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pautas da escritura ou biografia das pétalas


primeira pauta para a escritura: (1) se quiser todas as pétalas, a pétala que é morrerá. (2) A uma pétala somente é possível uma queda. Os acenos de ascensão somente o vento processa. (3) Uma pétala se casa a uma outra que se casa a uma outra que se casa a uma outra etc. e isso somente ocorre por vontade da cola, não das pétalas, senão todas despetalar-se-iam em várias quedas. (Isso quer dizer encontrar as pétalas. É preciso muito exercício, vontade e uma psicose para encontrá-las. Solução: “Procura da poesia”, do poeta eterno, porque cansado de ser moderno.)

segunda pauta para a escritura: (4) o tamanho da pétala dispensa a extensão da rosa. (5) Uma rosa é um sopro de pétalas casadas pela vontade de colagem da cola. (Há uma rosa lusófona de oito mil oitocentos e dezesseis pétalas.) (6) uma pétala precisa para si um gesto de pedra, e, de volta, a pedra pétala — que implica em levitar para tocar os poros do vento, e assim, se não germinar mais pétalas, fecundar o perfume da rosa ou das rosas vinda(s) do casamento das pétalas. (Isso quer dizer dominar a jardinagem das pétalas em nome das rosas. Exemplo: “Invenção do mar”, do oráculo de Ipueiras.)

terceira pauta para a escritura: (7) uma pétala, se pétala mesmo, é uma arma. (8) Somente há salvação se seta uma pétala contra as barricadas da política partidária, dir-se-ia organizada. (9) Pétalas são para desorganização — há três formatos de desorganização forjados pelas pétalas: negação, indiferença e subversão. (Isso quer dizer descobrir a razão de existência das pétalas para provocar alguma funcionalidade em virtude das rosas. Casos superiores por ordem de formato: “Meditação sobre o Tietê”, “O país dos Mourões” e “Poema sujo”, de Mário, o Andrade; Gerardo, o oráculo de Ipueiras; e Ferreira, o Gullar.)

quarta pauta para a escritura: (10) silêncio não compete para mudez, por isso as pétalas assobiam enquanto quedam. (11) Silêncio é o vazio e outro entre um verso e outro quando uma pétala fala — e o silêncio é fotografável, inclusive está em fotografia (vide Maneco, o Manoel de Barros). (12) A principal gramática do silêncio é a escritura-em-si — e a escritura-em-si é aquele montinho de letras casadas e com espaço entre e dentro, como casadas as pétalas em posição de falos enterrados nos lábios da corola, que é senão a vagina de ilha das rosas. (Voltar a Maneco, “Gramática expositiva do chão”. Quando digo voltar, voltem vocês que acaso me lêem; eu não sei voltar porque desaprendi meu formato de caranguejo nalgum livro que não sei.)

quinta pauta para a escritura: (13) sem idade, uma pétala adormece no hálito de fóssil da mudez, que é não-ser-de-não-sendo-quando-foi. (Wesley Peres tem idade, é ir a “Palimpsesto” para reconhecer, sobretudo à página cinqüenta e nove — depois daquele poema, se ele morresse, teria legado uma pétala-de-toque da mais nova petalaria velha lusófona. E tenho dito. E quando tenho dito, é verdade.) (14) Idade é para reconhecer, por isso as pétalas quando secam, secam entre páginas e viram ninho de onde brotam pássaros a desamão. (15) Ninguém tira de minha cabeça que qualquer cabeça jardineira de pétalas tem a idade que tem somada a idade que tem cada um ancestral fêmea e macho plantados na árvore de pétalas da história, onde os pássaros cantam distribuindo pedras. (Sobre tanto, leiam com certa urgência — inclusive podem parar de me ler para isso — a pétala “Pequena ode a uma pétala seca ou a esperada ressurreição da rosa”, de Gerardo Mello Mourão, em “Algumas partituras”, este oráculo de Ipueiras.) (Intervalo único:

Pequena ode a uma pétala seca ou a esperada ressurreição da rosa


Entre folhas de versos de Propércio

jaz a pétala seca a flor enxuta;

a rosa úmida e inteira jaz na gruta

do amor e da memória do poeta.


O que era rosa agora é quase espinho

e na pétala seca o que se oculta

é uma rosa de sonhos insepulta

um pássaro do qual só resta o ninho.


Talvez um dia, amor, orvalho e aurora

à mão da musa que a colheu em flor

ressuscitem aroma e forma e cor

e rosa torne a ser o que foi rosa outrora.


