Vaca de Nariz Sutil



Não sou eu aquela máquina — sétima meditação


VOZ 1
De uma fogueira, à beira, tenho nas mãos um papel em branco — e o meu corpo. Vim para onde estou, só. Cansado de verdades. Uma certeza que seja, será pedir muito, Caro-Bom-Deus-Maligno? Uma certeza, meu espírito pede.


VOZ 2
Me deleito em me perder. Me identifico com o que rápido desaparece, as nuvens e o que de negro relampeja no olhar de quem amo. A equação do corpo é um olhar e a celebração da morte. Deus, Bom ou Maligno, alavancou as engrenagens do mundo e desapareceu, foi cuidar da vida Dele, se é que a palavra vida é aplicável ao Deus.


VOZ 1
Se é que a palavra vida é aplicável ao Deus, há de haver um sol, uma sintaxe dos afetos, chuvas desenhadas pelo som de um sonho racional. Não há lugar na República para a palavra cariada, para o silêncio que não siga o regime dos esquadros. O mundo maquinal, Deus deu o impulso, e se inclui fora dele, do mundo, Deus foi cuidar de sua vida.


VOZ 2
Deus foi cuidar de sua morte, e não o perdoamos por isso. Sonho com o dia em que o pensamento terá a curvatura de um vaso chinês quebrado. Faço o possível para ver, serei despedaçado em corpo, como agora já o sou ainda que discretamente. O corpo não fala, o corpo sangra.


VOZ 1
O corpo sangra, como o cérebro sangra de um homem enquanto sonha. O Deus maligno enfeitiça os triângulos e as equações, a certeza e a objetividade só sobrou aos mortos. É preciso morrer, assim: anular o corpo, matá-lo escrevendo-o em fórmulas exatas. É preciso duvidar — sobretudo do que na palavra é pássaro.


VOZ 2
Sobretudo o que na palavra é pássaro. “Pensar é estar doente dos olhos” e dos nervos, é infectar o nervo, escavar a nódoa da angústia. A angústia é branca e legítima. Só um homem doente não é angústia a todo instante.


VOZ 1
Não sou eu aquela máquina, digo: essa. Essaquela máquina, essa coisa externa à coisa-eu que pensa porque não sabe ser outra coisa. Essaquela máquina: de origem, livre da desinfecção dos relógios. Os relógios salvaram o mundo da repetição. Os relógios ordenaram os ciclos em tal enlace que retificou o tempo, tornou-o uma seta. A máquina-mundo, eu não sou aquela máquina, não as suas engrenagens. Sou, sim, como a estrutura eólica, o movimento lógico, não-analógico, o alinhave numérico, a configuração por detrás do que você come e voa com os olhos, nada é igual ao que você vê.


VOZ 2
Nada é igual ao que eu vejo, o mundo é o cheiro azul-azedo-áspero-e-rouco do vento se destroncando nossa pele pulsando soltando o invisível pó, que é o que de cada humano resta no mundo, pois é isso que resta, e não qualquer número ou lógica que por acaso tenha obturado, escondido os rasgos da tapera que somos enquanto somos.



Wesley Peres

Wesley tem 31 anos, mas sempre acham que ele tem cara de 30. Vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006, com o romance Casa entre Vértebras (romance), Editora Record, 2007. É autor de Água Anônima (Prêmio Cora Coralina, 2001) e Rio Revoando (Com-Arte/USP, 2003). Em 2007 lançará Palimpsestos, pela UFG. Acha deplorável pessoas que gostam de Fanta Uva, gosta muito de estourar aquelas bolinhas de plástico e da literatura produzida na Papua-Nova Guiné. Ah, é psicanalista e mestre em estudos literários pela UFG e doutorando em Psicologia Clínica na UnB. Mora na Cataluña. E-mail: wesleyperes@uol.com.br