Janum, Mamu, Pakoras
O romance Midnight´s Children, de Salman Rushdie, apresenta um relato da história política indiana, começando pelo massacre “Jallianwala Bagh” de 1919, passando pela criação do Paquistão em 1947 e pela guerra com Bangladesh em 1965. O romance também oferece um comentário sobre os conflitos lingüísticos ocorridos no período coberto pela narrativa, sobre a campanha de esterilização em massa e o Estado de Emergência no governo de Indira Gandhi. Tudo isto é narrado através da ligação entre os eventos domésticos da vida de Saleem Sinai e os eventos políticos da história da Índia. Desse modo, os acontecimentos que são supostamente relevantes são trivializados e a noção de uma história objetiva e neutra é transgredida.
A propriedade Methwold, que aparece no inicio do romance, representa a Índia prestes a ser entregue de volta aos indianos, após sua divisão e exploração pelos ingleses. O caráter corrompido do colonizador é exposto através do modo em que William Methwold seduz Vanita, mãe biológica de Saleem e esposa do acordeonista Wee Willie Winkie. O brilho dos cabelos de Methwold faz Vanita sentir vontade de tocá-los, dando oportunidade para que ele a seduza. Mais adiante, o inglês revela que seus cabelos não passam de uma peruca. Apesar de sua origem bastarda, Saleem dedica grande parte de sua narrativa tentando apresentar sua genealogia, ou seja, a genealogia de Shiva, a criança que é trocada por Saleem na maternidade. Saleem e Shiva nascem ao toque da meia-noite no dia da independência da Índia. As crianças são trocadas na maternidade pela parteira Católica, Maria Pereira, para impressionar seu namorado comunista, Joseph D´Costa. Com este ato revolucionário particular, Maria Pereira pretende dar à criança pobre uma vida de privilégios e condenar a criança rica a uma vida miserável. Saleem transforma-se, na ocasião de seu nascimento, no símbolo da “verdadeira” nação indiana. Assim, tanto Saleem quanto o país são retratados como bastardos de origem e vítimas da trapaça do colonizador.
O tema da fragmentação, que perpassa todo o romance, fornece uma variedade de versões para os eventos. Saleem é ofuscado em sua própria narrativa pelo brilho de Shiva, mesmo assim, ele decide se apresentar arbitrariamente como o herói da história. No entanto, as fronteira entre Saleem e Shiva são indeterminadas: Saleem é Shiva e Shiva é Saleem. Os objetos do cotidiano se transformam em elementos metafóricos da fragmentação. O lençol perfurado, através do qual o doutor Aadam Aziz é obrigado a examinar sua futura esposa, possui um poder de fragmentação que se revela tanto na vida pessoal das personagens quanto no destino político da nação indiana. Através do lençol perfurado, Aadam Aziz aprende a amar por partes sua futura esposa, Nassem. A filha de Aadam Aziz, Amina, também aprende a amar seu marido dedicando-se, a cada dia, a aprender a amar uma das partes do seu corpo. O reflexo do lençol perfurado em Saleem é mais dramático. A fragmentação de Saleem está ligada a sua percepção da diversidade indiana. Saleem não consegue unificar sua história, devido à fragmentação da história da Índia, o que resulta em sua desintegração física. Ao final do romance, Saleem se transforma na “bomba em Bombaim”.
Rustom Bharucha diz que a língua que Rushdie usa para escrever Midnight´s Children é “semelhante ao inglês britânico depois de ser temperado, cozido, frito e mergulhado em curry”*. Rushdie adiciona uma nova dimensão ao inglês ao se manter fiel aos sons e expressões da Índia. Quando palavras vindas das diversas línguas e dialetos indianos são adicionadas ao inglês britânico, o sentido pode ser compreendido sem que haja nenhuma explicação, como, por exemplo, quando Amina Sinai, nos momentos de carinho, sussurra a palavra “janum” ao ouvido do marido, ou quando Maria Pereira manifesta sua expressão de espanto, “baap-re-baap!”. Algumas expressões saídas do inglês refletem os preconceitos da comunidade indiana. Amina Sinai desenvolve o hábito de chamar as garotas mestiças anglo-americanas de “coca-cola girls”. Outras expressões, aparentemente inglesas, são forjadas proporcionando momentos cômicos. Alice Pereira envia um telegrama para Amina avisando que Ahmed Sinai teve um ataque do coração, usando a palavra “heartboot”. Toda a família de Amina fica chocada com a notícia e decide ir imediatamente do Paquistão para a Índia, mesmo sem ter a mínima noção do que poderia ser essa “grave doença”: “But what, my God, can be this heartboot?” (p. 354).
