Número 11



ruído 11: de pérolas e espelho e palíndromos

à língua das ribaltas:

André de Leones estava bêbado um dia desses. Se contяariou consigo. Se contяariou com o dia. Acho que André descobriu como dizer o que fazemos todos os dias, embora isso pareça contяário ao dia. (Mieloma de Ocasião)

Cristiano Pimenta, para nosso deleite, sacou o que escapou a muitos: a fina ironia de Padilha em Tropa de Elite. Capitão Nascimento não é herói. Ele é o agente da polícia que converte homens em demônios, como é o caso de Matias. (Êxtimo)

Se Tissot revestiu “de medicinal e científico o que não passava de lorota religiosa” não sabemos ou Nereu da Silva reinventou o médico suíço. O caso é que, agradecido pela conversão do ideal em material, como prova de Sua própria existência, Deus pagou o pato. (Gargântua)

Como o lado que dói nunca é o mais ferido, Nilson Pereira visita a dor avistada de perto de fora, onde a surdez da morte se avizinha. E vão por aí Jorge de Lima e João Bosco, passando por Aldir Blanc, Wally Salomão e Antonio Cícero. (VIVER DÓI!)

Salomé ou a beleza quando flamba farpas e aguilhões na manga é talvez o mote de Patrícia Martins. A acuidade crítica da colunista sobre a femme fatale é tão precisa que eu daria minha cabeça para Salomé exercitar sua sedução sedenta de sangue. (Patchwork)

Deoclécio Carlos, “ser que transpira música e não tem papas na língua” e que não costuma dar entrevistas, foi entrevistado por Paulo Guicheney. Uma “saravaida de impropérios” e boa perspicácia, saiu disso. E rolou Chico Buarque, para agonia de muitos. Vejam lá! (C-dur)

O homem nu ou descascado pela angústia, porque “inverva a medula metálica do homem”, engrenado na máquina jamais estável do sofrimento, é o mote ou tema catalogado no silêncio por Wesley Peres. (Vaca de Nariz Sutil)

Wilton Cardoso deixou definitivamente provado que o estatuto da ficção e o da biografia são o mesmo e que toda maneira de ensaio é uma maneira de monólogo em diálogo. E prova ao entrevistar Zé Pelota, personagem e gente, “imprevisível, mas mais aberto à conversação”. (Neuropop)

“Adiamentos” não são poemas para depois. Em número de IIIIIII, como grades ou estacas ou facas cravadas na medula do espírito, os “Adiamentos” de Dheyne de Souza são a experiência do dia em fagulhas cirúrgicas de poesia. (Hexercício Íbrido)

o poeta jamesson buarque continua na mesma. prometeu todo o “livro da lembrança” das quatro intuições de rosas. e é só o que ele pode fazer. (página p.)

Enciclopédia saída do silêncio: uma mulher enterrada em teias, um rosto dissipado na cidade e não sei se Chaplim virou Da Vinci ou se um fantasma atravessou meus olhos e me mergulhou num poço. Essas são notícias de Fred Martins. (Cova do Corvo)

Daniela Bunn passeia pela tessitura plástica da poesia de Murilo Mendes, e eu diria que com uma intimidade impressionante. Aroldo Leão, em dois poemas, canta o grito que todos queríamos hastear para fora do tolhimento do homem contemporâneo. A canção “Primeiro segredo”, do compositor Reginaldo Mesquita, nos convida a visitar a infância por dentro dos olhos. Em quatro telas, Sylvana Lobo gesticula quando o feminino se desmancha aos olhos e singra a redesenhar a existência do que um dia se chamou vida. Nas palavras de Paulo Guicheney, a peça “Altrenativa”, do músico chileno Bryan Holmes, é “uma viagem em que um piano e um violino se transmutam em trens, motosserras e coisas de um outro planeta”. (Contribuições)

Pensavam que eu iria falar do número 11? Erraram! Só porque tenho psicose por palíndromos? (Até escrevi um livro palindrômico.) Somente porque 11 me lembra de Éder, aquele ponta da Seleção de 1982, e que tinha um balaço canhoto que abalou a muralha soviética Dasaiev? Ou porque 1 + 1 é igual a 2 e 2 vezes 11 é igual a 22: outro palíndromo? Estão muito enganados. Não tenho nada a ver com números. E acaso uma psicose é motivo para vocês pensarem que mexo com numerologia? E só porque este parágrafo tem 121 palavras, que é outro palíndromo, e que dividido por 11 dá 11? Não. Vocês estão enganados. Vão ler as colunas que é o melhor que vocês fazem.



jamesson buarque



Êxtimo


ELITE EM TROPA

Antes de ir ao cinema ver Tropa de Elite, eu via pela televisão uma reportagem em que dois traficantes apareciam descendo em disparada um morro do Rio de Janeiro, tentando escapar da mira dos fuzis dos policiais que atiravam de um helicóptero. Um deles cai, desce rolando morro abaixo, levanta-se, continua a correr. Em seguida é dito — pois não há cenas sobre isso — que ambos foram mortos nessa verdadeira operação de guerra da polícia carioca. Fiquei impressionado com o fato de nenhum jornalista mencionar outro fato, o de eles estarem desarmados, e serem simples alvos em movimento. Será que esses traficantes atingiram algum policial e por isso deveriam morrer? Mas não bastaria atirar na polícia para estarem condenados?

