso: contar e cantar, e ambas podem ou não se manifestar via escritura. Seria assim: falar uma história ou canção equivale a escrever com a língua um discurso que asa. Quem conta ou canta é “o farejador ou cão desejando a cadela no cio”, ad-verte Wilton, porque “o texto é um mapeamento traçado com o faro”, é pelo faro que o animal homem dedilha a cultura. Isso ensina: o texto se espraia descontrolado. É-me óbvio que tal asseveração somente poderia arrancar da livroteca onde ululam minhas caraminholas, lá no cadinho de cérebro que julgo ter, a relação do pensamento de Wilton naqueles pontos do Tratactus com Diógenes, o Cínico ou O filósofo cão; com Yeshuah, que chamam de Jesus, O Cristo; e com Quincas Borba, o louco quixotesco — outro caso de cínico e cão — de Machado.
Em sua definição-chave de bruxo — este actante mais efetivo da marginália, e podemos asseverar que o autor do Tratactus é um deles —, Wilton se aproxima mais intimamente da filosofia cínica fundada por Antístenes, mentor de Diógenes: “Bruxos não gostam de abstrações no seu trabalho, sempre concreto e chão, embora muito sutil, às vezes. É um artesão da magia”. Conta Diógenes Laércio, filósofo homônimo do outro e que viveu no séc. III d.C., que o cinismo — vejam cinofilia, cinosofia, cinopedia, cinose, cinofobia, cinotopia, mas não vejam cinérea nem cinema, simplesmente porque não vem ao caso —, o cinismo, eu dizia, era tão desafeito às abstrações, que, durante a famosa palestra sobre o vaso e a mesa, constante do Crátilo, de Platão, Diógenes retrucou o mestre da Academia dizendo: “Querido, Platão, eu vejo a mesa e o vaso, porém não vejo as respectivas idéias”. E depois de Platão em outra ocasião definir o homem como um animal bípede despenado, Diógenes gostou tanto da definição que, na palestra seguinte, levou um galo despenado à Academia e disse: "Mestre, eis um homem".
A lição sobre os bruxos, de Wilton, está no tópico “Dos bruxos”, e segue do ponto 14. ao 21. Exemplo: o cetro de ouro na mão da canção é obra de bruxaria. Significa que a arte pop conseguiu devorar, via sua principal invenção, a indústria cultural, a arte elevada ou coisa que o valha, de sorte que o historicismo estético, antes descoberto pelo romantismo, sofreu um golpe de anulação a ponto de as diversas linguagens se imiscuírem no espaço-tempo para gerar consubstanciações das mais variadas. Exemplo do Wilton: O poema sujo, de Gullar, e Metaformose, de Leminski. Bruxos às ribaltas: Adorno e Antonio Candido. Contra-exemplo muitíssimo bem sucedido: Bruno Tolentino. Eu acrescentaria, movido por Wilton: os quânticofísicos Stephen Hawking e Max Tegmark, o líder negro Nelson Mandela e inclusive o traveco Geni, de Chico Buarque, são bruxos. Reverberação da lição: “Bruxos não gostam de abstrações no seu trabalho, sempre concreto e chão, embora muito sutil, às vezes. É um artesão da magia”. (Digressão necessária: Geni era ou é cínico ou cão também: dava atrás do tanque e no mato e teve asco do zepelim gigante tão cheirando a luxo e a cobre. Não confundam o poema-concreto, lixo/luxo, de Augusto de Campos, e muito menos o concretismo, com o cinismo, porque isso seria muito cinismo — o outro, de hoje. Nada contra o concretismo-em-si. Detalhe: creio que, mas não tenho muito tempo nem paciência para isto, Galáxias, de Haroldo de Campos, em muitos aspectos, enquadra-se na poesia necessária ao mundo pós-45 do qual Wilton fala, ainda que em suas escrituras os concretos sejam os construtores, aqueles, como os profundos, avessos à marginália.)
No último período dos parênteses acima, toquei em um ponto que me intriga e me convida mais e mais para debater com a sensibilidade e inteligência de Wilton: a digladiagem entre programas estéticos. O tópico motivador desta escritura, “Da littera: profundos, construtores e marginais”, comporta um paixonema em formato de axioma que me parece bem polêmico: “Se há possibilidade da sobrevivência do poema nos dias de hoje, só pode ser pela marginália”. Acho-o de uma unilateralidade perigosa. Preserva ditames para a poesia. A poesia sofreu ditames demais ao longo de sua história de –ismos. Julgo que a contra-aguilhoada que foi o modernismo tenha nos legado o fim dos ditames. Tenha os expulsado da república da poesia. Tanto que, em sua tese República mundial das letras, a crítica contemporânea francesa Pascale Casanova concentra sua discussão em autores de contextos à margem e de discursos à parte dos centros: Mário de Andrade, Beckett, Joyce, Faulkner e Arno Schimidt, que somente pós-45 foram industrializados. E industrializá-los tanto serve ao capitalismo, ao comércio da cultura e sua reprodução em massa, quanto serve à democracia da difusão estética, que faz autores refinados como Gullar — segundo ele mesmo em entrevista ao poeta Weydson Barros Leal — converterem o legado da cultura letrada ocidental em emoção audível pelos becos e pelas platéias.
De todo modo, o axioma: “O poema é um regime energético de atmosferas” dá ao discurso das escrituras de Wilton tal abertura que o buraco para cima que chamamos de Céu é obrigado a proliferar tentáculos e mais tentáculos. Exemplo: anti-sacralismo. Se a poesia é sagrada por excelência, como sempre insistiu Octavio Paz e como diversas vezes podemos ouvir de Mircea Eliade, a urgência de comunicação, a máquina raivosa da paródia, o processador de produtos como bem de consumo do capitalismo — com a efígie de Guevara em blusas da Colcci ou coisa parecida — e a morte da unidade religiosa puseram e põem em crise qualquer sermus sacrus possível à poesia, ainda que das miríades de suas sílabas ululem ou reverberem certa epifania ou litania ou anunciação das falanges melífluas de Maria nos socorrendo de nossos tropeços — que seria dizer pecatti, os pecados.
O Tratactus marginale: poesia e capitalismo está disponível para download em http://br.geocities.com/naumarginal/. Para baixar o arquivo-texto das escrituras wiltoneanas, cliquem no link “livros virtuais” do menu canhoto.
Para conhecer mais sobre Diógenes, O Cínico ou O filósofo cão, leiam: REALE, Giovanni. História da Filosofia Antiga: vol. 1. São Paulo: Loyola, 1993; DIÓGENES LAÉRCIO. Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres: vol. 6. Trad. Mário da Gama Kury. Brasília: UnB, 1987 — neste caso, temos as informações consideradas mais precisas sobre o filósofo, uma vez que apenas fragmentos restaram de sua obra.