Talvez um dia a flauta antiga toque Orfeu

e à pétala fiel as que se foram, voltem

e da corola nunca mais se soltem

e o rouxinol torne a cantar no ninho seu.)


sexta pauta para a escritura: (16) escritura requer formato de sino: imagem cantando do escuro afora. (17) Matérias para o sino: imagem-imagem-mesmo, som de língua de gente, papel queimado a vela de cera velha, papel-somente-papel, bits, tinta variada (de caneta, impressora, de pintura etc.) — p.s.: não há fórmula para o uso, nem é bom misturar tudo, senão explode; como disse Maiakovski: “Não existe fórmulas para fazer poesia; chama-se poeta justamente quem inventa tais fórmulas”. (18) Assim o sino agora pétala. (Aproveitem a deixa: vão ao “Mistério bufo”, de Vladímir Maikóvski.)

sétima pauta para a escritura: (19) um formato de sino é a contração em síntese de imagem formal e semântica e mental. (20) Assevero que uma pétala é uma imagem tridimensional, por isso cola nela e a tríade de formatos e arma e a gramática do silêncio e sua idade — se tomarem tudo como para uma didática, releiam da primeira a esta última pauta, porque certamente não entenderam nada; ou, caso contrário, não releiam, e terão entendido (relativamente) tudo. (21) A multidimensão é uma variação dentro da tridimensão de acordo com a acuidade visual e auditiva; decorre do fagulhamento de granadas no tecido de flor das peles de época a época — em outras palavras, não é para qualquer um, mas pode ser aprendida. (Para aprender em lusofonia-indo-à-brasileira: D. Dinis, Gil Vicente, Camões, Mariana Alcoforado, Cesário Verde, Gonçalves Dias, Augusto dos Anjos, Gilka Machado, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, Mário de Andrade, Mário de Sá Carneiro, Cecília Meireles, Murilo Mentes, Jorge de Lima, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Canção, Pinto do Monteiro, Ferreira Gullar, Dora Ferreira da Silva, Hilda Hilst, Gerardo Mello Mourão, Manoel de Barros, Afonso Félix de Sousa — e deixo vocês acrescentarem mais alguém que possa se medir ombro a ombro; medida de pétala: imagem tridimensional e cola e a tríade de formatos e arma e a gramática do silêncio e sua idade.)

p.s.: não sei porque jardineiros não podem exercício de aprendizagem. Músicos estudam música, artistas plásticos estudam arte plástica, atores estudam dramaturgia, escultores estudam escultura, arquitetos estudam arquitetura, cineastas estudam cinematografia e por aí vai. Danem-se os corretos. Cancão e Pinto do Monteiro estudaram jardinagem de boca-em-ouvido; Pessoa e Drummond estudaram de olhos-em-letra; Camões e Gerardo estudaram de boca-em-ouvido-e-olhos-em-letra, simultaneamente. E quando digo simultaneamente é simultaneamente mesmo — quer dizer: um sentado ao lado do outro, vendo o Tejo desaguar na boca de Maragogi, onde o mar é mais azul do que o Cáspio e o Egeu se ou se não se misturados. Misturar nunca é bom. Bom mesmo é colar.

obs.: um exercício:


“Paisagem do travesseiro” — episódio de outra tróia

Para patrícia martins e paulo guicheney


Se existe esta paisagem:

O poente sobre a cama

Dissolvendo a vidraça

Com seu banho de laranja,

Fatalmente os olhos lembram

Do sono quando chega

Anestesiados no refúgio da penumbra —

Nas conchas das pálpebras,

Talvez um cão resmungando

Quando o que mais importa é enxergar

Esta paisagem: o crepúsculo à vidraça

E o fogaréu lambendo a cama.


Porque existe a língua, esta espátula

Borra os pêlos e eles falam

De dentro da água da saliva

Brotando de flores de bactérias

Um suspiro sagrado:

Queremos mais dança sobre nossas ancas;

Assistir a isso tudo

E acreditar nesta paisagem

É gesto para invertebrado

E até onde se sabe de invertebrados

Invertebrados não gesticulam

Ou é preciso dos invertebrados desvendar os gestos,

Que seja descobri-los:

Tirar-lhes as cobertas ou cobertores

Para perscrutar o frio

Se se arrepiam ou se é pesadelo

Esta paisagem com uma cama dentro.