Isso nos faz lembrar de um artigo polêmico do filósofo Renato Janine Ribeiro, em que ele comentava o horrível assassinato do menino João Hélio. A polêmica foi deflagrada por ele expressar seus sentimentos de retaliação contra os assassinos, que “deveriam ter uma morte hedionda, como a que infligiram ao pobre menino”. Renato também acrescenta que torce “para que, na cadeia, os assassinos recebam sua paga; torço para que a recebam de modo demorado e sofrido”. Tropa de Elite mostra o preço que se paga quando a própria polícia, na figura do capitão Nascimento, se incumbe de fazer justiça com as próprias mãos. O resultado é a proliferação descontrolada do crime, da violência e da corrupção.

Temos que reconhecer, Tropa de Elite se apresenta como o porta-voz de uma crítica a um sistema de segurança que, tal como o filme nos mostra, está falido. Vemos prevalecer o desrespeito não só à lei, mas à própria dignidade humana. O filme, que toma como modelo o BOPE (Batalhão de Operações Especiais) do Rio de Janeiro, nos mostra não apenas uma estrutura policial falida, mas concebida em moldes que só podem produzir o pior: a corrupção, o crime, a crueldade do policial na relação com o bandido, o que de modo algum faz deste um bom mocinho. Vemos que a instituição encarregada de cumprir a lei possui, impunemente, suas próprias leis. A mais conhecida delas é: “se matar policial, está morto”. Outro exemplo é dado pelo diretor de Tropa de Elite, José Padilha, numa entrevista a um programa na TV Cultura: “se a polícia do Rio aborda uma pessoa que está armada, a ordem é atirar”. Nessa entrevista Padilha defende a tese de que esse modelo de polícia deve ser substituído, pois, ao invés de proporcionar um combate eficaz da violência, ele apenas a alimenta.

Eis a crítica desferida pelo filme. Eis também o ponto a que não iremos nos opor, pois ele traz o fio cortante de uma verdade, que se impõe na mídia e fora desta. Basta mencionar o sucesso que ele teve como DVD pirata. Trata-se de um modo de circulação típico da verdade, que muitas vezes tem de ser pirateada. Que nem todo mundo tenha essa mesma leitura sobre o filme, que alguns, por ex., tomem partido da posição de defesa do modo de agir proposto pelo Capitão Nascimento, é um fato que não muda em nada isso que o filme nos traz. É preciso ver que muitas pessoas não estão abertas para ver o que tem para ser visto. E os motivos podem ser das mais variadas espécies.

A questão, no entanto, é que lá onde esse filme é bem sucedido, justamente aí, encontramos seu ponto fraco. Tudo em Tropa de Elite, todas as cenas, convergem para um conjunto de significações unívocas. Este filme é a tradução, nos mínimos detalhes, de uma tese sociológica. Tudo o que acontece nele não tem outra finalidade a não ser nos levar a concluir aquilo que o próprio Padilha e Luis Eduardo nos dizem (no referido programa televisivo), e que descrevemos acima: que este modelo de polícia é nocivo tanto para a população quanto para o policial etc.

Tomemos o Capitão Nascimento, a quem o filme não esconde ser um criminoso, mesmo que não nos leve a odiá-lo. Certamente, há uma certa simpatia que acabamos tendo por ele. Se ele é, num certo nível, poupado da condenação de expectador, é porque realmente é condenado e é o sistema policial que não lhe deixa escolha. A simpatia por Nascimento, apesar de todos os seus atos cruéis, é devido a sua boa intenção. É o seu lado bom que o leva a desejar sair do BOPE para poder preservar seu casamento. Ele é um homem preocupado com a vida de seus homens (ele se revolta com a ordem de subir o morro numa posição vulnerável dizendo: “mas senhor, vai morrer policial nisso”). Heroicamente, ele não se deixa corromper. Sofre quando é procurado por uma mulher que perdeu o filho por bala perdida. Ele comemora o nascimento de seu filho, deseja estar mais presente em casa e ser um bom pai. E no final ele é quem lidera o fazer justiça com as próprias mãos, se vingando dos traficantes que mataram um policial. São essas “boas ações e intenções” de Nascimento que fornecem um ponto de apoio para que certo público se identifique com ele até em seus atos mais inaceitáveis. A idéia de que “é assim (com violência) que se deve tratar bandido” não seria possível a alguns se não houvesse essa ancoragem na boa intenção e bondade do personagem, a não ser para um autêntico perverso.

