Mieloma de Ocasião


PORNOCHANCHADA HARDCORE


Já disse, escrevi, e repito: o cinema de Cláudio Assis é um fracasso ético e estético. Explico logo de cara: ele, que intenta denunciar o caos social, a exploração da mulher, o bestialismo e a violência cotidiana, realiza filmes que acabam sendo, eles próprios, caóticos, exploradores da mulher, do bestialismo e da violência cotidiana. Nunca um tiro saiu pela culatra com tanta força e com tamanho estrondo no âmbito do cinema brasileiro.

O filme mais recente de Cláudio Assis, o premiado Baixio das Bestas, aprofunda os problemas verificados no anterior, e primeiro longa do cineasta, Amarelo Manga. Se Amarelo Manga era apenas e francamente ruim, Baixio das Bestas é intolerável. Poucos filmes, ao filmar a torpeza e as brutalidades de uma pá de personagens, conseguiram atingir um resultado tão desastroso. Tudo nele é caricato, desajeitado, velho e, acima de tudo, risível.

Tome-se como exemplo a personagem Auxiliadora (Mariah Teixeira). Seu avô e pai (Fernando Teixeira), a fim de garantir uns trocados, exibe a nudez da menina para uma platéia punheteira de caminhoneiros e desocupados. Viram? Há uma denúncia aqui, de uma realidade degradante e trágica. Ninguém, é claro, duvida que uma coisa dessas aconteça, e aconteça com uma freqüência assustadora. O problema é que, mais adiante, a câmera de Assis focaliza a mesma personagem tomando banho em um córrego, só de calcinha. O diretor, em matéria publicada na revista Piauí deste mês, defendeu-se dizendo que precisava mostrar a personagem em seu espaço. Ahã. Colocou-se na mesma posição do avô/pai explorador. E, pior, coloca o espectador na mesma posição dos onanistas. O problema, creio, é que o cineasta não sabe mesmo o que está fazendo.

A matéria publicada na Piauí foi a primeira crítica negativa do filme que li na grande imprensa. Nela, dar voz ao diretor foi a maneira encontrada pelo jornalista de, vejam só, corroborar o próprio ponto de vista crítico em relação ao filme. Porque basta deixar Assis “defender” seu trabalho que ele se estrepa sozinho. Sempre. Por outro lado, todos os grandes jornais e alguns festivais se renderam a uma suposta beleza plástica do filme e ao seu tom incisivo, desbragado, violento, de “denúncia”. Muitos elogiam os filmes de Assis dizendo que ele domina como poucos “autores” brasileiros a técnica cinematográfica, que seus filmes são bem fotografados (também, com Walter Carvalho no time) e bem montados. A que ponto chegamos... Posso estar enganado, mas saber fotografar e montar é o mínimo para alguém que se diz cineasta, não? Logo, elogiar um diretor de cinema por isso é como elogiar um sorvete porque ele está assim bem gelado.

Em uma “cena-chave” de Baixio das Bestas, um dos personagens, olhando diretamente para a lente, diz que no cinema pode tudo. Mais adiante, o pai-avô explorador é justiçado pelo Maracatu (é ver pra crer, numa cena que levou pessoas a gargalharem no cinema em que eu estava). Uma prostituta é brutalizada por um bando de “machões” que, para tanto, utilizam um pedaço de pau (ah, as sombras...). Lá pelo meio do filme, outra prostituta é sodomizada e recebe sucessivos chutes na cabeça. A menina aparece despida uma pá de vezes e, claro, termina como puta, porque no cinema de Cláudio Assis, tão socialmente consciente, as mulheres são, foram ou serão putas.

Não tenho nada contra a pornografia, mas tenho tudo contra pornografia travestida de outras coisas. Em outras palavras, odeio hipocrisia. Quer fazer uma pornochanchada hardcore, filho? Faça, mas, por favor, chame as coisas pelos seus devidos nomes e não se esconda atrás de um discurso esquerdista fuleiro, morto e enterrado. No fundo, acredito, Cláudio Assis é um humorista. Poucos filmes brasileiros recentes são tão tristemente engraçados quanto Amarelo Manga e Baixio das Bestas.




André de Leones

André de Leones nasceu em Goiânia no ano da desgraça do nosso senhor eu-sei-que-você-não-existe 1980. É autor do romance "Hoje está um dia morto" (ed. Record), vencedor do Prêmio SESC de Literatura 2005 e na época ele achou que isso significava alguma coisa. Venceu também, com um livro de contos de título engraçado nunca publicado, o Prêmio Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, mas esta piada já é velha. Mantém o blog http://canissapiens.blogspot.com, cheio de piadas mais novas.
E-mail: alleones@gmail.com