TELA DE PASSAGEM



Um veio, um olho,

entre moitas e muitas

pedras o Rio Vermelho

injeta suas artérias,

lustra fitas de clorofila

do mato esmaecido

e cresce, amontoado,

cochichando. O rio

velho nos casarios

nem descabelava pedras.

Nos vasilhames

de velharias e eras,

às famílias fantasmas,

em paredes-mesas postas,

servia licores de líquenes.

Um dia choveu na noite

quebradiça, secular.

O grande porte do espaço

se partiu. O ar acidentado

dos morros, as dobradiças

de pedra... nenhum obstáculo:

represas irregulares

em disparada – reses de lama –

invadiram a cidade.

Paredes como ramas

tombaram. Muros artríticos

com juntas de rocha

ruíram. A eles trouxas

de sombras, seixos

rio sem eixo rolaram.

Partidos, vasos de rosas

e poças. Jarros jorraram

pétalas de barro

pelos bueiros. A hemorragia

de ruídos do rio

trincou o piso das ruas.

Agora quintais paralisados.

A cidade pende de um lado,

do outro, tombada.

Restou uma gota de lama

no rosto de bronze

da estátua revelada.


Edmar Guimarães

(autor dos livros de poemas: Caderno – 2000 – e Desenhos de Sol – 2002 –)

edimar.gl@celg.com.br


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CRIAÇÕES




na página branca nasce uma serpente de letras

inunda o espaço vazio de uma frescura virgem

atônita segue o rumo das palavras em chama ardente

circunscreve o instante, define o traço pousado das horas

frio réptil lambe o azul da pena em riste

cria corpo, sentido, crepita idéias, gera conflitos em delírio lento

do nada faz-se o momento e o poeta admoesta e conduz

a existência da bicha em folhas soltas

coral de consoantes e vogais, vírgulas, pontos que tais

envenenam a cascavel que rasteja plana ou pendular

lenta ou veloz rumo à incerteza, à dor, à alegria

qual estrela em meteórica língua de luz

de existência fugaz, permite nascer e morrer, amar e odiar

aprender e ensinar, circunscrever o belo onde antes se fizera o feio

expandir o bem, verter o mal, manter conflitos, eternizar a paz

nada é tão universal como o som que produz

cada sílaba nascida morta na tua cauda de chocalhos

espanta o momento seguinte que paira no vértice da língua

e desfalece em prantos na horizontalidade da folha

onde o verde mescla com o veneno das tuas entranhas

germinando a linguagem que desconhece o instante seguinte

volatizas repentinamente tuas crias assim nascidas

confundes a mente do poeta cativo no teu centro de gravidade

que nunca se libertará da fama de as ter criado

para que outros olhos famintos de saber, as devorem

num estertor de solidão, ou prazeres vários

jamais abandonarás tua presa redonda na tua teia

para que a posteridade ajuíze o veneno dos teus botes

segue teu destino de em ti mesma enroscar-te, ou pôr-te em riste

na arrogância tenebrosa dos teus dotes

manténs o poeta refém da gula das palavras

sufoca-o num abraço pleno de fúria envolvida no pescoço

deixa-o moribundo, inerte de poder mesclar consoantes com vogais

vírgulas e pontos que tais

não tens princípio e nem fim, mas paralisas o momento da tua criação


Irondes N Sousa

Natural de Goiânia, engenheiro, reside em Braga, Portugal.

irondes-n-sousa@telecom.pt