Neste sentido, o capitão vive seu conflito: tem de salvar seu casamento, mas tem de permanecer no comando de seu batalhão, já que não consegue arranjar um substituto à altura de seus ideais. Ele escolhe a permanência na polícia, o que leva sua esposa a deixá-lo. Por fim, ele encontra um substituto, Matias. Só deixando a polícia seria possível refazer sua família. Em outras palavras, esse conflito vivido pelo Capitão Nascimento só quer dizer uma coisa: participar dessa polícia é algo incompatível com uma vida social digna. Essa polícia exclui o policial da vida social.

Tropa de Elite é, no entanto, ainda mais didático quando nos conta a história de Matias, aquele que, no final das contas, será o substituto de Nascimento. Não precisa de muito esforço para perceber que a história de Matias é uma repetição, mutatis mutandis, da história de Nascimento. Matias é originalmente bom, honesto, justo, bem intencionado, estudioso, mas tudo isso terá de sofrer “ajustes” para que ele se torne “um verdadeiro policial do BOPE”. Esse caráter positivo de Matias lhe permite romper difíceis obstáculos sociais: ele é um negro pobre que supera as barreiras de raça e de classe ao namorar a bela, branca e rica colega de faculdade. Mas o filme nos mostra que essas conquistas vão por água abaixo pelo fato de ele ser do BOPE, e quem é do BOPE, como diz o Capitão Nascimento, não se mistura com essa gente das classes elevadas que sustenta o tráfico comprando droga. Assim, se a polícia fosse outra, seu namoro não teria tido o destino que teve, não teria de se isolar socialmente. Não teria, no final do filme, se tornado assassino. Aliás, se na última cena, em que o Matias atira na cara do traficante, a arma aparece apontada para a câmera, para o expectador, é porque ela quer significar: “com essa polícia não seria impossível que fosse você quem estivesse sob a mira dessa arma”.

Quem viu o documentário Ônibus 174, do mesmo diretor, deve se lembrar que nas últimas cenas — em que Sandro, o menino de rua que seqüestrou o ônibus 174, é levado pela polícia dentro de um camburão — ouvimos em off a voz do sociólogo e ex-Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Luis Eduardo, fazendo uma análise sociológica da situação caótica da segurança pública e dos meninos de rua no Rio de Janeiro. Mas em Ônibus 174 esse discurso só prevalece no final, antes, o que vemos é a complexidade dos fatos, das histórias narradas, das opiniões (de traficante, de policiais, de passageiros etc.); uma complexidade que multiplica as possibilidades significativas e suplanta a vontade de impor uma leitura. Mas em Tropa de Elite, embora não haja voz em off desse sociólogo, só a do capitão, o que vemos é como que uma amplificação, um domínio generalizado daquilo que no documentário era mais tímido. E quando me lembro da competência, mestria e destreza com que José Padilha respondia às questões no programa da TV Cultura, nos mostrando como esse modelo de polícia está falido, e tendo Luis Eduardo na retaguarda, pois este também estava presente, bem munido e a postos, sou levado a formular, a contrapelo de Tropa de Elite, o que me parece ser uma das condições exigidas pelo fazer artístico. O fazer artístico implica em se deixar levar rumo a um certo desconhecido, não programado, não pré-estabelecido. Neste sentido, implica um certo perder-se e ter como apoio o terreno inseguro e opaco da intuição. Padilha, ao contrário, sabe exatamente o que fez, fez uma bela crítica, realizou um projeto nos mínimos detalhes e de forma muito bem sucedida. Mas a que preço?








Cristiano Alves Pimenta

Nascido em Goiânia, vivido na velha, ou não tão velha, Vila União, logo começou a ler coisas por conta própria e se deparou com uma epígrafe de autoria de Antonio Gramisci: “Todos somos filósofos”. Pronto! Primeiro raciocínio propriamente filosófico: “Se todos os homens são filósofos” (premissa maior), e “Cristiano é homem” (premissa menor), logo: “Cristiano é filósofo”. Tornou-se, então, um jovem filósofo, amante da verdade, leitor de K. Marx, Sartre, Hegel, entre outros. Foi salvo da megalomania apenas pela humildade, que o obrigava por à prova os produtos dessa ratio pessoal. Tortuosos caminhos o levaram, contudo, da faculdade de filosofia (USP) para a psicanálise Freudo-Lacano-Milleriana. Outro pronto! O amor à verdade caiu. Hoje, mais lhe vale uma “ilusão útil” (Baudelaire) do que mil verdades inúteis.
E-mail: cris.alvespimenta@yahoo.com.br