Se for cama e vidraça e sol apenas,

Por que o travesseiro não reclama?

Se o travesseiro reclamasse

Ou se lhe fosse possível reclamação,

Certamente não perceberia que adormecia

E sua existência entraria em crise

Medida a chávena preenchida de chuva;

De tanto se esborrar do esboço

Das dúvidas que plantou em sono outrora,

Então das bátegas brotaria um rio

E dele a agonia do sonho feneceria

Esta tentativa de tatear o que não se alcança.


Travesseiros existem para sono e sonho

E não esperam sobre a cama,

Que seja espera, guarida ou vela,

Que seja dizer que não têm esperança,

Não esperam, se dizia,

Que feneça a agonia, o tato quando tenta

Alcançar o desafio da laranja

Dado aos olhos cosidos fio a fio

Pelo tecido das grisalhas olvidadas

De tecer destino que não se apalpa.


Travesseiros valem a pena como pomo,

E somente os mais caros estofam o estojo com penas,

Porque assim têm substância de sumo

E fluem espesso ou caudaloso rio

Como uma espada urinando

Ou um cavalo ou um bêbado ou um cão;

Caso contrário, minguam,

Que seja dizer que mijam

Filando o único fio de veia

Ou veio de imaginação,

Esta fábrica de paisagem inconsútil

Onde carneirinhos gerenciam a contabilidade

A serviço de ombrear travesseiros a invertebrados

Em nome desta paisagem plantada em chamas

Que plumam pelo prisma do vidro.


O travesseiro observado em particular

Conduz para um lugar onde há um vale dentro

E um lago para mais dentro

Caraminholas e aranhas e uma porta

Que dá para uma livroteca

Onde dos países a geografia

Está fiada sem fuso horário

Nos diários ou jornais, nas crônicas

Dos dias diante de um relógio parado

Pela hora morta como morta a rua

Onde os vizinhos medem os ônibus

E medem seus automóveis em particular

Pela xícara de café e pelo giro da chave

Enquanto o travesseiro não arreda os pés

De onde os musgos das unhas alcançam

A ossatura mais paleolítica de sua biografia.


Seria dizer que o vale traz notícias de Tróia

A anciã e nas estantes da livroteca os livros sangrariam

Um grito antigo de escudo e espada e lança;

Seria dizer que a Helada é capítulo da História

A serviço de Ihwh revelado a Moisés contra Síon

Uma decisão de desvario

Um se amofinar no mofo das páginas

Para julgar os fungos apenas como fungos

E como fungá-los não fosse uma faceta da fantasia

Que assevera que os fantasmas são personagens

Enterrados capítulo a capítulo dos livros

E o sangue uma ilusão de ótica,

Artifício de um desejo contido

Pelo desespero de urdir os lábios sozinho.


Estar sozinho amotina as dúvidas;

Sabia disso Leonardo

E nem suas asas deltas nem seu helicóptero plumaram:

Caíram até o fundo do copo d’água

Sem fazer a água invadir o vale e beijar o lago;

E nem venturiano se trocou pelas caraminholas,

Permitiu-se apenas a calcular os passos

Até que um dia se vestiu de preto

E passou perfume e passou batom

Então se retratou desprendido dos traços do estúdio:

Havia um vale dentro e era verde

E os homens cortavam os horizontes

Com as pernas movendo máquinas

Automotoras que não se moviam sozinhas ainda.


Mover-se é para lançar um mote

E lançá-lo a vara, varando o longe

Para além da lonjura da distância

Onde residem as reticências;

Não seria levar notícias do sono

Viajar sem empacotar um sonho,

Por faltar o formato de pomo

Não haveria sumo dentro

E se não jorrar suco de um mundo que seja

As cascas não são casulos

Nem são casas,

E são apenas frutas por onde passam as facas

Cortando fora as asas das borboletas.

Esta é a paisagem de outra tróia

Com a anciã dentro e dela.


pauta coringa para a escritura: pétala rosa pedras pássaros afora.




Jamesson Buarque

jamesson buarque é poeta, professor, crítico literário e doutor em estudos literários na ufg. publicou os delírios e novíssimo testamento. sente-se muito mais antigo do que sua idade tri-trina cristã. além de poesia e magistério, gosta de vinho, cachaça mineira, desenho animado, cinema, política, bíblia e fenomenologia, tudo colado. importante: é sobre essa mistura sua coluna.
E-mail: jamessonbuarque@yahoo.com.br