Vaca de Nariz Sutil



Coisicidade

Ária vazia de olhos, igual a

um koan de madeira, estou
ao lado, um ninguém de ecos

sopra a palha e o vento
desliza em minha boca aberta
secando a língua e suas

janelas fechadas.

Um dia colecionarei aldravas
e moinhos de areia
e ruídos de cidade.

Wesley Peres




Autobiografia de quando não vivi no Sertão

Imagem: Wesley Peres





Goiânia

(FISIOLOGIA GOIANIENSE)

Goiânia não é orgânica.
Sua topologia fina, de poucas camadas,
não pulsa. Sua fisiologia,
restringível ao trânsito difícil,
de intestino grosso,
compõe-se de ruas e praças em negativo:
enxerga-se o contrário dos lugares,
escuros de onde emergem
traços de coisas feito ossos
em chapas de raio-x.
Goiânia não se permite corpo,
aquário seco de cujas torres
saltam aventureiros.


(A EDUCAÇÃO PELO AZUL)

A morte azul é pré-didática: cancerigienizadora,
não soletra vísceras carne ou corpo.
A morte azul nos iletra a carnadura,
torna-a maleável.
A morte azul nivela por baixo
qualquer fisiologia.

Em Goiânia, orgânico só o tal acidente.

André de Leones




Wesley Peres

Wesley tem 31 anos, mas sempre acham que ele tem cara de 30. Vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006, com o romance Casa entre Vértebras, a sair em junho pela Editora Record. É autor de Água Anônima (Prêmio Cora Coralina, 2001) e Rio Revoando (Com-Arte/USP, 2003). Em 2007 lançará Palimpsestos, pela UFG. Acha deplorável pessoas que gostam de Fanta Uva, gosta muito de estourar aquelas bolinhas de plástico e da literatura produzida na Papua-Nova Guiné. Ah, é psicanalista e mestrando em literatura pela UFG. Mora na Cataluña. E-mail: wesleyperes@uol.com.br