Neuropop



Nesta Neuropop entrevisto um amigo, quase mestre, mais competente que eu, chamado Zé Pelota. Consegui tirá-lo de seu casulo noturno para nos provocar sobre poesia, concretismo, Paulo Leminski e Ferreira Gullar. O entrevistado era para ser o Franco Átila, mas se trata de uma criatura tão complicada e inconstante: às vezes o esperamos até o amanhecer numa esquina desolada e ele não vem ou aparece fugaz, de mau humor, apenas com o intuito desbocado de xingar padres e pastores. Resolvi então chamar o Zé Pelota, não menos imprevisível (o tema, na verdade, era para ser a canção pop), mas pelo menos mais aberto à conversação.

É uma longa entrevista, regrada a charutos e goles de cachaça, mas acho que valeu a pena. Para mim, pelo menos, foi uma madrugada muito produtiva.

Quem conhece o Tratactus Marginale, logo verá que nosso entrevistado o escreveu comigo – o outro autor é o Átila. Mas nem Zé e nem Átila aceitaram que seus nomes constassem na obra como autores. Talvez porque o livro não estivesse à altura deles. Mas desconfio que seja por não entenderem esta vaidade que sentimos em nos apropriar de um texto, marcando-o com nosso nome. Desconfio ainda que esta ausência de vaidade não signifique humildade, longe disso. Trata-se, antes, de um fascinante e perigoso comportamento aristocrata: creio que se sentem tão acima de nós, que pouco se importam com o juízo que fazemos deles. Vamos ouvi-lo então, mas com o devido cuidado que tais vozes inspiram.

Cá estamos

Cá estamos

Então, você me prometeu falar sobre o Rock Brasil e a Tropicália, mas quer começar pela poesia, pelos acontecimentos na poesia brasileira a partir de 50.

Na verdade, talvez possamos, certamente podemos, fazer um percurso que passa da poesia à canção, um zigue-zague em que uma interfere parcialmente na outra, afinal de contas a Bossa Nova e a Tropicália têm uma estranha relação com os concretistas. Mas o que eu queria era tentar colocar o concretismo num campo de tensão, como eles mesmos se colocam, mas de forma inadequada.

Que campo?

Digamos que o Haroldo de Campos tenha definido (em algum artigo ou nota que não me lembro mais) como um campo poético que se estende entre dois pólos: uma poesia de expressão e outra de estruturação. A poesia como expressão do ser, do sujeito, dos afetos, da alma ou do espírito seria a poesia lírica propriamente dita, que domina a literatura de língua portuguesa e a brasileira desde o Romantismo, e mesmo o Modernismo não teria conseguido afrontá-la. Para Haroldo, apenas Oswald de Andrade se insurgiu radicalmente contra ela no início do movimento. Esta poesia seria verborrágica (a diarréia cabralina), sentimental, choramingas e nada tem a dizer à nossa época. O que não deixa de ser uma boa provocação.

Este seria o pólo subjetivo do campo poético...

É, subjetivo ou afetivo, sentimental, lírico, prosaico (no pior sentido do termo) sem inventividade nem fecundidade, pois não responderia aos dilemas da época. Se bem que estes termos todos não são uma boa palavra, o termo adequado seria profundo, uma poesia de sondagem das profundezas, dos abismos do que quer que seja, ser, sujeito, alma coletiva, o diabo... Contudo, não se pode esquecer que muita poesia boa foi feita aí nessa tendência, ou pelo menos interpretada como profunda, como a Invenção de Orfeu, por exemplo, e mesmo um poeta que os concretistas admiravam, como o Mário Faustino, tendia para as profundezas: era uma espécie de poeta aristocrata...

Mas os concretistas não se importavam se a poesia de Mário Faustino era profunda, a de Murilo, cristã e a de Cabral, engajada. O que eles argumentavam é que, nestes autores, o rigor da linguagem tinha a primazia sobre o conteúdo.

