Êxtimo


PELOS ORIFÍCIOS D’O CHEIRO DO RALO


Gostaria de comentar alguns aspectos do filme O cheiro do ralo, originado do livro homônimo de Lourenço Mutarelli, e dirigido por Heitor Dhalia e protagonizado por Selton Mello e Paula Braun, e que está prestes de sair de cartaz na nossa cidade.

Trata-se da história de Lourenço (Selton Mello), que trabalha num galpão onde aqueles que estão desesperados por dinheiro vão vender seus pertences. Instrumentos musicais, relógios, caixinhas de música, além de todo tipo de quinquilharia, como um olho de vidro ao qual o personagem de Selton Mello permanecerá fixado. A frieza de Lourenço nas negociações é calculada para constranger seus clientes para além, ou para aquém, de toda e qualquer dignidade. A única situação que o deixa constrangido é o cheiro que vem do ralo do banheiro, situado a alguns metros da mesa onde trabalha. Os visitantes não fazem menção ao cheiro. É o próprio Lourenço que se auto-denuncia. Um deles, o violinista que vem vender seu stradivarius, indignado, interpreta Lourenço, dizendo que o fedor exalado vem dele próprio, e que não há diferença entre o ralo fétido e o comprador mesquinho.

Não é só ao olho de vidro que ele se encontra fixado. Ou melhor, o suplemento desse olhar é o objeto visto, o objeto que se destaca dos demais, valorizado como o mais caro e que não é propriamente transcendente para Lourenço, pois é suposto como podendo ser comprado: a bunda.

Uma das cenas iniciais é o longo close na bunda da bela, mas inculta garçonete (Paula Braun) – uma espécie de loira burra pobre, cujo nome soa a Lourenço como inaudível, impronunciável. O desafio de Lourenço nessa relação, que não poderíamos chamar propriamente de amorosa, é o de ter essa mulher sem que ela se envolva afetivamente com ele, pois ele não se interessa por outra coisa a não ser sua bunda.

Achei que ficou um pouco forçado e exagerado o personagem de Lourenço não perceber que a garçonete foi substituída e pedir à substituta (Alice Braga) que se vire para que ele possa ver sua bunda, única coisa que ele consegue reconhecer realmente na mulher desejada. Ora, ele poderia perfeitamente ver que não se trata da mesma mulher e ainda continuar dando toda a primazia à bunda. Nós, expectadores, não precisamos vê-lo incapaz de diferenciar essas duas mulheres para concluir que ele só tem olhos para a bunda.

Aliás, o olhar da câmera pode ser definido como o olhar do próprio Lourenço, olhar fixado não apenas no objeto eleito, mas olhar que olha a priori desde um ponto fixo, rígido, congelado, limitado. Nas cenas em que vemos Lourenço andando pelas ruas, a câmera está num ponto fixo, olha de uma distância estática. Essa posição da câmera prevalece em todo filme.

O cenário anacrônico da década de setenta também sugere que Lourenço ficou para trás. Toda essa fixidez e limitação traduzem a posição subjetiva/sexual do próprio Lourenço. Essa posição é marcada, no fundo (fundo que é também superfície), por uma maldição, à qual todo perverso está submetido: a maldição do gozo, a maldição de estar preso, capturado e dominado por seu objeto de gozo sem nenhuma mediação. Todas as relações de Lourenço são reduzidas ao nível do mar, ao nível mais baixo, ao nível exclusivo da relação com o objeto de gozo, objeto contabilizado pelo seu preço. Não que as pessoas não participem disso de alguma forma. Elas participam quando são convocadas por Lourenço a serem olhadas pelo olho de vidro. Esse é o momento do prazer propriamente perverso, o de angustiar o Outro, seja fazendo dele objeto visto ou objeto que vê (exibicionismo, vouyerismo), ou ainda objeto que espanca ou é espancado (sadismo, masoquismo). Produzir o gozo do Outro sob a forma de seu angustiamento é o verdadeiro objetivo do perverso.

A relação de Lourenço com a mulher não é simplesmente uma relação metonímica em que ele, Lourenço, toma a parte de uma mulher (sua bunda) pelo todo (um corpo, um relacionamento)”, como disse o crítico da Contracampo. O que caracteriza a relação metonímica é o fato de haver facilmente acesso entre o termo que vem substituir e o termo substituído. O termo substituído está perfeitamente ‘à mão’. Se eu digo, passei a tarde lendo Camões, o termo substituído, a(s) obra(s), o(s) livro(s) de Camões, são significantes contíguos na cadeia, estão subentendidos. Por isso mesmo é que é indelicado fazer chistes do seguinte tipo: o rapaz na paquera diz: você me dá seu telefone? Ao que ela responde: não posso, só tenho um. Ao que ele poderia lhe responder: não se faça de desentendida.

O fato é que não existe na subjetividade de Lourenço a dimensão do objeto como um todo, a dimensão da mulher enquanto tal, esse todo que seria substituído pela parte. A presença da mulher requer a dimensão do amor, que está completamente excluída da subjetividade de Lourenço. Essa exclusão da mulher em benefício de uma relação direta com a parte do corpo é o que, dizendo de passagem, caracteriza a relação da pulsão com seu objeto. A pulsão, diz Freud, é sempre parcial, o que quer dizer que ela se satisfaz com partes do corpo. Lourenço não tem condições de ter uma mulher, de ter uma relação amorosa e até mesmo de se casar, como ele mesmo evidencia ao romper seu noivado com a desbundada noiva.

