Mieloma de Ocasião
BERGMAN E O SILÊNCIO DE DEUS
Premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, A Fonte da Donzela (Jungfrükallan, 1960 – disponível em DVD) é uma dessas maravilhas cruéis de Ingmar Bergman. Seu título em inglês (não sei se tradução direta do original) é muito mais condizente com o seu espírito: The Virgin Spring. É um filme, do meu ponto de vista, sobre Deus, ou, antes, sobre a Sua ausência ou, ainda, dado o desfecho do filme, sobre a Sua presença excessiva, esmagadora. Temos uma família de fiéis católicos, o pai, a mãe, a filha virgem e uma protegida, uma figura ressentida que clama ao deus Odin que mande uma desgraça sobre aquela casa. A protegida está grávida e odeia Deus e o mundo.
Virgem e protegida saem em viagem para levar velas como oferenda a uma igreja distante. No caminho, a virgem é abordada por dois pastores e um menino, oferece-lhes pão, mas acaba estuprada e morta por eles. Perpetrado o crime, os pastores acabam se hospedando, inadvertidamente, na casa dos pais da vítima. Quando o pai descobre, manda o perdão cristão às favas e comete a vingança. Ao final é que se dá o milagre.
É, de fato, um milagre, mas um milagre que presenciei (nos filmes de Bergman, sempre presenciamos o que acontece) com ironia, quase com sarcasmo. Quando vai buscar o corpo da filha, seus pais vêem jorrar uma fonte onde antes não havia nada. O pai, buscando uma redenção pelo crime cometido, promete dedicar sua vida à construção de uma igreja ali mesmo, onde a moça foi morta. Há uma trava amarga aqui, é claro. Pecado, crime, redenção, mas o vazio cavado pelos fatos, acredito, não será preenchido. Por quê? Porque não há Deus ao mesmo tempo em que há Deus em demasia.
O filme é adaptação de uma balada medieval, A Filha de Töre, mas o que o torna dolorosamente grandioso é a atmosfera "creio/não creio" atingida por Bergman. Essa forma de abordagem, também presente em seu filme mais célebre, O Sétimo Selo, aqui aparece claramente, e é resultado de um debate espiritual muito denso e profundo. Logo, Bergman enxerga na parábola muito mais do que um simples conto com moral. A moral aqui é a moral do sofrimento, da dúvida, da mais negra humanidade, do animalesco tomando a alma mesmo do mais fiel e correto dos homens.
A fotografia de Sven Nykvist nos convida a passear pelos paradoxos gritantes dessa história. Há uma luz prateada, quase estourada, mas ocorrências as mais negras, as mais perversas. Parece sugerir que a luz é Deus olhando tudo, guardando tudo, mas nada fazendo, ou quase. Uma virgem é estuprada, surrada e enfim morta, seu pai se vinga barbaramente, e tudo o que Deus faz (ou parece fazer) é cavar uma fonte sob o corpo da morta, no meio do mato, que jorra e dá ao pai a idéia de como se purgar de sua vingança: construir uma igreja.
Mas talvez não haja tal coisa como “o silêncio de Deus”. Pode ser que Deus fale pelos cotovelos. O problema é que Ele nos criou surdos.