Neuropop
Conto turístico
O turista que foi a Caldas Novas 15 anos atrás e voltou somente agora seria tomado de estupor diante da fúria de demolição e construção que se apossou da cidade. Casas de comércio, prédios, clubes, bairros e fortunas, tudo é some aparece de súbito e a cidade cresce exponencialmente, em população, riqueza e extensão. Em Caldas Novas, quase nada se preserva e quem caminha hoje por suas ruas, daqui alguns meses verá que muitas lojas fecharam, outras abriram e outras ainda se modificaram, do mesmo modo que as pessoas raramente se fixam por muito tempo em um trabalho: a obsolescência e a descartabilidade são as leis da cidade.
A Cidade de Goiás certamente não deixou de crescer nestes últimos 15 anos, mas há um permanente esforço de conservação de seu patrimônio histórico, seja ele simbólico (tradições) ou material (construções). Este esforço se dá por dois motivos que se auto-alimentam: uma consciência coletiva e cidadã de preservação da memória do estado e do país; e porque o turismo do qual a economia da cidade depende cada vez mais necessita desta conservação.
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Caldas Novas é uma cidade balneário muito particular, pois as pessoas não a procuram apenas por conta do poder terapêutico de suas águas termais. Se assim fosse, o perfil de seu turista seria o idoso. Mas ela é freqüentada por pessoas de todas as idades. Suas águas quentes exercem uma espécie de fascínio que atrai de crianças a velhos, passando pelos jovens. Aliás, com estes acontece um fenômeno de massa muito comum (como nas praias) no qual um amontoado juvenil atrai mais pessoas e assim sucessivamente num efeito bola de neve, a ponto de, no carnaval, a cidade ter problemas por conta de excesso de turistas.
Esta bola de neve juvenil tem características muito peculiares, pois é feita de jovens em trajes de banho e em estado festivo, não raro regrado à cerveja. Caldas Novas é a cidade dos corpos em transe: Hidra, Baco e Vênus. Mas o fio condutor desta tríade é Hidra, que se compõe com os corpos desnudos à procura de amor e embriaguez, é a água, este elemento primeiro e anterior que, em forma de piscinas termais, fascina e atrai a massa turista para o seu corpo informe.
Na Cidade de Goiás há um outro clima, mais cult e alternativo. O atrativo é a tradição rude e brutal dos ocupantes antigos de Goiás. Esta tradição se transfigura numa atmosfera que atrai uma “população mais consciente da importância da memória”. É claro que há também Baco, Vênus e até mesmo Hidra, pois nos arredores da cidade, no Rio Vermelho ou no Bacalhau, os jovens se encontram em trajes de banho e os corpos se mostram e se desejam como em Caldas Novas. Aqui também há o fenômeno bola de neve, mas o elemento condutor é a história, ou melhor, a história paralisada na forma de conservação dos prédios antigos e algumas tradições, como a procissão do fogaréu e dos doces caseiros.
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Tanto em uma como em outra cidade ocorre ainda um curioso fenômeno. O chamado turismo ecológico, propiciado principalmente por duas serras, a de Caldas, um esplêndido platô a oeste de Caldas Novas e a não menos impressionante Serra Dourada, nas cercanias da Cidade de Goiás. Aqui, outro elemento ancestral atrai o turista: a Natureza.
Outra coisa comum a ambas as cidades (na verdade a todos os locais turísticos) é a presença maciça da canção popular, seja em shows, nas margens das piscinas e córregos onde os corpos se banham ou na noite de bares e boates. O ar das cidades turísticas é saturado da canção de sucesso (sertaneja, axé, dance, rock) ou, em menor grau, alternativa (mpb, samba, caipira). São as massas turistas em conexão com Orfeu (Orfeu-pop), o que não deixa de ser uma espécie de embriaguez.
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O elemento-chave, de fascínio, o que atrai as pessoas numa cidade turística é, em geral, um fenômeno de margem. Algo que se encontra à margem da sociedade e que, normalmente, não teria uma serventia imediata para o cotidiano das pessoas, estados e empresas: águas termais, praias, tradição histórica, natureza preservada. A estes elementos-chave juntam-se outras coisas marginais, que circulam na sociedade, mas de forma clandestina ou camuflada, tais como o corpo desnudo e os entorpecentes, ou na forma de entretenimento para encher as horas ociosas, caso da canção (a poesia de agora). Enfim são coisas ociosas e marginais para a economia das sociedades. E talvez por isto mesmo sejam atraentes para as pessoas: os fluxos de margens são um fascínio para os fluxos que circulam no interior do sistema, pois implicam no seu limite, além do qual se desdobram riscos e mistérios cuja exploração é o exercício de uma ousada liberdade das regras e hierarquias sistêmicas: o fascínio da viagem, da ida que talvez não tenha retorno ou da qual se retorna outro.
