Solidão no 303



Leandro Resende

leandroimprensa@gmail.com




Márcia sobe as escadas com um pacote nas mãos, embrulhado com papel de presente de uma destas redes de supermercado. Como mora no terceiro andar, sua academia diária é evitar o elevador e subir pela escada. A qualquer custo e situação. Não sabe dizer se funciona, pois continua tão gorda quanto antes. Mas defende-se com cálculos exponenciais e derivadas logarítmicas que estaria sete quilos mais obesa se usasse apenas o elevador.

Chega ao 303. Passa o presente para a mão esquerda e o abraça, firmando-o com o queixo. Com a mão direita, abre a bolsa, dependurada no braço esquerdo e firma-a na coxa do mesmo lado. Abre o zíper e tira uma penca de chaves. Umas dez.

Seu avô dizia que podia saber a idade de uma pessoa pela quantidade de chaves que ela carrega. Quanto mais chaves, mais velha. Chave da porta do escritório, da gaveta da escrivaninha, da porta do carro, do porta-malas, da sala, do cadeado da caixa de correios do prédio e a do portão e mais três ou quatro da casa da mãe.

Abre a fechadura, mas não abre a porta. Bate a campainha. Presente nas duas mãos, pronto para entregar, de surpresa. Rosto apreensivo. Aperta uma segunda vez. Será que não tem ninguém? Novamente.

Coloca o presente no chão. Abre a porta rapidamente. Entra e a fecha. O presente fica do lado de fora. Caminha até o meio da sala. Volta com um rosto leve, tranqüilo, andar despretensioso.

Encosta o rosto na porta. O que vê no olho mágico a faz rir. Abre a porta, alegre e surpresa. Braços abertos para presente e abraços. Sorriso largo de um reencontro. Neste momento, dá meia-volta por traz do presente, pega-o e faz menção de entregá-lo, ao mesmo tempo que, num segundo, dá outra meia-volta, faz menção de recebê-lo, recebe, olha com carinho e riso, retém- no junto ao peito e inicia diálogo todo alegre.

"Muito obrigada, Márcia."

"Que isso amiga, tava passando por perto, vi este, não, vai abre primeiro pra você ver. Achei sua cara e resolvi comprar. Espero que goste." "Claro."

A anfitriã segue à sala de visitas com o presente em uma das mãos e com a outra meio que escoltando algo, escoltando-se talvez. "Sua visita é o maior dos presentes. Não precisava, adorei. Entra. Venha. Senta. Fala da sua vida. Bebe alguma coisa?"

Sentam (senta). Pergunta de novo olhando para uma poltrona vazia: "Bebe alguma coisa?" "Uísque com gelo", responde-se.

Márcia levanta e vai até a estante. Coloca o presente ali e depois enche um copo de uísque, três cubos de gelo e, disfarçando, dá uma bicada no copo. "Bom."

"Márcia, tá aqui!", diz caminhando lentamente com o copo na mão direita até o sofá, onde faz um giro e cai na poltrona, passando, durante o movimento, o copo de uma mão à outra, como se o recebesse de alguém. "Obrigada."

A conversa prossegue, hora e meia. Amigas distantes, casadas, sacanagens, o aborto da Geane, o adultério da Edilene, o bonitão do Adilson, o cineminha que elas marcaram e nunca foram. "Desta vez vamos."

"Certeza. Mas, tenho de ir embora. Foi muito bom revê-la. Agora fica me devendo uma visita. Vai mesmo, sábado estou à toa...", despedem-se como se nunca mais fossem se ver. Acompanha a amiga até a porta, faz todo um malabarismo e consegue dar os três beijinhos – no caso seis, três por uma, três pela outra. Um abraço carinhoso. O abraço é o gesto da amizade.

Despedem-se de perto. De longe. O último tchau. Márcia fecha a porta e se sente só. Limpa uma mínima lágrima que começa a escorregar pelo rosto. Não poderia deixá-la ir, pensa. "Poderia ter dormido aqui, tinha tanta coisa pra falar."




Leandro Ferreira Resende, 32 anos, goianiense. Formado em Comunicação Social – Jornalismo, pela UFG, e em Economia, pela Faculdade Anhanguera. Trabalha como jornalista na área econômica desde 1998. Primeiro no Diário da Manhã, até junho de 2001, e, desde então, no jornal O Popular, onde também publica contos semanalmente no caderno de cultura Magazine. O cineasta Robney Bruno está adaptando o conto Um Morto na Sala para o cinema. O curta-metragem sai até agosto.

CONTOS
Útero
Publicado em Goiânia, 2005, produção independente.

POESIA
Uísque, Valium e Uva
Publicado em Goiânia, 2005, produção independente.

HISTÓRIA
Juceg: uma história centenária

Em prelo. Goiânia, 2007, produção independente.

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a mesma coisa não é
a mesma coisa nunca.

a mesma coisa de
repente trinca.

aí, a coisa mesma
fica de novo branca

ainda que suja de tinta.


*

pensei que fosse oceano.
era só um aquário...

pensei que fosse paris.
eram os 20
watts de uma lâmpada
no canto de um cenário...

pensei que fosse mozart.
eram os acordes imperfeitos
de um
jingle ordinário...

pensei que fosse o pecado maior.
era o
mea-culpa
de um réu-primário...

pensei que fosse você.
mas era apenas o sol.

*

dama
da minha
vida

a volta
quer ida
para sempre

minhazinha
minha zona
franca

larga manha
em mim
vente

*

eu estou cansado para
conclusões:


q w e r t y u i o p a s d
f g h j k l z x c v b n m


está tudo aí: é só
uma questão de encaixe!

*

você disse some
e eu somei

eu disse some
e você sumiu

*

incisivo sobre a neve
o raio de sol inscreve.

*

dizem que sim
e mal sabem:

rima pra tempo
não é vento.

é saudade.

*

era abril 9, ou maio à tarde, na cidade
de nova-iorque?!

eu te afagava entre goyas, gorros e
braques...
- por fazer: o bigode. -

carina, dividia os céus, pas théos!,
com alguma bailarina
de degas;

enquanto armando, harlem nos pignos,
contava de gauguin, ca-olhando
basquiat...

ah, manhatan!... saberias, que
tardes amanhecem, em tua direção?!

que, curvas expressionistas,
alinhavam, o meu par/

tido coração?

tarde

morri naquele meio de tarde. alheio ao carnaval que corria.
morri de beijo perdido.
e nunca mais voltei...
passo agora, horas a fio, tecendo grafias em queixumes de vento.
morri sem avisar:
enquanto vestia minha fantasia de rendas,em frente ao mar.
a alguém fiquei devendo um lírio branco.
não sei se pago.
amanhã, com certeza, em nome de iemanjá,
volto a ser este mesmo dia:
mãos frias de indiferença e sopro breve de andorinha triste...

morri enquanto morria.


Marcos Caiado é publicitário e poeta.
Livros Publicados (poesia): M.M.C , Segundo Primeiro e Mais Um
No prelo:
Cds (participações poéticas): Urubu e Terrorista da Palavra.