Número 6









Editorial


ruído branco está em sua sexta edição. Neste número, viemos mais poéticos do que antes. Nas “Contribuições”, temos Edmar Guimarães, sem sombra de dúvidas, um dos melhores poetas da poesia brasileira contemporânea, com seu inédito “Tela de passagem”. No texto, o poeta desenha, com seu gesto cirúrgico de criação metafórica (“Muros artríticos/ com juntas de rochas/ ruíram”), o cenário da enchente do Rio Vermelho no final de 2001, a qual carregou pontes, muros, paredes, móveis o marco histórico que é o monumento da cruz do Anhangüera, além de ter danificado a iluminação subterrânea da Casa de Cora. É importante observar que o poema de Edmar Guimarães não se limita ao feito de crônica, mas antes, captura a emoção guardada na memória e lhe eterniza para além da história. Na mesma coluna, Irondes N. Sousa, poeta e engenheiro goiano radicado em Braga, Portugal, apresenta-nos seu “Criações”. No texto, o poeta se deixa seqüestrar pelo encantamento dos gestos de reflexão poética, gerando uma belíssima similaridade entre a criação do poema, o próprio poema e a natureza dos répteis, dos insetos e do espaço cósmico: “na página branca nasce uma serpente de letras”, “a existência da bicha em folhas soltas”, “estrela em meteórica língua de luz”.

Dentre nossos colunistas, Paulo Guicheney, da coluna “C-dur”, aparece como exímio poeta, depois de ter-nos aparecido como excelente músico. Seu poema “Três cantos para espaços vazios”. O texto se engendra na voz do silêncio que hesita e fala. Nele, o espaço e o movimento se tornam, juntos, um não-lugar ocupando os rumos, sem rosa-dos-ventos nem astrolábios nem outros instrumentos de guia, nem medida. E o poema é mesmo uma declaração de amor onde a palavra não erra nem se entrega; por isso o nome da amada fica contido na úvula e apenas salta pela boca em gesto demonstrativo: “aquela”. E por falar de amor, em “Êxtimo”, Cristiano Pimenta trata deste tema tão caro à humanidade em seu inteligentíssimo ensaio freud-lacaniano: “Os véus do amor”. O cerne do texto é descrever o amor como uma força de ocultar as coisas, força que, pela coisa ocultada, verte o ser humano até as reticências da entrega do coração. Podemos dizer que, com base em Freud e Lacan, Cristiano Pimenta debulha a razão do amor sem desmistificar sua desrazão. O colunista nos ensina: é a falta que nos faz amar; Deus, porque não existe, ou seja, porque é ausente na existência, promove o amor.

Ainda na verve poética de ruído branco 6, Wesley Peres, em “Vaca de nariz sutil”, apresenta-nos seu inédito poema “Eutridades”, em três movimentos: “Memoricidade do corpo”, “Goiânia” e “Autobiografia só para Sofia”. Perscrutador da alma, o poeta, no primeiro movimento, converte outridade em “eutridade”, espraiando o um-no-outro em um eu-no-eu-que-é-outro, dando ao ego e à terceira pessoa o corpo de cidade, afinal convertido em paisagem de luz sólida, no segundo movimento. No movimento final, Peres se imbui de muito de sua intimidade e se permite, em nome de Sofia, reinventar-se na infância, esta “única coisa morta que lateja”.

Na “Cova do corvo”, Frederico Martins traz a continuação da série “Dos fatos indutivos”, com as três imagens-poema “espanto”, “momentos” e “passado”. Observem, leitoresnautas, que o padrão de colagem de “imagem-sonho” e de “cosmo”, em ruído branco 5, move-se da configuração fragmentada de pessoas para paisagens, na coluna desta edição, e o caos dolorido das palavras, quase ordenado em “cosmo”, ganha forma mais figurativa em “espanto”. Essa dimensão figurativa já havia sido anunciada em “fundamento”, também na última edição da “Cova do corvo”. No entanto, esse corpo se esmaece em “momentos”, na presente edição, e, magistralmente, desfigura-se em “passado” — que é a colagem que transforma toda a série em uma elipse de tirar o fôlego dentro da dor de se deslocar no tempo. Também desta verve poética, e fechando este enfoque de ruído branco 6, segundo este editorial à guisa de roteiro de leitura, jamesson buarque, o da “página p.”, nos apresenta seu barroco discurso “Do mistério pior da humanidade para um mistério melhor em colagem de crônica e poema e uma dissertação fenomenológica à guisa de ensaio para explicar a má fé ou a má índole dentro de sua contra-partida: a poesia até em cenário burocrático”. Francamente: esse título me deu preguiça demais para maiores comentários. O que sei é que é alguma coisa sobre poesia. Vão lá, leitoresnautas, confiram.