Por outro lado, se as sociedades atuais dispõem desses lugares (geográficos ou sociais) ociosos, as pessoas de classe média ou alta, que se encontram num estágio de “desenvolvimento” (mesmo em países ditos subdesenvolvidos), dispõem, em maior ou menor grau, de momentos ociosos, que vão do descanso diário até as férias, passando pelo fim de semana. Isso sem falar nas pessoas que tem boa parte ou quase todo o seu tempo ocioso, como os jovens, crianças e os velhos. Esta também é uma duração de margem, na qual o corpo das pessoas não tem o que fazer de produtivo, mas que, mesmo para os que trabalham, deve existir, sob pena da queda de sua produtividade.
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O turismo promove e explora o encontro dessas duas ociosidades (ou margens), o tempo livre das pessoas e os lugares geográficos e sociais não produtivos, transformando o ocioso em produtivo. Este encontro é efetivado pelo deslocamento espacial, pela tour, a viagem de recreio.
A grande descoberta do turismo é que qualquer ociosidade pode ser produtiva, o descanso e os lugares imprestáveis podem render. Como a ociosidade (seja a das pessoas, seja a dos lugares) é margem, isto implica em trazê-la para o interior do sistema, em sistematizá-la, ou seja, em domesticar o que ela tem de perigoso e incerto e convertê-la em normalidade. Assim, a viagem de turismo não é mais um risco, nem de morte para o corpo, nem de transformá-lo de tal forma que ele retorne outro – desestruturação do corpo. O turista não explora territórios de risco, mas trafega por lugares demarcados. Assim, os elementos de margem, ligados de uma forma ou de outra ao transe, à ancestralidade e à indiferenciação, tais como água, natureza, tradição, corpo, entorpecentes, são demarcados e depurados de seus riscos e incertezas. Há, no turismo, uma racionalização destes elementos e do tempo ocioso, assim como da viagem. Todos são cercados de planejamentos e garantias para que o corpo retorne ileso, não apenas do ponto de vista de sua saúde, mas de sua identidade: o turismo não implica numa viagem para o outro, mas de um deslocamento de uma identidade sobre um espaço previamente segmentado: movimento de um fluxo demarcado subjetivo sobre um fluxo demarcado objetivo, sendo ambos internos à sociedade capitalista.
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Talvez a Cidade de Goiás (e o turismo histórico e ecológico em geral) possa parecer menos vinculada a esta domesticação dos fluxos e proporcione, de alguma forma, um encontro com o outro. Talvez porque paire no ar uma atmosfera cult, porque haja, ao lado da ambição, uma consciência cidadã de preservação da memória coletiva. Mas o fato é que a demarcação que ela sofre, por parte do estado e do capital, não difere muito, em natureza, da de Caldas Novas. Do ponto de vista da racionalização turística, a reforma e a preservação do patrimônio histórico (uma espécie de congelamento da duração) não difere muito da incessante demolição e reconstrução por que passa Caldas Novas. Em ambos os casos, trata-se de uma espécie de cenografia, uma montagem de cenários para que se possa passear e, no passeio, vivenciar o espetáculo: o turista como ator, como papel social previamente estabelecido, escrito (é claro que não se trata da escrita de um autor consciente e maquiavélico, mas da formação de um desejo de massa, inscrição social).
Neste sentido, se quisermos encontrar o lugar turístico por excelência ou, para os que gostam de essências, a natureza do turismo, não se deve procurar em cidades “reais”, como Caldas Novas, Goiás, Porto Seguro ou Rio de Janeiro, por mais voltadas ao turismo que elas sejam, mas na cidade-espetáculo que é o parque temático. O aparecimento deste se deu após a consolidação do turismo como atividade econômica, mas ele sempre foi o horizonte de todos os lugares turísticos, uma espécie de modelo a ser perseguido: quanto mais próximo da extrema demarcação de um parque temático, mais próximo da perfeição turística.
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A atmosfera cult e a consciência cidadã das cidades históricas não levam necessariamente ao outro da margem porque elas mesmas são incorporadas no espetáculo geral do turismo, formando um nicho específico que vai atrair certo fluxo de turistas, mais alternativo, mais consciente. Ainda assim, não deixa de ser um fenômeno de massa e de internalização das margens: o cult é um lugar no sistema.
