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DO MISTÉRIO PIOR DA HUMANIDADE PARA UM MISTÉRIO MELHOR EM COLAGEM DE CRÔNICA E POEMA E UMA DISSERTAÇÃO FENOMENOLÓGICA À GUISA DE ENSAIO PARA EXPLICAR A MÁ FÉ OU A MÁ ÍNDOLE DENTRO DE SUA CONTRA-PARTIDA: A POESIA ATÉ EM CENÁRIO BUROCRÁTICO
A vida tece teias e mais teias de problemas. De nó em nó, quase todas as vezes, não sabemos o que de fato ocorre a nossa volta. Até em situações tipicamente técnicas, como as que dizem respeito ao funcionamento do Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo ou, simplesmente, Cindacta, uma generosa mancheia de opacidade fala alto. Afinal de contas, o brigadeiro José Carlos Pereira, presidente da Infraero, e um técnico-chefe da mesma empresa não sabem explicar o que há de errado no atraso dos vôos de Brasil afora e, “oficialmente”, não entendem o motivo de cancelamento das decolagens. Creio que, se a humanidade singra por esta senda de mistério, no pior sentido desta palavra, e insistentemente: há alguma coisa atravancando o espírito humano ao longo dos milênios. Ora, se o presidente e um alto-funcionário não sabem a natureza de um problema técnico a respeito de sua empresa, ou, pior, não sabem resolver tecnicamente um problema, ou o problema não existe, ou eles são incompetentes ou o problema não é técnico, ou, para não perder o charme: ou. Não quero acreditar neste último caso, porque me levaria a aceitar passivamente o tal mistério, e, sobretudo, me levaria a não continuar este escrito. Quero acreditar no terceiro caso, sem excluir o segundo. Prova disso: a humanidade é capaz de sentir nojo e medo simultaneamente.
O ministro Gilmar Mendes, do STF, proibiu o deputado federal do PV Edigar Mão Branca de usar chapéu de couro no plenário da Câmara dos Deputados. Se um homem habituado a usar chapéu, seja este de couro ou não, e seja aquele deputado ou não, é proibido de seu hábito, então ele terá de deixar de continuar habituado a algo e passar a se habituar a outra coisa, p. ex.: a não usar chapéu, inclusive de couro. Ora, mas se deixar de ser habituado a algo leva um homem a se tornar habituado a outro algo, então a questão não é ter um hábito, é qual hábito se tem. De todo modo, penso que o ponto central disso diz respeito a apenas ter um hábito. Se um homem tem aquele hábito, por que ele precisa deixá-lo, se terá de adquirir um outro? Afinal de contas, se se habituar significa repetir um determinado comportamento, a contra-proposta de não usar mais chapéu é apenas mais um hábito. Creio que o ministro faz confusão, misturando hábito com espaço. Para ele, me parece, o hábito não é adequado ao espaço: Câmara de Deputados. Ora, se o ministro força Mão Branca a deixar o hábito quando vai a plenário, então ele diz que o deputado não pode ser habituado àquilo, ou diz algo mais complicado: que Mão Branca deve ter dois hábitos. Se os deputados representam os diversos nichos sociais, este problema novamente é um mistério. Por que somente usar terno, uma singularidade, em um espaço fundado em nome da pluralidade? A prova é a mesma. Há décadas atrás, durante o governo de José Sarney, o líder negro e poeta Abdias Nascimento, então eleito Senador da República, foi proibido de usar seu traje de orixá no plenário. Talvez o mistério seja mais complicado. Talvez o problema seja do plenário: se alguém usar qualquer coisa habitual que não seja habitual ali, o plenário, provavelmente, deve cair.
