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meditação ou ironia de um poeta em prosa
in memoriam das vítimas e parentes do desastre com airbus a-320 da tam, e em voz do que nos resta de humano.
para carlos (o drummond), gerardo mello mourão, wesley peres e nilson pereira — poetas em prosa que deram certo.
Coisa difícil um poeta em prosa. No último dia 17, um airbus A-320 da TAM caiu, aliás, bateu, depois de uma aterrissagem pelo menos estranha. Disseram os prosadores-repórter Pedro Marques, Evandro César Lopes, Paulo Mário Martins e Grace Stelmach: “A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo atualizou para 168 o número de mortos confirmados até agora — 165 corpos retirados do local do acidente e outros três que morreram em hospitais. O Instituto Médico Legal (IML) montou uma operação para o trabalho de identificação dos corpos das vítimas do acidente com o avião da TAM que chocou-se contra um depósito da empresa na noite desta terça. Nove pessoas já foram identificadas”. Diria Rosa: “Na pista, foi feio, uma brutalidade só. Das rijas. O avião batendo contra o paredão daquele depósito. Brutalidade cinzenta. Deu de ver tanta gente a fogo. Pensaram uns cem. Eram cento e sessenta e oito. Tudo gente pra baixo do chão. Três famílias de inteiro. A morte se prolongou para uns até o hospital. Teve gente que na hora. Quase tudo. E as pessoas no depósito foram junto. E nem se sabe quem é. Sabem de nove. É o mesmo que não saber de ninguém”. Diria Kafka: “Naturalmente, as pessoas morreram por defeito no aparelho. O avião aterrissou mal, não conseguiu arremeter, e caiu. De fato, bateu. De todo modo, era preciso contar com todos os passageiros e tripulantes mortos. Mas contaram apenas com aproximadamente cem. A empresa se explicou melhor depois que a culpa se tornou cada vez menos indubitável. Foram cento e sessenta e oito mortos. O avião, ao tentar aterrissar, perdeu o controle, os pilotos não o comandavam mais, e talvez nunca o tenham comandado. Desenfreou-se e o corpo de metal do aparelho saiu riscando fogo na pista de vôo até o depósito da própria empresa aérea. A batida enredou fogo, escombros, fumaça e sangue. E ninguém pôde suprir esperança de sobrevivência”.
A prosa de reportagem, sobretudo em tempos em que as imagens visuais, e não as mentais, querem, por força de mídia, falar mais do que as palavras, como se houvesse concorrência necessária entre as linguagens, enfatiza o fato como acontecimento. O prosador-repórter, assim como o prosador de ficção, busca fatos. Vive de fatos. Eu diria que a vida é mesmo fatídica. Mas, em literatura, vivemos a vida para além da vida, porque o autor doma o condão de anulação do tempo, para, por exemplo, desenhar a dor naquilo que é humana e não somente casual. Estetizar não é, por isso, melhor dizer um desastre; estetizar é sofrer mais de dentro da humanidade. Por isso o prosador de ficção, ainda que procure o fato, escava a vida vivida e não engessa nem aquele nem esta no formato efêmero da informação.
Como poeta, eu diria: “É fácil desconfiar do mínimo quando a culpa ladra/ Ladra em silêncio apontando o dedo/ E quando em riste:/ O novelo se desenrola até o limite do desvelo// Muita gente morta ali/ Seria dizer 100/ Que centena é número de não se definir/ E sinaliza a culpa para o amarelo/ Este intervalo entre o vermelho e o verde// E como foram bem mais de cem/ A batida do avião se tornou para mais dentro da dor/ De onde somente em carvão o corpo resta/ E vem a fumaça e seqüestra a vida/ Que soluçando insiste/ Até que se esquia/ Num sopro/ Para o infinito”. Se eu fosse prosador diria: “José Gomes estava guardando suas ferramentas para encerrar seu turno: vassoura, pá, balde, panos-de-chão, desinfetantes e rodo. José Paulo acabara de receber da torre de controle a liberação de aterrissagem. José Maria, convidado para uma conferência, provavelmente a última, porque contava com noventa anos, e, também, provavelmente, porque aquele seria seu último vôo. O avião aterrissou mal. José Paulo tentou arremetê-lo, mas não deu. Descontrolado, que seria dizer fora do alcance de comando de José Paulo, rasgou o asfalto, incendiando a pista de vôo. José Gomes se abaixou para apanhar a pá. Nunca mais se levantou. O avião se chocou em cheio no paredão lateral do depósito da própria empresa aérea. E era por trás dali que José Gomes estava. A empresa anunciou que cerca de cem morreram. Foram cento e sessenta e oito. Teve de corrigir-se. Não sobrou um josé sequer. Sobrou carvão”. Mas eu não sou prosador.
Da prosa de reportagem à prosa de ficção, muito de informacional se perde, e muito de imagem se ganha. Assistimos a ações humanas como se estivessem aqui e agora, ocorrendo diante de nossos olhos. A prosa de ficção existe para os olhos. A prosa de reportagem produz para os olhos também. Mas captura deles sua capacidade de absorver informação. Se se trata de um acidente de avião, como aquele citado, nossa condição humana nos move para a comoção. O poeta começa por essa comoção. Quase que se concentra na comoção. Enterra a informação sob a grossa massa intuitiva da emoção. Mostra como a prosa de ficção mostra. Mas mostra nossa condição humana. A prosa de ficção mostra ações humanas. Quando o poema narra, a narração é, antes de tudo, amostra da condição humana, paradigma de comportamentos, de gestos, de vida etc. Só depois importa as ações. A poesia acumula a ação na segunda camada de sua cadeia de significação. A prosa de ficção eleva a ação, põe-na no acme. Mas, como a poesia, enterra a informação.
A prosa de reportagem nos toma de imediato. Comove-nos com mais força: eram 188 pessoas dentro do airbus A-320, mais umas tantas pessoas dentro do depósito, mais as demais pessoas no aeroporto, e, mais as vítimas indiretas: as famílias, de longe e de pertinho. Dói. Depois de três semanas, um mês, seis meses, um ano, somente a família sofre. A TAM continuará chocando aviões em paredões, ou os mal-aterrissando ou os derrubando, para espetáculo mais expressionista e cruel. Nós, aqui de longe, recebendo notícias das mídias e vivendo nossa vida sobretudo de milhas para novas viagens áreas, confiando que os assentos são flutuantes, vamos nos esquecer, ou nos lembrar de soslaio. Claro, o acidente do último dia 17 será uma laiva no currículo da TAM, mas nada que a impeça de voar, bater e derrubar mais aviões.
A prosa de ficção fica. A poesia fica. Rasgam o peito, enfiam a mão esquerda lá dentro dele, agarram o coração pela aorta, convidando-nos a revisitar o espaço da dor. O poeta quer que não deixemos de lado nossa condição humana. O prosador ficcionista quer que não deixemos de parar de olhar para nossas ações humanas. O outro somos nós. Ambos querem que não nos esqueçamos de sermos humanos. Diria Pessoa: “A literatura existe para provar que a vida só não basta”. Uma exímia linha de prosa, para um poeta. Para qualquer um, aliás. Axiomática. Eis a saída para um poeta em prosa: tecer axiomas para mostrar ações da condição humana.