É, mas não podemos esquecer que outra perspectiva interpretativa, justamente a interpretação das profundidades, poderia colocar o que você chama de conteúdo em primeiro plano. O que os concretistas fizeram foi instaurar teoricamente o pólo da estruturação da linguagem no campo poético nacional. Digo teoricamente porque, na prática poética, o Cabral já tinha feito de forma incisiva com sua poesia anti-lírica: no admirável Lira & anti-lira o Luiz Costa Lima traça uma trajetória, de Bandeira a Cabral, que é exatamente o da poesia subjetiva à poesia de concreção (formal e histórica) cabralina. Essa interferência teórica concretista implicou na instauração de toda uma outra perspectiva para o poema, que passa agora a responder não pelas profundidades que exprime, mas pela linguagem que estrutura. Trata-se da instauração de uma poética, que vai prescrever como deve ser o poema (uma vez que eram poetas), mas também, e isso é fundamental, como se deve ler os poemas, ou seja, quais os critérios de valor para a poesia. É uma mudança de paradigma interpretativo, que passa a considerar a estruturação inventiva da linguagem como foco primeiro da leitura do poema. Não importa se um poeta é profundo, contanto que tenha novidade e rigor na estruturação de sua linguagem...

Mas isso é o bê-á-bá de toda a crítica, poesia, afinal de contas é forma poética. Nesse ponto os concretistas estão certos, e mesmo críticos que nada têm de formalistas, como Candido e Bosi, convergem com os pressupostos concretistas...

Sim, sim, ninguém vai negar o pacto de Jakobson, a função poética, uma obra precisa parar de pé, precisa explorar a linguagem, experimentar, inventar a sua linguagem com rigor, senão não passa de besteira. Não é disso que se trata. O problema é como a linguagem é vista em relação ao mundo, como ela é colocada diante da vida. É aí que os concretistas não conseguiram avançar muito, talvez por estarem presos demais a pressupostos estruturalistas. Eles instauraram o pólo da anti-lira, da linguagem-objeto, da construção, da invenção, tudo bem, ponto para eles. Mas deixaram intactos os outros termos. O sujeito, os afetos, a psicologia continuaram lá, do mesmo jeito, eles apenas disseram: poesia psicológica de expressão subjetiva não serve, não dá mais. E como fica o sujeito para eles? Fica do mesmo jeito e tamanho, só não tem importância para a poesia em si, pois o psicológico está aquém da poesia, como motivação para a criação, ou além, como efeito receptivo. Eles depreciaram o psicológico e o profundo, mas não alteraram o campo poético de forma radical.

Vamos deixar essa questão da alteração do campo poético para a próxima. Nós falávamos do rigor...

Vamos lá, ainda não respondi a sua questão sobre o rigor. Há o rigor concretista, que tem como ponto de referência a estrutura de linguagem. Ora, se pensarmos bem, a poesia profunda também tem seu rigor, que exige que o texto se estruture de modo a sondar a estrutura das profundezas com eficiência, a representá-las da melhor forma possível. E o engajamento também exige uma amarração formal do texto que responda às formações sociais de alguma maneira. Todas as igrejas são rigorosas com a linguagem do poema, mas em relação a seu ponto de transcendência específico, ou seja, se trata de um rigor que deve se desenvolver dentro dos limites estruturais de cada crença. Por exemplo, o Alexei Bueno é um poeta rigoroso, dentro da igreja profunda ele faz uma poesia de fôlego, impetuosa, soturna, enobrecedora do espírito. Eu não sei é o que fazer com uma poesia daquela no mundo de hoje, mas tem gente que gosta e, de fato, no terreno das profundezas melancólicas o homem é digno de um Jorge de Lima. Quem sabe ele ficará para a poesia universal... Então, a questão não é o rigor versus a falta de rigor. A questão é: qual ponto de transcendência serve de critério para uma determinada igreja estabelecer o seu rigor? Ora são as profundezas, ora é a linguagem, ora são as formações históricas. É aí que as igrejas não se entendem e se engalfinham, pois cada uma acredita piamente que tem a verdade do rigor. Para a igreja da estruturação, a linguagem dos profundos é prolixa, diarréica . Para os profundos, a concisão da estrutura é falta do que dizer e assim vai. Então qual seria o rigor para um texto que demolisse o campo poético, que negasse todas as igrejas e todos os sagrados? Eis o problema. Tem que ser um rigor da imanência, uma sintaxe que se constrói em constante fuga das estruturas, mas partindo delas; pois afinal de contas um poeta estará sempre cercado por elas, sempre na órbita de um ou mais pontos de transcendência. E não há fórmulas nem germens de rigor para balizar o empreendimento poético, é um tateamento perpétuo, pois quando um texto escapa dos rigores das estruturas, restam somente atmosferas, ondas textuais para navegar sem bússolas ou pontos de apoio. Nesse caso, a situação do poeta é a mesma do arqueiro persa do Catatau: “Flecha se atira em movimento, ninguém está parado. Nem o cavalo, nem o cavaleiro; nem a mão, nem o arco, nem a flecha, e o alvo o vento o leva: tiro certo.” Veja como o Leminski já pensava a questão do rigor sem pontos de apoio desde o começo. Só quando o arqueiro se torna ele mesmo movimento, estará apto a acertar um tiro desses. Então, quando se atinge um rigor assim, de fusão com o movimento absoluto, pode-se dizer que o texto atinge a imanência, escapando aos rigores dos pontos de transcendência e furando os limites estruturais. Não há mais estruturas para este texto, sejam elas subjetivas, de linguagem ou sociais.

