Êxtimo


EXTIMIDADE

O termo êxtimo pertence ao jargão lacaniano[1]. Ele designa a posição que as exigências pulsionais corpóreas (as pulsões) – procedentes das zonas do corpo chamas por Freud de “zonas erógenas” – ocupam no terreno do Inconsciente (designado por Lacan como o campo da fala e da linguagem, o famoso grande Outro (A)).

A psicanálise constata, por um lado, uma dicotomia entre esse campo da palavra com seus infinitos desdobramentos de sentido, e as exigências corporais. ‘Dicotomia’ é aqui adequado no sentido teológico: “princípio que afirma a existência de dois elementos essenciais, o corpo e a alma, na constituição do ser humano” (Houaiss). A alma da palavra, mesmo tendo sua materialidade, é da ordem do incorpóreo, ela sempre se desdobra, se articula, faz cadeia, faz metáfora... Uma palavra não tem jamais uma única significação.

Já o corpo é de uma outra ordem, a da substância. Seria a substância cartesiana, res extensa, mas não é, porque esta é sempre um pedaço extenso de corpo sem vida. Trata-se da substância do corpo vivo. O estar vivo é condição para que haja exigência e satisfação pulsional

Por outro lado, os estudos lacanianos também constatam articulações entre esses dois campos essencialmente distintos da subjetividade humana. As elaborações de Lacan são, em grande parte, tentativas de traduzir teoricamente esses modos de articulação. A noção de extimidade é uma delas. A pulsão penetra no mais íntimo do Outro aí se alojando, mas continua sendo sua mais radical exterioridade.

PÁLPEBRAS

A originalidade de Freud foi colocar em primeiro plano as emoções (modo como as pulsões aparecem para nós). É impossível, diz Freud, evitar sentir quando algo nos afeta, seja de modo desagradável ou feliz. Contudo, nem sempre interpretamos corretamente o que sentimos, porque nem sempre aceitamos sentir certos sentimentos.

A tese fundamental da psicanálise é a de que nós nos defendemos do corpo.

Mas não é só a psicanálise que valorizou o corpo. O Cristianismo também o fez. A idéia da ressurreição do corpo de Cristo foi a grande novidade no campo das religiões. Como é que pode a carne, essencialmente ligada ao pecado, à miséria, ao perecimento, entrar no reino espiritual, essencialmente purificado? O Cristianismo promete um ressarcimento ao nível do corpo vivo. O corpo de Cristo ressuscitado e levado ao céu é também um êxtimo. É um elemento heterogêneo (corpóreo) que é introduzido no mundo dos espíritos.

Falando em mundo dos espíritos...

O Cristianismo promete um ressarcimento ao nível do corpo vivo. Leva, é claro, à resignação, pois ‘o reino dos céus (que só vem com a morte) pertence àqueles que sofrem’. Mas, enquanto religião isso é muito melhor do o simplismo kardecista, que nem toca no assunto dos sofrimentos da carne. Tudo fica mais fácil quando a essência é uma espécie de fluído volátil que está em constante progresso migrando de invólucro para envólocro.

Ora, ora, ora, a questão ética da psicanálise, abordada por Freud em seu artigo O mal estar na civilização, não é outra senão a de questionar o sofrimento do corpo e jamais se resignar a ele.

PSICANÁLISE E ARTE

Gostaria de propor uma definição genérica, simples e até simplória, para os objetos estéticos ou artísticos: a arte é algo que afeta o corpo.

Evidentemente, só o corpo vivo pode ser afetado.

O cadáver é inerte, inafetível.

Essa definição de arte quer dizer que o corpo vivo faz parte dela mesma.

Portanto, se os seres humanos fossem dizimados da face da terra e as obras de arte permanecessem, sua coerência interna também permaneceria e a obra de Umberto Eco teria ainda todo seu valor.

Mas seriam vazias, esvaziadas de dois lados: do gozo nelas depositado e do gozo que elas causam naquele que é tocado.

Sim, um corolário dessa definição é que o objeto artístico só pode ser produzido por um corpo vivo, o do artista, que, ao articular os elementos de seu texto, no mesmo ato, deposita-lhe a afetação de seu próprio corpo. Mas lembrem-se, tudo isso que é da ordem do corpo, dos afetos depositados na arte, não pode ser reduzido a qualquer elemento de linguagem.

É por isso que o artista tem que ser afetado pelas experiências da vida para poder ter o que dizer. O grande mestre do piano, Rubinstain, ao ver um bando de garotos enfurnados e extenuados por quase doze horas diárias ao piano lhes disse: deixem isso, vão viver, para terem o que dizer.

TRAUMA

Com Lacan a afetação mais originária que recai sobre um sujeito é, não a linguagem, mas a língua. A linguagem é uma operação organizadora sobre a língua, seu objeto. Essa, por sua vez, compõe um campo desorganizado e que não carece daquela para existir. O ato propriamente estruturalista de captar estruturas fundamentais e homólogas nas mais diversas línguas é uma invenção ordenadora que possui toda sua utilidade, mas não elimina a desordem original, dada, factual, de toda língua em constante transformação.

Pois bem, o encontro de um corpo vivo com sua língua mãe (mãe originária) é da ordem do traumático. Nós humanos somos traumatizados de saída, ou de entrada, se quiserem. Somos marcados pela língua mãe de uma forma ineliminável. E, na vida, sempre voltamos a ela nos momentos decisivos, também traumáticos. Como retorna Michel de Montaigne numa bela passagem de seus Ensaios, com a qual eu encerro meu breve percurso, e cuja leitura eu jamais deixaria de recomendar:

Não se arrancam as raízes das tendências originais; dissimulam-se tão-somente. Assim a língua latina é para mim a minha língua materna; compreendo-a melhor do que o francês. Mas há quarenta anos não a utilizo nem para falar nem para escrever. Entretanto, quando me vi tomado de forte emoção, o que me aconteceu duas ou três vezes na vida, uma destas vendo meu pai cair inanimado em meus braços, minhas primeiras palavras foram em latim. Valendo-se das circunstâncias, a natureza, há muito reprimida, ressurgia. E casos como esse, contam-se inúmeros. (Ensaios III, do arrependimento).



[1] Minha abordagem segue a via traçada por um psicanalista leitor de Lacan, famoso por ser também o seu genro, a saber, Jaques-Allain Miller.




Cristiano Alves Pimenta

Nascido em Goiânia, vivido na velha, ou não tão velha, Vila União, logo começou a ler coisas por conta própria e se deparou com uma epígrafe de autoria de Antonio Gramisci: “Todos somos filósofos”. Pronto! Primeiro raciocínio propriamente filosófico: “Se todos os homens são filósofos” (premissa maior), e “Cristiano é homem” (premissa menor), logo: “Cristiano é filósofo”. Tornou-se, então, um jovem filósofo, amante da verdade, leitor de K. Marx, Sartre, Hegel, entre outros. Foi salvo da megalomania apenas pela humildade, que o obrigava por à prova os produtos dessa ratio pessoal. Tortuosos caminhos o levaram, contudo, da faculdade de filosofia (USP) para a psicanálise Freudo-Lacano-Milleriana. Outro pronto! O amor à verdade caiu. Hoje, mais lhe vale uma “ilusão útil” (Baudelaire) do que mil verdades inúteis.
E-mail: cris.alvespimenta@yahoo.com.br