Êxtimo


OS VÉUS DO AMOR



Quem um dia irá dizer que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração.
E quem irá dizer que não existe razão.
Renato Russo



O tema do amor está diretamente ligado ao véu, àquilo que oculta algo. No saber corrente encontramos uma série de expressões que implicitamente ligam o amor ao véu. Por ex., Fulano está cego de amor, ou seja, o enamoramento lhe impõe um anteparo que não lhe permite ver aquilo que todos estão vendo. Outro exemplo, O amor é uma ilusão, como diz a canção com sinceridade: eu não quero e não peço para o meu coração nada além de uma linda ilusão. E o iludido é aquele que vê projetar-se sobre o véu uma espécie de filme de amor. Ela vê seu príncipe encantado montado em seu cavalo. Ele, sua linda princesa na janela de seu castelo. Mas essa ilusão, como vemos na psicanálise, impede o sujeito de ter acesso ao que se esconde por detrás da tela, por detrás da cena, por detrás do véu, e que não é tão agradável de ser visto. Por detrás há um real difícil de se olhar diretamente. Mas, desde já, poderíamos apontar uma outra função para o amor como o que vela. Não apenas um obstáculo que impede o sujeito de ter acesso ao real, mas também um modo de proteção e defesa, a qual se vale dos frágeis tecidos que compõem os véus do amor.

É correto dizer que uma psicanálise, ou seja, a experiência subjetiva que um sujeito realiza por meio da palavra dirigida a um analista, o conduz a atravessar o véu do amor e se defrontar com o real que ele esconde. Tomemos um exemplo recorrente. Um sujeito começa o tratamento dizendo que ama intensamente sua mãe e que esta é uma pessoa maravilhosa. No entanto, no decorrer da análise ele é levado por si mesmo a ver que esse amor lhe servia para que ele não se defrontasse com as decepções que esta mãe lhe causou. E este saber era aquilo de que ele nada queria saber. Mas, uma vez sabido, uma vez simbolizado esse campo obscuro de sua vida, essa mãe perde sua aura de sublime. Isso está bem próximo do que Freud diz a respeito do amor transferencial. O enamoramento da paciente pelo analista é uma forma de resistência, ou seja, uma forma de estender um véu entre ela e o conteúdo recalcado em seu inconsciente que insiste em ser revelado.

Se a análise é, pois, uma prática de atravessamento do véu para encontrar o real que subsiste por detrás, um dos nomes desse real é a castração. A experiência fundamental do que Freud chamou de o “complexo de castração” é aquela em que a criança como que levanta o véu da saia da mãe e se defronta com a falta do órgão masculino, falta que a leva a supor que a mãe sofreu castração por parte de algum agente. O vestido, diz Lacan, vela não simplesmente a presença de algo por detrás, mas a falta desse algo. E essa função de velar a falta é essencial no amor. Pois, o objeto de amor é, por excelência, a mulher, esse ser faltoso, castrado, mas que vela com os seus mais belos vestidos sua castração.

A condição para que haja amor é que haja a falta no Outro. E o que é amado no Outro é a sua falta. A falta do falo, ou o falo enquanto faltoso, é representado por Lacan pelo símbolo menos phi. Essa falta pode, por sua vez, ser substituída por qualquer outra. O que falta a um homem doente é sua saúde e não o seu órgão sexual, mas essa falta de saúde pode perfeitamente vir a representar o menos phi da castração. É por isso que os homens podem ser amados. Tomemos o exemplo do famoso caso clínico de Freud, o caso Dora: o fato de o pai de Dora ser impotente e doente permite que ela o ame. Mais ainda, diz Lacan, “O amor que ela tem por esse pai é estritamente correlativo e coextensivo à diminuição deste”.

Essa condição para o amor (que o objeto amado seja faltoso) trás a Lacan uma dificuldade: como explicar o amor a Deus, este ser onipotente a quem nada falta? Pois um ser a quem nada falta não poderia causar amor. Lacan vai então encontrar uma falta em Deus capaz de torná-lo objeto de amor. O que lhe falta, diz Lacan, é a existência. Ele não existe, pelo menos como existem os objetos que estão no mundo, como uma cadeira, um corpo, etc. Por isso que “não há outra razão para se amar a Deus senão que talvez ele não exista”.

Por outro lado, amar é ofertar, é dar a sua própria falta a esse Outro faltoso. Amar é dar, mas é dar algo que está para além daquilo que se tem. Amar é dar o que não se tem. Quando se é rico, dar um presente que custou caro pode não ser uma prova de amor. Uma mulher poderá se sentir mais amada recebendo de seu parceiro rico uma mera flor, ou um simples CD com as músicas que mais gosta, o que demonstra que ele foi observador e atencioso com ela. Nesse sentido, o objeto que se dá no amor é apenas um representante do nada, este sim essencial. A troca amorosa, portanto, será definida por Lacan como uma troca das respectivas faltas, uma troca de nada por nada.