Certo, eis o rigor imanente. Agora vamos passar ao problema do campo poético. Você disse que uma poesia realmente revolucionária teria que destruir este campo. Como assim?

Vamos simplificar um pouco. Esse campo da poesia é um território, um domínio alvo de disputas. A poesia profunda é um estado, o estado dominante até meados do século XX, melhor, é uma igreja, trata-se de uma disputa entre igrejas. O concretismo, então, quer fazer a reforma, fundar outra igreja, a igreja protestante da estruturação da linguagem, que diz que os católicos da profundidade estão corrompidos, não tem mais a fé rigorosa na poesia, abandonaram as escrituras sagradas da poesia que é a forma de linguagem. É tão parecido com a reforma, o ascetismo e a contenção concretista e cabralina versus a exuberância pagã e o derramamento católico da poesia profunda. Se eles quisessem mesmo ser revolucionários, não deviam fundar uma igreja, com seus catecismos e sacerdotes, com seu sagrado. Não deviam ser antagonistas deste sacro drama. Deviam propor a demolição do campo poético como um todo, acabar com toda a forma de sagrado, com todas as igrejas, a das profundezas, a do engajamento (porque há, em poesia, a igreja histórica do engajamento, da poesia social, da estrutura de linguagem que exprime uma estrutura histórica) e a da linguagem. Os concretistas são hereges organizados, profetas de uma nova fé, um novo cristianismo poético. A poesia revolucionária, pelo contrário, teria que abandonar o sagrado em favor do mágico, recusar o sacerdócio e sua catequese e buscar a bruxaria e seus feitiços. Bruxos não têm igrejas nem fiéis, não ficam pastoreando nem servindo de mediação entre a voz divina e os mortais, não são juízes de deus. Eles só querem fazer seus feitiços em paz, ensinar um ou outro aprendiz, tentar ajudar quem o procura no seu covil. O que os concretistas fizeram? Disseram: meu deus não é o profundo nem a história, minha igreja não é a da profundidade nem a do engajamento, meu deus é a linguagem e minha igreja é a da estruturação, este é o absoluto. Eles suprimiram toda a errância (o rigor da errância), toda a perdição desde o início, mesmo que tivessem vontade de errar, como Haroldo de Campos quis com as Galáxias.

Você acha que ele não conseguiu um estado de errância com as Galáxias?

Primeiro, devemos reconhecer que se trata de um bom texto, com momentos excepcionais. Mas apesar de todas as dobras e redobras barrocas, como ele gostava de dizer, apesar deste furor proliferativo da linguagem, as Galáxias são... isto: furor proliferativo da linguagem, da sacra linguagem, roçando o beletrismo, o exibicionismo, a finesse. Ele mesmo diz que a obra tem um espírito de finesse, é claro que ele via isto com olhares positivos, é a finesse-tensão do barroco mais agudo e labiríntico que ele queria, mas descamba muitas vezes para o rococó deslambido, a finesse-firula. É o mesmo problema do Leminski com o Catatau.

Aliás, depois o Leminski conseguiria escapar da poética concretista.

É, mas deu trabalho. Os concretistas fundaram uma igreja muito rica e sedutora. De início, tem este ascetismo da linguagem, contido, milimétrico, quase a-verbal, quase mudo, tendendo para o pictórico, o gráfico, a arte visual concreta, este ascetismo que nos legou possibilidades maravilhosas com o alfabeto fonético, fazendo-o, pela primeira vez no Ocidente (muito mais que em Cummings ou Mallarmé) se exprimir como ideograma, fazendo a imagem e a concreção da página realmente se entranharem na letra, na página, na coisa poética enfim. Nessa linha é que se desenvolve a maravilhosa poesia pós-concretista do Augusto de Campos, que ele reuniu no Despoesia, onde os poemas são uma espécie de pop-haikais gráficos. O Gullar diz que o Augusto era o único bom poeta entre os concretistas e que o Haroldo o estragou com sua idéias antiverbais, mas o Gullar está errado, pois ele continuou excepcional como poeta visual (ou verbovocovisual, como ele gosta), apesar de todo o seu catecismo teórico – afinal ele é um sacerdote-mor da igreja da estruturação. O outro lado da igreja concreta, que é por onde o Leminski entrou com mais força com o Catatau, é do transbordamento da linguagem, que eles gostam de chamar de barroco ou neobarroco. Mas são dois pólos do mesmo Sagrado, duas manifestações da mesma Divindade, que é a Santa Linguagem. Novamente, é tão parecido com o protestantismo que raia o cômico. Num primeiro momento, a poesia concreta clássica (como diz o Leminski) o puritanismo ascético e comedido como antídoto ao transbordamento desmedido e pagão dos católicos da igreja do profundo. Num segundo tempo, a proliferação neobarroca, uma espécie de distensão, o momento pentecostal de derramamento do espírito santo cristão, mas dentro dos limites internos do protestantismo concretista, sob a mesma batuta rígida da bíblia e de seu deus masculino e punidor, o deus da estruturação rigorosa da linguagem. Transborde, prolifere, derrame-se, mas não esqueça o deus que opera em sua poesia, não esqueça dos rigores que amarram sua linguagem, do caminho estreito para o céu da estrutura, da ascese inventiva do texto, em nome do Pound, do Cummings e do Mallarmé amém. É duro ser dessa igreja, qualquer desvio do catecismo e te mandam rezar duzentos Pound Nossos e quatrocentas Ave Mallarmias.