Como diria Chico Buarque: “Sem a cachaça ninguém agüenta este rojão”. Viver é sofrível, porque difícil. Diria Túlio, falando de dentro de Nilson Pereira: “Viver dói”, ou diria Riobaldo, falando de dentro de Nhô Rosa: “Viver é perigoso demais”. Então repito: a vida tece teias e mais teias de problemas. De nó em nó, quase todas as vezes, não sabemos o que de fato ocorre a nossa volta. Se liminares, processos, intervenções técnicas, mandatos de segurança e mais coisas razoáveis, que seria dizer categoremáticas, ou, mais facilmente, funcionais, senão práticas mesmo, não dão certo, creio que o problema deva ser descrito com mais misteriosidade. Há mistérios e mistérios, assim como paredes e paredes, basta perguntar à chuva. Já sabemos que aquele tipo de mistério acima descrito, apenas nos faz observar que desde milênios atrás, o espírito humano tropeçou em um galho de uma antiga árvore, da vida, digamos, e enganchou seu pé esquerdo. Ali está enganchado até hoje. Enganchar o pé esquerdo é pior do que enganchar o direito, porque aquele está diretamente ligado à aorta, e, logo, é mais íntimo do coração – muito embora o coração seja moderado: ele fica do lado centro-esquerdo do peito. E mesmo que Deus seja de barro e a Lua seja de queijo, está difícil desenganchar o pé dali. Julgo que, sem jamais deixar de lado a cachaça, a poesia dá um empurranhãozinho. Mas não há uma fórmula do tipo de auto-ajuda. O máximo que sugiro está nas “pautas da escritura ou biografia das pétalas” (“página p.”, ruído branco no. 5). Devo alertar que o ABC of reading (ou, no Brasil, o ABC da literatura), de Ezra Loomis Pound, é bem mais preciso. Como depois do sono, mesmo depois do pior sono, o corpo se conserta se movimentando e as dores passam por desnecessidade de continuarem doendo, vale a pena escrever e ler poesia. Seja aquela poesia que emana de imagens como imagens apenas imagens mesmo (como “espanto”, “momentos”, e “passado”) ou seja aquela cujo verbo fala da imagem escriturada (como “Três cantos para espaços vazios”, “Eutridades”, “Tela de passagem” e “Criações”). Eu, depois de uma garrafa de licor de jenipapo, arrisco um exercício para minha coletânea “poemas menores” (em todos os sentidos do termo menor):
Olha o lago refletido na carne da Lua:
Imagem trêmula de um líquido tenso.
A drágea de Neosaldina caiu
No fundo da meia taça:
Cereja no dry Maritini bianco
Ou murici no jenipapo.
O mergulho mais fundo da lágrima
É a queda na carta em uma pata:
Rubrica de pessoa abandonada.
Na última fase da bebedeira
Uma barata passa pela taça
E parceira de copo que ela é
Confunde Neosaldina com naftalina
Depois adormece em posição para torcicolo.
Posso dizer que isso foi escrito com sangue, porque ema (ema), em grego, é sangue. Esse termo, aglutinado a poiein (poiein), que é fazer artisticamente, gera o produto do mais dentro do humano: o poema. Podem dizer que, imitando o outro, aquele que cansado de ser moderno, se fez eterno, eu me cansei de ser sério e me tornei certo. Certo quer dizer ascético. Se me fiz assim, Sidarta me serve a carapuça, o de Hesse, e o próprio Siddhärtha Gautama (ou Buda) — para tanto, vejam meu Emmanuel Nazaré, no Novíssimo testamento. (Como o livro ainda está esgotado e continuará ainda por falta de reedição, acessem o poema em: http://www.revista.agulha.nom.br/jbuarque.html#emanuel, caso contrário, digitem emmanuel nazaré no Google. Pasmem! É a primeira ocorrência das aproximadamente 74.800. Pasmem porque o título do poema padece de uma infelicidade ímpar.) Finalmente, acredito que somente esta dose de mistério nos ensina a ouvir a chuva — sem desmerecer os mistérios policiais (os dos romances entre as estirpes de Poe e de Christie) nem os esotéricos (sobretudo os dos descendentes dos druidas, excluindo os padres e os pastores, e sobretudo porque a Europa é 78% céltica) nem outros, ou seja, desmerecendo apenas aquele mistério cuja única moção é apelejar gente contra gente ou povo contra povo pelo fator mais ínfimo e de fácil solução possível. E a prova é a mesma.