Mas, além dessa troca, é preciso ver que na relação amorosa o ser amado torna-se um objeto desejado, ou seja, objeto visado pelo desejo.

O desejo, então, se põe a serviço e em benefício do amor, e se encarrega de construir uma cena na qual o objeto amado é concebido como uma coisa preciosa (agalma), como sendo único, insubstituível, e como sendo capaz de proporcionar ao sujeito desejante a completude perdida. Em outras palavras, o objeto visado pelo desejo é o objeto tal como ele aparece na fantasia amorosa[1].

O parceiro no amor torna-se a promessa de recuperação do objeto perdido, a recuperação da unidade original com o Outro materno. Mas, sendo um objeto real, torna-se também um suporte real dessa fantasia de fazer Um, fantasia em que os amantes se fundiriam em Um só ser. É nesse sentido que o sujeito, quando encontra sua “cara metade”, se sente muito mais capacitado para vencer os obstáculos da vida.

Aqui fica evidente todo problema que se abre quando ocorre uma perda do objeto amado, quando a relação amorosa é rompida. É aí que o sujeito experimenta o que se chama angústia. É aí também que o desejo perde seu suporte na realidade e se torna uma mera cena esvaziada, uma cena que não poderá mais ser realizada.

Mas há algo que permanece velado nesse funcionamento do desejo que faz de seu objeto o que há de mais precioso. É o que Lacan formula no Seminário 10, A angústia. Neste texto, Lacan nos apresenta aquilo que faz o desejo funcionar, que atua como causa do desejo, a saber, o objeto pequeno a. No esquema proposto por Miller vemos que o objeto pequeno a como causa de desejo se localiza antes do desejo:

objeto causa desejo/amor objeto desejado

Não vou aqui dizer muito sobre o objeto a. Quero apenas dar uma idéia simples para tornar sensível sua função como causa de desejo. O objeto pequeno a não é o objeto desejado, o objeto visado, mas sendo causa do desejo, ele permite que um objeto seja desejado. Isso fica claro se tomarmos o desejo do sujeito fetichista. O sujeito fetichista só pode desejar uma mulher se ela for vinculada a um objeto fetiche, por ex. um sapato. Ora, a diferença fica evidente. O seu objeto desejado é a mulher, mas o que causa o seu desejo é esse outro objeto que ela porta, o sapato. O objeto a é a condição para que um objeto possa ser desejado, mas uma condição sempre particular, como veremos no final.

Se nos voltarmos para a fantasia do neurótico, o que perceberemos é que o objeto que causa o seu desejo está muito mais escondido e disfarçado. Não é o sapato que está sempre em evidência para o fetichista, é um objeto mais sutil, e aparece como sendo uma parte do corpo da mulher. Por ex. pode ser uma certa forma dos lábios, uma certa forma da bunda, ou um certo modo de olhar, e até mesmo um certo brilho no nariz, como observou Freud. Aliás, a importância do brilho no nariz não é negligenciada hoje pela cirurgia plástica. Há uma técnica, como me relatou um cirurgião plástico, que visa preservar ou mesmo criar a capacidade do nariz de refletir a luz. Isso é possível com certos narizes.

Eis o que se encontra por detrás do véu do amor, o objeto causa de desejo.

Por fim, resta lançar a pergunta: existe um amor para além deste cujas coordenadas demarcamos aqui, o amor que vela o real? Existe, na experiência analítica, um amor pertencente à própria dimensão do real? Sim, existe. Mas falaremos sobre ele numa outra oportunidade.



[1] Não se trata aqui das fantasias sexuais cujo caso exemplar é apresentado por Freud em Bate-se numa criança.




Cristiano Alves Pimenta

Nascido em Goiânia, vivido na velha, ou não tão velha, Vila União, logo começou a ler coisas por conta própria e se deparou com uma epígrafe de autoria de Antonio Gramisci: “Todos somos filósofos”. Pronto! Primeiro raciocínio propriamente filosófico: “Se todos os homens são filósofos” (premissa maior), e “Cristiano é homem” (premissa menor), logo: “Cristiano é filósofo”. Tornou-se, então, um jovem filósofo, amante da verdade, leitor de K. Marx, Sartre, Hegel, entre outros. Foi salvo da megalomania apenas pela humildade, que o obrigava por à prova os produtos dessa ratio pessoal. Tortuosos caminhos o levaram, contudo, da faculdade de filosofia (USP) para a psicanálise Freudo-Lacano-Milleriana. Outro pronto! O amor à verdade caiu. Hoje, mais lhe vale uma “ilusão útil” (Baudelaire) do que mil verdades inúteis.
E-mail: cris.alvespimenta@yahoo.com.br