E o caso do Leminski? Como escapar da catequese?

É difícil, é um trabalho difícil. Antes de falar do Leminski é bom saber com o que estamos lidando, o que significam essas igrejas literárias, que não são apenas a profunda e a da estruturação, mas também a do engajamento.

São três então...

Três, pelo menos três e mais as suas variações, dissidências, reintegrações, você sabe, perto do fim do mundo esse negócio de igreja é uma putaria só e o campo do sagrado virou literalmente a casa da mãe joana, pra alegria dos bruxos...

Mas o que significam então estas igrejas, esses sagrados que se instauraram no campo poético?

O primeiro sagrado, na poesia do Ocidente, é o profundo, em suas várias acepções desde o renascimento, desde Petrarca talvez. É uma espécie de reação ao Dom Quixote, ao Voltaire, à prosa romanesca e ensaística moderna, sempre irônica, sarcástica, desconfiada e materialista. Já notou como o romance é materialista desde o começo, mesmo quando mágico? A poesia se torna então uma espécie de salvação das almas, uma guardiã do conhecimento analógico, como diz o Octavio Paz. É claro que ela não faz isso de forma pacífica, pois os poetas têm consciência da impossibilidade dessa nostalgia e sabem o quanto sua resistência já se dá no tempo histórico do mundo burguês, do capitalismo e da ciência. Aliás, essa resistência nostálgica é um confronto com o mundo desencantado e utilitarista da modernidade, uma revolução paradoxal, porque aponta para trás, para uma concepção de mundo que certamente não voltará e que talvez nem tenha existido, porque esse negócio de resgate de passado, de conhecimentos passados, como é o caso do pensamento analógico, não deixa de ser uma construção, a construção do profundo no mundo moderno, a saudade de um universo espelhado e semelhante a si mesmo, o poema como microcosmo analógico do mundo. Assim, o poeta ora aparece como pesquisador, escrutinado a verdade oculta do mundo (o clássico), ora como profeta, anunciador da verdade (o romântico) ou ainda como caçador, procurando os vestígios da verdade (o simbolista). E esta verdade sagrada pode tanto ser buscada no ser das coisas (nos objetos, no outro) ou no si mesmo, no sujeito, na individualidade e até na linguagem, como faz o simbolismo, que em suas vertentes mais mágicas estende a linguagem no mundo e vê o mundo como linguagem, signos da correspondência. É bom lembrar que toda essa vontade de sagrado é impregnada por sua contra-parte, pela fratura da consciência histórica, pelo desejo revolucionário: a poesia moderna é feita desse dilaceramento, dessa fissura entre a analogia (as profundezas) e a razão (a historicidade). Mas sua face analógica nunca deixou de ser um reservatório das profundezas, do sagrado, da nobreza. Aliás, a literatura, a poesia em particular, foi o último domínio aristocrático que o capitalismo derrubou. Até meados do século XX a idéia de que ela enobrecia o espírito tinha bastante força.

Sim, isto é história, nós já a conhecemos bem, é a igreja profunda, mas e o sentido desta igreja para o ocidente?

É uma transcendência, é aí que está o ponto: o profundo, a analogia é um transcendental . Um abismo que suga e organiza as energias em seu interior, que pára o movimento do mundo em nome de uma paz eterna, celestial (ou infernal, sei lá), um buraco negro. Uma hora este abismo é deus ou outro ser qualquer, outra hora é o sujeito, que é uma maneira mais humana, digamos, mais cristã de misturar a transcendência ao mundano: a idéia de sujeito é muito cristã e o cristianismo é uma espécie de humanismo sagrado.

A linguagem, no caso concretista, seria outra transcendência...

