Vaca de Nariz Sutil
Eutridades
MEMORICIDADE DO CORPO
Tudo o que ele chama de alma e não alma.
Ele, eu, penso. O meu corpo é um ele, estou de fora, parece. Estranho.
E tudo o que ele chama de alma e é a cidade, a acidez da cidade, uma certa cartografia sólida
de tão fluida,
pontiaguda.
Tudo o que nele dói, ou mesmo o prazer barato do cafezinho ou uma baforada sem trago, ou de relance povoar os olhos de uma bunda ou uma coxa.
Tudo o que nele falta
e que ele chama de alma e não alma
e sim digitais de cidade e a gente
que circulando pelas ruas
circula a gente de um jeito
a mobilizar a memoricidade
— fazer móbiles
das ruínas de um ou outro Deus
a Quem confiamos o destino que não temos, que não será o nosso,
porque o queremos de mais ou de menos.
Ela, eu penso, a cidade é uma ela,
estou de fora, parece. Estranho.
GOIÂNIA
sólido som do sol,
mar em ausência
presente sobre a pele
o centro roído
pelo enxame enxuto
de erres inervando
o sólido som do sol
pela curvilínea pele
de paisagens móveis
Autobiografia só para Sofia
Uma lua feita de arame e de esquecimento,
uma lua que se recusa,
apenas rastro de uma luz que não está.
As noites sem lua interessam mais.
Os dias sem sol?
— metafísica barata.
O homem na rua relembra
a criança
rói
a infância
é a única coisa morta que lateja.