Vaca de Nariz Sutil



Eutridades



MEMORICIDADE DO CORPO


Tudo o que ele chama de alma e não alma.

Ele, eu, penso. O meu corpo é um ele, estou de fora, parece. Estranho.

E tudo o que ele chama de alma e é a cidade, a acidez da cidade, uma certa cartografia sólida

de tão fluida,

pontiaguda.

Tudo o que nele dói, ou mesmo o prazer barato do cafezinho ou uma baforada sem trago, ou de relance povoar os olhos de uma bunda ou uma coxa.

Tudo o que nele falta

e que ele chama de alma e não alma

e sim digitais de cidade e a gente

que circulando pelas ruas

circula a gente de um jeito

a mobilizar a memoricidade

— fazer móbiles

das ruínas de um ou outro Deus

a Quem confiamos o destino que não temos, que não será o nosso,

porque o queremos de mais ou de menos.

Ela, eu penso, a cidade é uma ela,

estou de fora, parece. Estranho.



GOIÂNIA


sólido som do sol,

mar em ausência

presente sobre a pele

o centro roído

pelo enxame enxuto

de erres inervando

o sólido som do sol

pela curvilínea pele

de paisagens móveis



Autobiografia só para Sofia


Uma lua feita de arame e de esquecimento,

uma lua que se recusa,

apenas rastro de uma luz que não está.

As noites sem lua interessam mais.

Os dias sem sol?

— metafísica barata.

O homem na rua relembra

a criança

rói

a infância

é a única coisa morta que lateja.




Wesley Peres

Wesley tem 31 anos, mas sempre acham que ele tem cara de 30. Vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006, com o romance Casa entre Vértebras, a sair em junho pela Editora Record. É autor de Água Anônima (Prêmio Cora Coralina, 2001) e Rio Revoando (Com-Arte/USP, 2003). Em 2007 lançará Palimpsestos, pela UFG. Acha deplorável pessoas que gostam de Fanta Uva, gosta muito de estourar aquelas bolinhas de plástico e da literatura produzida na Papua-Nova Guiné. Ah, é psicanalista e mestrando em literatura pela UFG. Mora na Cataluña. E-mail: wesleyperes@uol.com.br