Mieloma de Ocasião
POR QUE ALMODÓVAR NÃO FALA MAIS COMIGO?
Há qualquer coisa nos últimos trabalhos de Pedro Almodóvar, por mais redondinhos que sejam, porque eles não chegam até mim, apesar de eu fazer de tudo para chegar até eles. Veja bem, não estou querendo bancar o fã xiita do sujeito e sair apregoando o quanto os primeiros filmes dele é que são ou eram o máximo. Não eram e nem são. Excetuando-se Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón (ao qual tive o prazer de assistir no saudoso Cineclube Banco do Brasil, da Rede Bandeirantes, apresentado pela Fernanda Torres, lembram?), as "coisas" que ele perpetrou na primeira metade dos anos 80, bem, são coisas. Tiveram lá sua importância cultural e política (a Espanha pós-franquismo...), mas, francamente (trocadilho involuntário), pérolas como Maus Hábitos e Labirinto de Paixões são muito ruins, em parte porque muito do que vemos ali Luis Buñuel já nos tinha mostrado, à sua maneira, muito antes. Resumindo, nunca fui um fã de Almodóvar na mais completa acepção do termo. Gosto de alguns filmes dele, e só.
"Meu" filme favorito do sujeito é justamente um tido como "menor", como um ensaio para a sua "fase" atual, o delicioso A Flor do Meu Segredo, seguido bem de perto por De Salto Alto. Este último, inclusive, tem sobre mim um enorme efeito afrodisíaco, não só por aquela célebre trepada envolvendo Victoria Abril e uma drag (é uma drag?), mas também pela própria pronúncia de seu título original: Tacones Lejanos. Uau...
Mas, agora há pouco, terminei de rever Fale com Ela, e é sobre ele que quero conversar. Experimentei a mesma sensação de quando vejo Carne Trêmula, Tudo Sobre Minha Mãe e Volver: certa frustração não sei bem pelo quê. Porque, analisando qualquer um desses filmes, é fácil perceber que eles não têm absolutamente nada fora do lugar. Roteiro, interpretações, fotografia, TUDO neles se encaixa à perfeição, exceto, talvez, que a emoção engendrada neles ou por eles me pareça artificial.
O problema é maior com Carne Trêmula, filme do qual não gosto em absoluto, que não me diz nada. Tudo Sobre Minha Mãe me cansa sempre que o revejo. As qualidades que todos enxergam nele a mim se apresentam, ou são por mim interpretadas, como, vá lá, "defeitos" (não quero me contradizer...). A intertextualidade com o clássico A Malvada, de Joseph Mankiewicz, não funciona. O escracho tornado mais sutil, a sofisticação crescente (em relação ao ruidoso início de carreira do diretor), bem, tudo isso me soa falso, postiço. Não que o cara tenha se tornado um artesão desonesto. Sua suposta evolução me parece honesta, até natural. Mas é como se eu não conseguisse mais me aproximar do que é narrado.
Fale Com Ela levou esse distanciamento a extremos. Sua trama é riquíssima e desenvolvida à perfeição. Seus personagens, todos maravilhosamente construídos, críveis. A inserção do curta O Amante Minguante não só dá sentido ao que o filme propõe como é deliciosamente delirante. Mas parece que entre o filme e eu existe uma barreira intransponível, que não me permite frequentá-lo, vivenciá-lo e efetivamente me emocionar com ele, como acontece, repito, quando vejo De Salto Alto ou A Flor do Meu Segredo.
É como se alguma coisa se perdesse entre nós, não havendo comunicação ou fazendo com que eu me sinta perdido na tradução. Daí que sou levado a achar Almodóvar superestimado, e acabo criando certa rejeição que pode prejudicar meu julgamento quando, por exemplo, for ver o que ele fizer em seguida. Vou perdendo o respeito, se me entendem.
Ademais, fico imaginando se Fale Com Ela fosse dirigido por Roman Polanski. O que o polonês, sem mudar uma vírgula do roteiro, não teria conseguido em termos de humor e humanidade com as histórias delineadas por Almodóvar nesse filme! Na cena, perto do final, em que o argentino lê a carta deixada pelo amigo, descobrindo que não pôde evitar seu suicídio, cena que não me emocionou em nada (e tinha tudo para tanto), Polanski talvez me pusesse de joelhos, pura e simplesmente.
Almodóvar, certamente, é sentimental (nunca sentimentalista), mas sentimentos, por si só, já não me dizem respeito. Polanski é objetiva e cruelmente humano, o que me diz muito. São muito diferentes, é óbvio. E o que eu quero que fique expresso neste texto não é nem tal comparação, inútil no fim das contas. Mas a triste constatação de que, não tão de repente, Almodóvar para mim se tornou inatingível, como dois amigos que de repente se descobrem sem absolutamente nada em comum. Fazer o quê? Apenas constatar que isso é muito, muito chato.