Neuropop



BRock



quando a tristeza é sempre o ponto de partida (rr)

não vai haver amor neste mundo nunca mais (mn)

pra que votar? (lb)

há muita grana atrás de uma canção (hg)



O Rock Brasil (BRock), do ponto de vista da energia liberada, é algo sem precedentes na história da cultura pop no Brasil. Apenas a Jovem Guarda se aproxima do poderio magnético do BRock, mas Roberto Carlos & Cia são criancinhas diante de sua eficácia (comercial e afetiva) pop.

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O BRock é uma estética do rancor. Os roqueiros são moralistas imorais. Eles não querem o Brasil dividido entre a maioria pobre e uma minoria, rica ou classe média. Mas também não querem o desenvolvimento, se este significar que quase toda a população se torne classe média, democrática, cidadã, trabalhadora. Eles odeiam a sua vida classe média.

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A sombria transição de Jango para a ditadura foi marcada, esteticamente, por uma efusiva atividade da cultura pop brasileira: Cinema Novo, Tropicalismo, Teatro Oficina, Bossa Nova, Festivais de MPB, CPC (e, mais tarde, em 70, a poesia e o cinema marginais). Em todas elas, a marca da utopia, o diálogo com a contracultura (hippies, oriente, minorias, drogas), a liberação das energias anarquistas do desejo, a possibilidade de um mundo livre de poderes centrais, por fora e contra os mercados: sonhos e delírios, fluxos de desejo contra fluxos de capital, contra o cerceamento dos fluxos pelo Estado, pelo mercado e até mesmo pela psique, pela alma. Em quase todas estas estéticas pairava a sombra dos ditadores e do impasse político (como em Terra em Transe), mas não havia paralisia, havia esperança, utopia. Os impasses eram colocados como muros a serem ultrapassados, pois havia alternativas fora dos termos em que eles eram postos. Por mais desencanto que houvesse em Glauber e em Chico, havia um encanto revolucionário que corria ao lado, pronto a ser liberado.

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A transição da ditadura para a democracia na década de 80 deveria ser um momento luminoso na vida brasileira. E, efetivamente, o movimento das “diretas já” parecia indicar a retomada da esperança perdida durante os mais de vinte anos de repressão militar. A guerra fria esmaecia com o lento colapso do império soviético (o engodo revolucionário soviético), o mundo parecia caminhar para a libertação do terror atômico e o Brasil do terror político. No entanto, não havia nenhuma utopia, nenhuma alternativa, ou melhor, para os países pobres sobravam duas alternativas: a disciplina social cidadã e mercadológica que levaria ao desenvolvimento nos moldes do Primeiro Mundo (o primado da classe média) ou a continuação do obscurantismo subdesenvolvido, da miséria material, invejando e desejando o conforto da vida classe média. Os roqueiros não gostavam de nenhuma das duas alternativas: era um impasse. E eles não vislumbravam nenhuma saída para ele. Estavam presos nos próprios termos do impasse, nenhuma fuga construtiva parecia possível, restava-lhes um niilismo resignado. Tornaram-se rancorosos, melancólicos, moralistas sem moral, auto-destrutivos, aidéticos drogados, sombrios. Ou então foram tomados por uma alegria frívola e burguesa, como Kid Abelha e Léo Jaime, como boa parte da música dos Paralamas e Titãs em sua fase inicial e mais recente.

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A face alegre do BRock não tinha muito a ver com a alegria tropicalista, solta e debochada, a alegria não burguesa de liberação dos sentidos, o riso contracultural do artista sem lenço e sem documento contra a sisudez da tradição, família e propriedade, o riso antipuritano e carnavalesco do malandro. A alegria dos roqueiros de 80 foi o prolongamento do riso classe média da Jovem Guarda, mas uma continuidade mais profissional, mais bem medida, inserida num aparelho de mercado infinitamente mais eficaz. Era o prenúncio da alegria do axé, da música sertaneja urbana, do pagode, aquele riso e aquela sensualidade que os agentes do mercado descobrem nas margens bárbaras da sociedade (sons afro de Salvador, música caipira, samba do morro), testa nacionalmente e, se “pegar”, transforma em produção industrial, em onda de música-mercado.

Mas quem são estes agentes de mercado que descobrem o som bruto das periferias, adestram-no para uma alegria estéril de propaganda de cerveja e o trazem para o centro, ecoando-o depois por toda a sociedade? A imagem que vem imediatamente à cabeça é a do produtor cínico da gravadora, o homem do mercado que corrompe aos artistas da periferia. Mas o próprio artista da periferia já está corrompido e em suas veias estéticas já corre o sangue do capital, o desejo de sucesso, a vontade de transmutar o som bruto de seu grupo, de sua região, de sua periferia, em hit, em sonoridade capaz de aglutinar e magnetizar as massas em torno dele. O artista já é um agente de mercado. Mas não só o artista. Não são os artistas mal intencionados em comunhão com o produtor cínico que constituem os agentes de mercado que, por sua vez, manipulam as massas ingênuas, impondo-lhes os clichês musicais. Do lado das massas há um desejo pelos clichês, um vontade de serem magnetizadas pelos ídolos, enrabadas pelos agentes, as massas querem o alegria estéril da canção comercial, querem cultuar o perfeição do hit, a capacidade do artista de produzi-los ano a ano: elas querem ser demarcadas pelos agentes, elas são os demarcados: as massas magnetizadas também são cínicas.