A memória conservada nestes lugares, destoante e, de início, improdutiva para as sociedades modernas, exercem grande poder de atração sobre as pessoas, pois funcionam, entre outras coisas, como ressonância de uma identidade coletiva e pretérita em conexão com o sujeito presente. Trata-se de uma ponte entre tradição e presente que une (e unifica) sujeito e coletividade: há sempre um (pre)sentimento do sagrado nos lugares antigos. O turismo promove a ligação do tempo livre das pessoas com este poderoso fluxo de desejo da memória coletiva, sob o regime de outro fluxo, o de capital, tornando produtiva a contemplação da memória.
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É provável que o turismo das águas, principalmente a praia, seja o mais dinâmico dos turismos, do ponto de vista econômico. E sempre que há água, há corpos quase desnudos e a promessa da sexualidade. Mas estes lugares turísticos não se configuram pelo sexo livre ou pela facilidade de relacionamentos, os quais seguem as mesmas restrições e padrões morais de outros lugares. Talvez haja apenas um aumento na prostituição, por conta da maior circulação de dinheiro livre para a diversão. Trata-se de um fenômeno parecido com o do capital, cujo excesso em determinado lugar ou atividade não implica em facilidade para consegui-lo.
A cidade cujo turismo se baseia nas águas tem estes dois excessos que se entrelaçam: o de capital e o de sensualidade. A água (das piscinas termais, do rio, da praia) dispara o processo turístico que, por sua vez, agrega sensualidade e capital. Estes dois últimos elementos alimentam duas bolas-de-neve complementares. Por um lado, os corpos atraem mais corpos que, por sua vez, exigem mais investimentos em infra-estrutura. O capital atrai mais capital e mão de obra (corpos para o trabalho e não para o ócio). Então ela se povoa maciçamente de um fluxo de trabalhadores, turistas e capital: indústria do turismo. Mas a este excesso dos fluxos de sensualidade e capital corresponde a dificuldade dos corpos em satisfazer seu desejo por eles, pois da mesma forma que o capital é escasso à massa trabalhadora, o encontro sexual é difícil à imensa maioria dos turistas.
No turismo das águas a acumulação de fluxos (de capital, de sensualidade) exerce um fascínio sobre os corpos, atraindo-os massivamente, pois estes, no capitalismo, necessitam de complemento de fluxos (a falta constitui o corpo - no caso do turismo histórico a falta se liga à memória e identidade). Mas, apesar de sua abundância, a circulação desses fluxos sofre uma severa disciplina que os torna escassos para a massa dos corpos e, como em qualquer lugar, muito poucas pessoas se satisfazem, mantendo ativo o processo da falta que movimenta, seja a economia da sensualidade, seja a do capital.
Assim, o erotismo que na revolução contracultural se configurava como uma espécie de arma contra o capitalismo sofre, no turismo das águas, o mesmo processo de acumulação e escassez do fluxo de capital, sem que os corpos quase desnudos necessitem modificar sua moralidade se lançando a uma sexualidade que a contracultura chamava de livre, desprendidas da “boa moral”. O que implica na preservação da identidade que os corpos ganham no interior do sistema. Mesmo quando há encontros sexuais, ele tende a ser no interior dos limites da sociedade. O transe sexual não se configura como passagem para a margem, a libido não atinge o outro sistêmico como queria a utopia contracultural. Se pensarmos nos corpos pelos quais circulam a libido, isto quer dizer que eles continuam demarcados e submetidos à rígida disciplina sensual da sociedade: trata-se de uma Vênus domesticada.
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Que tipo de texto faço nesta coluna? Eis uma pergunta que eu deveria responder na primeira edição da Ruído Branco. Mas eu mesmo não sabia o que seria, embora soubesse que falaria um dia de turismo, de canção, de outros fenômenos do pop e do entretenimento, além de alguma coisa de literatura e pensamento. Mas o que faço? Ensaios, epigramas? O que me ocorre mais imediatamente é a ficção, contos. Faço, neste espaço, contos, narrativas, mas sem fábulas, compostas somente de digressões. É o mesmo trabalho digressivo de um narrador, o mesmo gesto de observação e registro, o mesmo mapeamento, mais olfativo e manual que visual e auditivo: tateios da mente. São contos que perderam a história.
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e agora zé
literatura acabou
contracultura
é a favor
utopia rodou
pé na estrada é turismo
ismo nenhum sobrou
todo sonho so
çobrou
e agora zé
que fazer do que resta
da festa
que que eu faço com o agora