João Colagem: A Insustentável Leveza
| |
| Obra que compõe o livro Mischien is water van dun hout de João Colagem e Marco Nijmeijer |
Conheci o trabalho do artista plástico João Colagem em 2005. De imediato, suas imagens me remeteram ao mito de Perseu. E, quando comecei a gravar uma série de conversas com o artista, há algumas semanas, percebi que o mito grego não perpassava apenas a obra, mas, também, a atitude do artista frente ao mundo.
Nas nossas conversas, o livro Seis Propostas para o Próximo Milênio, de Ítalo Calvino, veio à tona. Neste ensaio, que une ética e estética, Calvino destaca a leveza como sua proposta primeira. Ele recorre ao mito de Perseu para sinalizar uma direção para o artista face ao opaco, monstruoso e quase petrificado mundo contemporâneo:
O único herói capaz de decepar a cabeça da Medusa é Perseu, que voa com sandálias aladas; Perseu que não volta jamais o olhar para a face da Górgona, mas apenas para a imagem que vê refletida em seu escudo de bronze.(...) Para decepar a cabeça da Medusa sem se deixar petrificar, Perseu se sustenta sobre o que há de mais leve, as nuvens e o vento; e dirige o olhar para aquilo que só pode se revelar por uma visão indireta, por uma imagem capturada no espelho (Cia das Letras, São Paulo, 1994, p. 16)
Calvino sugere, com esta proposta, um caminho contrário ao embrutecimento do mundo. Não se trata, para o estudioso, de negar a realidade, mas sim de considerar o mundo sob uma outra ótica.
É, também, em torno da proposta de lançar um olhar leve e compassivo para o mundo empedernido e violento, que João Colagem desenvolve seu trabalho artístico e, sobretudo, seus projetos sociais. Ética e estética são elementos indissociáveis para o artista.
João é natural de Trindade, Goiás, mas vive em Roterdam, na Holanda, há cerca de 11 anos. Seu Atelier Colagem é, atualmente, referência no estabelecimento da chamada “Escola Colagem” naquele país. Além de espaço permanente de exposições, o Atelier abriga oficinas e outras atividades culturais. Ele vem à Goiânia duas vezes por ano onde mantém, no Conjunto Vera Cruz II, uma filial do seu Atelier. Neste local, o artista realiza atividades voltadas para crianças e adolescentes. Muito mais que repassar técnicas artísticas, João procura ministrar oficinas com o objetivo de melhorar a auto-estima e o senso de comunidade dos jovens. Através da colagem, segundo João, os jovens aprendem a olhar para o mundo com mais leveza e a querer fazer parte dele.
João financia pessoalmente seus projetos sociais no Brasil, mas, quando a divulgação dos resultados desse trabalho fica a cargo dos órgãos públicos, a decepção é quase sempre certa. Infelizmente, a exposição das obras realizadas em sua última oficina, que atendeu 40 jovens de Trindade, não aconteceu, no mês passado, devido à falta de apoio de “autoridades” da área da cultura dos municípios de Trindade, de Goiânia e do Governo de Goiás.
| | |
| Lorraine
| Claudirene
|
| | |
| Amanda | Natália |
A insatisfação de João com as políticas culturais no Brasil, o leva a considerar somente as iniciativas independentes como legítimas. Para ele, mais que nunca, é hora dos artistas brasileiros se tornarem protagonistas no processo de mediação do ato criativo.
Na Holanda, a situação é diferente. Recentemente, a Fundação Art Kids do governo holandês, abarcou as oficinas do artista. O projeto compreende uma série de oficinas de colagem em escolas e centros comunitários do país. O objetivo, segundo João, é “o resgate da imagem perdida” que, como nas oficinas realizadas no Conjunto Vera Cruz II, procura proporcionar um exercício em direção do resgate de valores e da auto-estima dos jovens holandeses.
Voltando ao mito de Perseu, vemos que, ao usar a cabeça decepada da Medusa contra seus inimigos, o herói se converte numa das maiores metáforas barrocas: “ser convertido em pedra, ser fulminado por um olhar que fascina” (Andrade Júnior, Galáxias Neobarrocas, Niterói, 2006, p. 36). Aqui, a reflexão em torno do mito de Perseu ganha uma outra dimensão que vai além da leveza. O herói grego passa a representar não somente os ideais de volatilidade e luta contra o embrutecimento, mas também se torna a própria fonte de petrificação.
A obra de João apresenta-se na imbricação entre o ver e o pensar. Suas formas não revelam as coisas com a clareza da razão cartesiana, mas as colocam entre parênteses. Esta visada indireta, como o reflexo no escudo de Atena que guia Perseu, mais do que iluminar a realidade é capaz de evidenciar todas as suas contradições.
O elemento neobarroco presente na obra de João pode atualizar, simultaneamente, os signos da leveza e da fixidez. Suas imagens, à semelhanças da imagem na linguagem poética da qual fala Octavio Paz, são espaços onde os contrários se fundem, onde “plumas são pedras, sem deixarem de ser plumas” (O Arco e a Lira, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1982, p. 136).
Segundo o historiador da arte Gideon Wille, João Colagem cria imagens lindas que contam histórias horríveis e se utiliza de um humor que pode amenizar tragédias*. O trabalho de João Colagem se situa, assim, na confluência entre o belo e o monstruoso, a verdade e a instabilidade, a fixidez e o movimento, a forma e o informe, o lúdico e o poético: pedras e plumas compõem a insustentável leveza de suas imagens.
| |
| Obras em exibição no Stads Museum - Ijsseistein |
*http://www.colagem.com/portugues/comentario.htm
Bate-papo com Colagem
|
Atelier Colagem
Walenburgerweg 18
3033 AB Rotterdam
Rotterdam Holanda
0031 10 467 4671
http://www.colagem.com
colagem@colagem.com
MSN joaocolagem@hotmail.com
Skype João Colagem
Orkut João Colagem
Orkut comunidade Atelier Colagem
Atelier Colagem
Rua VC 72 Qud 144 lt 22
Conjunto Vera Cruz II 7 etapa
Goiânia Goias
Cep 74495- 490
Tel 062 3593 9306