A tarefa dos agentes, então, não é a de enganar as massas, de impor a elas as canções-clichês, mas de verificar quais canções-clichês se ligam melhor ao desejo das massas, como elas querem ser enrabadas (pelo axé, pelo sertanejo, pelo rock oba oba, pelo pagode?).

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A face sombria do BRock percebeu isto também, esta face frívola e mercadológica do próprio rock, e se tornou mais sombria ainda, mais triste e niilista, mais auto-destrutiva. Pois esta alegria frívola era a ponte para a absorção da revolta na máquina de mercado, para a transformação da ingenuidade adolescente e dos devires negro e mulher do rock na seriedade profissional do macho adulto branco, tudo o que os roqueiros esconjuravam. Toda a eficácia técnica e comercial que eles odiavam e da qual fugiam desesperadamente com o seu som tosco e ingênuo era reposta pelo mercado da música, pela música como mercado, que absorvia o rock pelo seu lado alegre e frívolo. E mais, que tornava o modelo comercial do BRock um protótipo para futuras ondas sonoras que viriam: sertanejo, pagode, axé, funk carioca etc.

E a face sombria do rock se sentia cada vez mais impotente, cada vez mais sombria e rancorosa. Restava-lhe a morte, seja consubstanciada na morte física dos roqueiros que a levaram ao extremo patético (a morte de Renato Russo e de Cazuza), seja a morte da rebeldia em bandas como o Paralamas, Titãs e RPM/Paulo Ricardo, que aderiram de vez à alegria frívola, seja o caminho para a clandestinidade musical, longe da mídia, caminho de Lobão e de Humberto Gessinger (o abandono das massas por meio de uma morte midiática, que se torna a passagem para uma vida criativa clandestina).

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O agente, o capitalista que corre nas veias dos produtores, dos músicos, dos homens de negócios das mídias, enraba as massas, é verdade (como também é verdade que elas gostam de ser enrabadas). Eles executam um admirável trabalho no campo da canção, uma coisa perfeccionista de uma eficácia crescente: na execução de shows cada vez mais pirotécnicos, na composição de hits estrondosos, na distribuição, na gravação. A indústria cultural elevada a estado de arte gerencial. Por que fazem isto? Pela fama, pela vida confortável que o dinheiro pode lhes dar, pelo prazer de se sentir no centro do vórtice musical das massas, pelo interesse, enfim? Sim, fazem pelo interesse, porque querem estar por cima, porque querem dominar, enriquecer. Mas há algo mais, algo mais decisivo. Há também um prazer em fazer bem feito, o amor desinteressado, não pela canção em si, mas por este mecanismo músico-mercantil, pela máquina da indústria cultural, um prazer em atingir a perfeição dentro dos padrões desta máquina ou, como diz Deleuze no Antiédipo “um amor desinteressado pela máquina social pela forma de poder e pelo grau desenvolvimento por si mesmos (...) Uma espécie de arte pela arte na libido, um certo gosto pelo trabalho bem feito, cada um no seu devido lugar, o banqueiro, o chui, o soldado, o tecnocrata, o burocrata, e porque não o operário, o sindicalista...” e também o roqueiro, o pagodeiro, o público, o produtor, o capitalista da mídia. É aí que Deleuze diz, com razão, que o próprio capitalista, o próprio agente não trabalha apenas para o seu interesse, mas principalmente para perpetuar a máquina capitalista, trabalha para o desejo da máquina, sente prazer em ser uma peça dela, em ser enrabado por ela tanto quanto as massas o sentem. Agentes e demarcados, artistas, produtores, capitalistas, massas, são peças trabalhando, com alegria, volúpia e eficácia para a máquina da indústria cultural, para o mercado pop.

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E a face sombria do rock fica cada vez mais degradada, mais vazia, ela não deseja mais nada que não seja o vazio. A energia adolescente, negra, feminina do rock se debate melancólica e niilista ou se transmuta em alegria frívola conectada na máquina de mercado. A face sombria do rock converte toda a sua juventude, negritude e feminilidade em desejo de morte e se torna máquina de auto-aniquilação. Sua única alternativa é a clandestinidade: passar despercebida das massas, descobrir uma nova energia nas sombras, nas sobras, nos escombros de uma sociedade sem utopias.

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A alegria frívola do rock é uma ponte para o mercado, para o iê iê iê classe média das propagandas de televisão e o prenúncio das ondas do sertanejo, axé e pagode. Mas sua revolta rancorosa e melancólica também é um excelente negócio, pois ela constitui o nicho próprio do rock, uma tristeza européia que permeia os adolescentes de classe média brasileiros. Não é à toa que a banda das bandas do BRock é a Legião Urbana de Renato Russo com sua atmosfera cinzenta, sua vontade de morrer, sua rebeldia que se debate no vazio.

(continua)