Neste sentido, a garçonete, como “toda” mulher, sabe, aliás, que sua bunda tem um papel proeminente na relação com seu homem, pois ela estava disposta a dá-la: eu te daria ela de graça. O que ela não tolera, quando Lourenço propõe pagar pela sua bunda, é a exclusão de toda dimensão propriamente amorosa, na qual o que se troca não pode ser mensurável, contabilizado. E é justamente sua exigência de amor que lhe permite, neste momento, preservar sua dignidade e não sucumbir a tornar-se mais um na série dos objetos comprados por Lourenço. Contudo, no final, ela se vende, proporcionando a Lourenço sua visão mais bela, cena em que vemos um close privilegiado de sua bunda, abraçada em seguida por Lourenço.

Em geral, gosto muito dos comentários que procedem dos próprios atores sobre os filmes que eles fazem, mas discordo de Selton Mello quando ele diz, segundo Luiz Carlos Merten, que O cheiro do ralo é a história de um canalha que se redime por amor a um derrière. Na verdade, todo seu esforço em reencontrar a garçonete e de ser um pouco mais delicado com ela não passa de algo a que ele tinha de se submeter para poder ter a bunda. Ele não se redime. A cena em que, no momento mesmo de sua morte, ele se arrasta até o ralo para seu último suspiro, deixa evidente que seu único interesse continua sendo a bunda, ou, mais precisamente, esse orifício em seu centro, do qual brota os odores mais fétidos e com o qual ele mesmo se confunde e se identifica. Trata-se do orifício da pulsão anal, é com ele que Lourenço está realmente às voltas, tentando dar-lhe uma solução sem, no entanto, estar disposto a pagar por ela (como notou Luis Gallego, ele não se dispõe a pagar 300 reais pelo conserto do ralo, mas gasta 400 na compra do olho de vidro e muito mais com a prostituta). Esse buraco não pode ser tapado definitivamente, por mais esforços que ele faça, pois trata-se aí de um gozo do qual ele não é capaz de abrir mão. É por isso que ele não se redime.

Esse personagem expõe a céu aberto aquilo que Lacan chamou de a causa de desejo. Um homem só deseja uma mulher quando ele encontra ou distingue nela uma parte de seu corpo que tem o efeito de captura da sua libido, que é seu interesse sexual. Lacan deu a estes objetos da pulsão o nome de objeto pequeno a. O que distingue o perverso Lourenço de um sujeito neurótico é o fato de que este é capaz de envelopar esse gozo, de recobri-lo com os véus do amor. Neste caso, a mulher amada pelo neurótico poderá ser idealizada, idolatrada, amada, até o ponto de, no limite, tornar-se um objeto que não pode mesmo ser tocado.

Embora O cheiro do ralo seja um filme interessante e que vale a pena ser visto, ele peca em algum lugar que não sabemos muito bem localizar. Penso que esse ponto se encontra não no fato de ele poder ser reduzido a um caso clínico psicanalítico como se disse, mas em nos apresentar um mundo fechado sem possibilidade de mudança, mundo em que prevalece a rotina e não há lugar para nenhum acontecimento não previsto por esse funcionamento limitado. O assassinato de Lourenço no final do filme é uma decorrência lógica do seu modo de ser e, neste sentido, é um acontecimento previsível. Um dia ele acabaria se dando mal. O que faltou foi um acontecimento imprevisto que subvertesse ou mesmo questionasse de algum modo toda essa montagem, que fizesse com que ela (essa montagem de sua vida, seu modo de gozo) perdesse seu sentido habitual, e com isso, o próprio Lourenço experimentasse a perda de si mesmo. Aí o autor permaneceu fechado, tal qual seu personagem, não ousou... O autor deu uma de Lourenço... Ops! Como é mesmo o nome do autor do livro em que o filme foi baseado? Lourenço Martelli.




Cristiano Alves Pimenta

Nascido em Goiânia, vivido na velha, ou não tão velha, Vila União, logo começou a ler coisas por conta própria e se deparou com uma epígrafe de autoria de Antonio Gramisci: “Todos somos filósofos”. Pronto! Primeiro raciocínio propriamente filosófico: “Se todos os homens são filósofos” (premissa maior), e “Cristiano é homem” (premissa menor), logo: “Cristiano é filósofo”. Tornou-se, então, um jovem filósofo, amante da verdade, leitor de K. Marx, Sartre, Hegel, entre outros. Foi salvo da megalomania apenas pela humildade, que o obrigava por à prova os produtos dessa ratio pessoal. Tortuosos caminhos o levaram, contudo, da faculdade de filosofia (USP) para a psicanálise Freudo-Lacano-Milleriana. Outro pronto! O amor à verdade caiu. Hoje, mais lhe vale uma “ilusão útil” (Baudelaire) do que mil verdades inúteis.
E-mail: cris.alvespimenta@yahoo.com.br