O segundo eixo de ruído branco 6, que pode muito bem ser o primeiro, se vocês começarem pela esquerda — ou pode não ser, como o outro eixo, nem primeiro nem segundo, se vocês distribuírem cartas bêbados pela tela —, é de resenhas críticas. Obviamente, este palavrão não tem muita coisa haver com a resenha crítica acadêmica. E, oximoricamente, como vocês já sabem, ruído branco é uma revista não-acadêmica de gente da academia.

Em “Patchwork”, Patrícia Martins — ou a própria alma de ruído branco —, no texto “Janum, Mamu, Pakoras”, fala do romance Midnight’s children, de Salman Rushdie. Conforme a colunista, exímia leitora da língua inglesa, o romance do polêmico autor de Versos satânicos “adiciona uma nova dimensão ao inglês ao se manter fiel aos sons e expressões da Índia — e isto nos faz lembrar de que Rushdie é anglo-indiano. O romance é ambientado neste país e tem verve histórica e política, além de sua experiência de pesquisa lingüística e de sua inscrição na estética de fragmentação narrativa. O romance narra a história de Salim Sinai, e este, embora tenha nascido em 1947, não impede a digressão narrativa, que, conforme Patrícia Martins, faz o texto começar em 1919. Midnight’s children foi traduzido no Brasil por Donaldson M. Garschagen (em publicação da Companhia das Letras) como Os filhos da meia-noite e venceu o Prêmio Booker, de 1981.

Ainda na verve da resenha crítica, em “Mieloma de Ocasião”, André de Leones nos apresenta “Bergman e o silêncio de Deus”. Sua leitura é sobre o filme A fonte da donzela, de 1960. A resenha do colunista, ainda que vincada no âmbito da intertextualidade com a balada medieval A filha de Töre e na análise da fotografia, perpetra mais intimamente o fenômeno divino do milagre e a própria existência de Deus diante de Sua ausência. Assim, a coluna recupera em sua memória, leitoresnautas, a leitura de parte de “Os véus do amor”, de Cristiano Pimenta — inscrevendo este colunista também no âmbito da resenha crítica.

Inteligentíssimo crítico da cultura pop, e voraz devorador de muitos dos melhores produtos desta arte de diluição do que é cult e erudito (para reflexão e entretenimento das massas), Wilton Cardoso nos apresenta “Guerra nas estrelas”, em “Neuropop”. O texto do colunista tem dois focos: economia mítica e épica do capitalismo. Pelo primeiro, Wilton Cardoso descreve a consubstanciação ou síntese de mitologias e religiões ocidentais e orientais que compõem a hexalogia de George Lucas. Pelo segundo, o colunista fala sobre o fascínio que Guerra nas estrelas provoca no público geral — eu incluso, desde os idos de 1982, pelo que me lembro —, uma vez que os filmes casam “o poder intemporal do mito com a paixão do homem moderno pelo futuro”. A partir disso, Wilton Cardoso observa que, como a Força move a subsistência dos heróis, o Estado — entidade abstrata por excelência, como o próprio capital num mundo de forças invisíveis, como a nanotecnologia (ou as midi chlorians, analogia às mitocôndrias, dos Jedis) — move a subsistência do capitalismo.

Quero fazer uma cuidadosa observação particular para todos vocês, leitoresnautas. E vai em caixa-alta. NÃO TEMAM EM CLICAR EM NOSSO LINK DE GMAIL ABAIXO! NÃO SOMOS UM AGENTE VIRÓTICO, NEM SOMOS DAQUELES GRUPOS SECRETOS QUE SE DISFARÇAM NO ESPAÇO VIRTUAL PARA ESPALHAR VÍRUS E DEPOIS VENDER A CURA EM FORMATO DE ANTI-ISSO E ANTI-AQUILO. RUÍDO BRANCO É PERFEITAMENTE RECOMENDÁVEL PARA TODAS AS IDADES. MAS, SE AINDA ASSIM, QUEREM SER CAUTELOSOS: 1) ABRAM SUA CAIXA-DE-EMAIL; 2) DIGITEM revistaruidobranco@gmail.com (EM CAIXA-BAIXA, PARA NÃO DAR PAU); 3) ESCREVAM-NOS. ASSIM NÃO HAVERÁ RISCOS, QUE JÁ NÃO HAVIA MESMO.


jamesson buarque