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Morrer é ficar azul Ou o pó é o formato da morte
Castro Alves incitou que a morte nos deixa azul. Ficamos duros quando morremos. Os medievais só tinham certeza da ausência de vida quando atestavam o rigor mortis. Duros, morremos azuis. Passa por aqui as ensinações de meu amigo André de Leones. Azul é a cor de morrer. Os franceses da Revolução de 1789 cunharam que o azul é a cor da liberdade. Positivista de carteirinha, ainda que romantizado desde Ressurreição (1872), Machado cunhou, em Crisálida, este axioma: “Para encontrar o azul, eu uso pássaros”. Nilson Pereira, autor de “Para Borges e Milton”, citou-me Eliot, de um verso que me é bem querido: “Vou te mostrar o medo num punhado de pó”. O pó é o formato da morte. E isso é bíblico desde o Césio 137. Num poeminha, Gerardo Mello Mourão diz: “Meus Deus, para que tanto azul?”. Azul é para a morte, para a liberdade, para o que sobra e para o espanto. Depois, e depois é antes, veio-me minha querida amiga Patrícia Martins com aquele quadro que está lá em Patchwork, revelado-lhe em 1987, quando eu cursava a antiga 7ª. Série, no Colégio Dom Bosco, em Petrolina/PE, e tinha de fazer prova sobre o acidente com o Césio 137. Eu deveria responder onde fica Goiânia. Eu deveria ter respondido: no mapa.
Não há nada mais agradável do que ser azul. No capítulo “Geração de mensagem estética” (ou coisa assim), do livro A forma do conteúdo, Umberto Eco faz um laboratório semiológico para descrever o nascimento das metáforas vivas, implicando que o azul é não-comestível e que compete, metonimicamente, à Serpente, aquela mesma que seduziu Eva. Depois de algumas ginásticas teóricas, o semiólogo transmuta o azul em vermelho, como a maçã da Árvore da Vida. E o azul se torna, por isso, comestível, portanto o mar, o lago, a chuva, as águas enfim. Que todos vamos morrer, avisou-nos Castro Alves, e eu apenas gostaria de lembrar. Durante o que depois virou não o acidente, mas a tragédia do Césio 137, em 1987, as pessoas não sabiam que seguravam a morte na mão. Efetivamente, seguramos a morte no peito. A morte é conosco como o sorriso e o Céu em e sobre nossos corpos, ainda vivos até daqui a pouco. Leide Neves, seis anos, segurava a morte na boca, lambendo os lábios de tanto azul da Prússia. E a Prússia nem existe mais. Muita gente morta naquela época. Esta é uma ordenação da morte: pintar os lábios de celeste, da Prússia ou do amarelo de Chernobyl. Há grave diferença em sabermos que vamos morrer e sabermos quando vamos morrer. Se vou morrer daqui a no máximo doze meses, na melhor das hipóteses, porque meu tumor vai explodir, fazendo festa de pirotecnia do coração afora das veias, restando um hálito azul à queda dos dentes enquanto o corpo se cala de tão distante da ausência da alma, dói. E resta o pó amassado na mão esquerda, cravando nas unhas o nome da agonia. Isto não é uma sentença nem uma praga. Antes fosse um salmo, porque os salmos nos salvam, como disse Ch’en Tsu-Ang, pela voz de Gerardo Mello Mourão e do Pe. Joaquim Angélico: “No passado não vejo os antigos” e “No futuro não vejo os outros”. E isso bem poderia ser voz de Leide Neves, se não tivesse sido obrigada a nos deixar aos seis anos. E agora pode. Eu ouço. É por isso, compadre Wesley Peres, que tudo é tão azul e azul e azul. Repetição do azul: a morte macerada nos dentes com gosto de pão fresco da padaria da esquina e café da manhã, que vamos tomar, ainda que não saibamos quando.
Morrer é azul. A Prússia é azul, desde Berlim, no vermelho e amarelo, né, Patrícia Martins? Você me ensinou. Talvez as três cores primárias, por serem justamente primárias, anunciam a chegança do fim. Tenho, finalmente ou por hora, comigo, que o destino de Bagdah e de Basra (minha sonhada Bassorá) não é bom: os olhos dos soldados americanos e dos soldados ingleses são, em suspeitada iteração, todos bem azuis. Mas isso pode ser mera implicância.