Em Midnight´s Children, Rushdie abre espaço para o diálogo entre uma multidão de vozes. Saleem é um narrador que resiste em apresentar um ponto de vista unificado. Sua fala é interceptada pelas vozes de várias pessoas e, também, por uma voz interior que causa interrupções abruptas no curso de sua narrativa:
I was Born in the city of Bombay... once upon a time. No, that wont do, there´s no getting away from the date: I was born in Doctor Narlikar´s Nursing Home on August 15th, 1947. And the time? The time matters, too. Well then: at midnight. No, it´s important to be more… On the stroke of midnight (p. 3)
Em várias ocasiões, a voz de Padma, funcionária analfabeta da fábrica de picles, muda os rumos da narrativa, além de outras 115 vozes que desafiam a autoridade de Saleem. Ele, por sua vez, possui a capacidade de penetrar nas mentes das pessoas. Ao penetrar nessas mentes, Saleem não absorve somente os pensamentos, mas, também, os sentimentos das pessoas. É assim que, ao penetrar na mente de seu tio Hanif, durante uma luta no estádio “Vallabhbhai Patel”, enquanto ambos olham para o show de luzes nas costas dos lutadores Dara Singh e Tagra Baba, Saleem absorve o estado mental de Hanif. A viagem de Saleem através dos pensamentos de Hanif possui diversas camadas de consciência que mesclam línguas e dialetos diferentes:
But I mustn´t let the sadness leek out of my eyes He´s butting into my thoughts, hey phaelwan, hey little wrestler, what´s dragging your face down, it looks longer that a bad movie, you want channa? Pakoras? What? And me shaking my head, No, nothing, Hanif mamu, so that he relaxes, turns away, starts yelling Ohé come on Dara, that´s the ticket, give him hell, Dara yara! (p. 202)
Entre as várias línguas que são justapostas ao inglês, o gujarati recebe um destaque especial. Durante uma raivosa passeata em defesa da língua marathi, Saleem é empurrado de bicicleta, por Eve Burns, para o meio dos manifestantes. Irritados com o garoto de aparência rica, eles exigem que Saleem fale alguma coisa em gujarati, para humilhá-lo, pois o grupo considera o gujarati uma língua vulgar. Saleem só consegue se lembrar de uma rima usada por ele para provocar crianças gujarati: “Soo ché? Saru che! Danda lé ké maru che!” (como vai você? Você vai bem? Vou mandar você para o além!). Os manifestantes marathi se entretêm com a rima e deixam Saleem de lado. Mas, eles usam a rima para provocar seus oponentes, o que resulta num conflito que deixa quinze mortos e mais de trezentos feridos.
Na tentativa de entender somente uma vida, Saleem tem que “engolir o mundo”. Mas, diante da impossibilidade de compreensão desta única vida, Saleem acaba explodindo no final da narrativa. Saleem se desintegra sem conseguir unificar sua história. O final do romance lembra Mikhail Bakthin, em Problems of Dostoevsky´s Poetics, ao dizer que, quando o diálogo termina, tudo termina. Pois, devido à essência do diálogo, este não pode e não deve chegar ao final.
Escrito em 1980, Os Filhos da Meia-noite, de Salman Rushdie, vencedor do Booker Prize no ano seguinte, só chegou ao Brasil no final de 2006, pela Companhia das Letras, com excelente tradução de Donaldson M. Garschagen. A edição, com 608 páginas, possui glossário e custa 64 reais.
* Rustom Bharucha. “Rushdie´s Whale”. In: D.M. Fletcher (ed.) Reading Rushdie, Perspectives on the Fiction of Salman Rushdie. Amsterdam, Rodopi, 1994, p. 160.
Tecido de algodão bordado em seda. O motivo do bordado é a vaca sagrada, símbolo da mãe terra e associada à Krishna
Seda bordada com ponto cheio. O motivo central é a flor de lótus, símbolo do sol.
Em diversas regiões da Índia e do Paquistão, existem várias castas e tribos vivendo na mesma área. As pessoas, nestas regiões, costumam bordar suas roupas para identificar o grupo ao qual pertencem e, também, o status dentro do grupo. Além de servir para a identificação, os bordados representam uma forma de protesto contra as fronteiras impostas entre os dois países.
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