Vou ensaiar um tipo de editorial diferente. Partindo do texto de Nereu Afonso, vencedor do Prêmio Sesc na categoria contos, com Correio litorâneo, achei um caminho. Nas Contribuições, apresentando Henri Michaux, o contista cita a seguinte pérola deste poeta belga: “Mais vale permanecer no horripilante do que cochilar no satisfatório”. Então, não há mais roteiro. Vocês vão ao menu e clicam onde der na telha. Verão uma coluna nova, a Hexercício Íbrido, da poeta Dheyne de Souza. Dela, o poeta Edmar Guimarães, também nas Contribuições, disse: “Não se sai do poema de Dheyne sem, no mínimo, uns arranhões líricos dessas lâminas decididas”.
“O agente, o capitalista que corre nas veias dos produtores, dos músicos, dos homens de negócios das mídias, enraba as massas, é verdade (como também é verdade que elas gostam de ser enrabadas)” é uma fala de Wilton Cardoso, em Neuropop. Para mim, o cerne da coluna neste número. Estou começando a pensar que é difícil não cochilar no satisfatório, leia-se no costume, quando se trata de um editorial. Agora, surge o momento que, lendo o Wilton falar de música, relembro de Paulo Guicheney apresentar “Ravel na gafieira”, em C-dur. Resta saber se Maurice Ravel veio mesmo a Goiânia e depois ouvir a reconstrução do clássico pelos dedos do Paulo.
Daí música lembra de cinema. Sou assim todo lembrado. Não sei até que ponto o lembrar-se lógico casa com o horripilante. Mas Almodóvar também não fala mais comigo, como diz o André de Leones em Mieloma de Ocasião. Talvez o problema seja a vendagem, a maquiagem que perdeu o clima de tabu rompido, ou o tabu que não há mais para romper. É como acontece, também, em Êxtimo, com Cristiano Pimenta, falando de cinema para falar de arte. Também porque, ao analisar o quarto do filho, de Nanni Moreti, ele põe em leitura a cena bem feita em relação à cena medíocre. A partir daí, traz à tona o problema de forma e conteúdo na arte.
Então, lá estou eu lendo a coluna para vocês de novo… como se vocês não soubessem ler! Mas não é verdade. Ruído branco sabe tanto disso que traz mais para este número: a inteligente conversão de produto acadêmico em texto de linguagem jornalística, do ensaísta Carlos Augusto. Ele aparece nas Contribuições com o ensaio “Metáfora, Essências e Verdade na Narrativa de Marcel Proust: Deleuze e Ricoeur – Uma conciliação”. E com a mesma verve genial, Frederico Martins, da Cova do Corvo, apresenta duas colagens em desdobramento sob o intrigante título de “Corvo Amarelo Jázz (Muted Grooves & Jazzigo)”.
Então vem a literatura. E não vão fazer meu percurso. jamesson buarque ataca de teoria literária, falando sobre quando um poeta faz prosa (como se ele soubesse disso!), passando até pela queda do airbus A-320 da TAM, por Kafka e por Rosa. Wesley Peres ataca de Descartes, subvertendo lógica em intuição das mais finas de sua prosa e poesia.
Bem, agora eu deveria falar de Patchwork, mas a coluna está em recesso, porque nossa querida coordenadora, Patrícia Martins, está em férias. Vai ver, isso destrambelhou este editorial. De todo modo, ela voltará.
Agora, nesta altura, quer dizer, aqui embaixo, tenho a sensação, para não dizer a certeza, de que terminei fazendo um roteiro mesmo. Acho que foi fadiga.
jamesson buarque