Não, não chegamos lá ainda, estamos na poesia profunda, não apressemos o passo. O transcendente aqui pode ser a linguagem sim, mas numa concepção simbolista. O importante é que a transcendência implica em construção de sistemas, ou de estruturas, como o Derrida gostava de falar. As estruturas não são estáticas nem simples, elas se movem, proliferam, se contraem, são como organismos (outro bom nome). Mas elas têm centros ou centro, que é justamente o ponto de transcendência, o seu abismo trator, espécie de motor imóvel que está fora do jogo estrutural, que coordena esse mesmo jogo do exterior. Esse ponto de transcendência, abismo, ser, sujeito ou linguagem sagrada, é o deus da estrutura, o seu arquiteto onipotente e onisciente, lá onde o movimento pára. Por isso, a poesia profunda da modernidade deixa um sabor/bolor sagrado na boca e mesmo com toda sua consciência histórica há sempre uma nostalgia de fundo, um deus que se perdeu ou que está por encontrar a paz perdida da verdade eterna. Agora, se isso está nos poemas ou na leitura que se faz deles é um troço complicado de dizer. É preciso ver caso a caso, até onde um texto pode se dobrar à transcendência e por onde ele pode escapar dela, por onde ele tenta fugir dos buracos negros.

Então a poesia profunda é uma estética transcendental, uma metafísica?

É, um modo de conhecimento, de percepção, de nostalgia ou visada transcendental. É bom ressaltar que isto não tem nada a ver com qualidade, não se trata de poesia de má qualidade, inútil ou coisa assim, muito pelo contrário. O problema é que a transcendência sempre esteve em crise na poesia, apesar de sua situação dominante. Mas na virada do século XIX para o XX, ela já não tinha sentido para alguns poetas, para algumas atmosferas/correntes poéticas.

As vanguadas, por exemplo...

Sim, as vanguardas européias denunciando a sacralização e a nobreza da arte, de como esta sacralização era, no fundo, burguesa. E qual a alternativa para a arte enobrecedora, qual poesia deveria desafiar as profundidades, se opor à transcendência? Tinha que ser uma poesia da imanência, onde o sagrado, o uno, o ser não teria vez. Havia dois caminhos para isto. O primeiro, aberto pelas experiências simbolistas, era o da estruturação da linguagem como coisa, como signo despojado da analogia. O segundo era seguir o caminho do romance ou, pelo menos, de uma certa interpretação do romance, que era fazer a relação da estrutura do texto com as formações históricas. Então as alternativas eram a poesia de estruturação e a poesia engajada (engajada num sentido amplo, de consciência histórica, não apenas de denúncia social). São dois ateísmos possíveis. E ambos, de certa forma, já estão previstos na tradição da ruptura como sua contraparte desencantada, ou seja, faziam sistema com a analogia na forma de suas antíteses possíveis. Então, a estruturação e o engajamento significam não a fuga entrópica do campo poético estabelecido, mas a afirmação de estruturas minoritárias já existentes, uma espécie de tomada do poder literário pela esquerda – e esse negócio de esquerda assumir o poder a gente sabe muito bem no que dá... O concretismo embarcou na estruturação, na linguagem-coisa. Alguns poetas, inclusive o Gullar de Dentro da noite veloz, embarcaram na poesia engajada. Cabral mesclou as duas tendências, estruturação e engajamento.

Em todo o caso, o concretismo é uma recusa da transcendência da poesia profunda, uma vez que sua estética é a da estruturação da linguagem...

Sim. O movimento é de luta contra a transcendência profunda, ou seja, uma tentativa de construção da imanência, foi um desejo concretista, mas eles não conseguiram. O que fizeram foi fundar um outro sagrado, um outro ponto de transcendência. O raciocínio parecia lógico para eles, como era para Jakobson. De que se faz a poesia? De palavras, de linguagem, de significantes. Ora, a linguagem então é a matéria, a única carne palpável da poesia para além de qualquer ilusão metafísica, é o seu plano de imanência possível, o campo no qual ela pode se desenvolver sem precisar dever nada para transcendência alguma.

De fato, não deixa de ser um empirismo, um materialismo bruto e poderoso este.

Sim, o problema é a concepção de linguagem dos concretistas, que era (e pra muita gente ainda é assim) estruturalista, sistêmica, orgânica. Eles pensavam em termos de sistemas fechados que se inter-relacionam, que trocam valores ou entram em relação dialética. Eles questionavam a poesia modernista profunda, uma poesia subjetiva, de diluição, sentimental, chorona, verborrágica, psicológica. Tudo bem, estavam certos, mas nunca questionaram a concepção de sujeito dessa poesia. Só diziam o seguinte: a estrutura-sujeito não tem nada a ver com a poesia, ele só entra no circuito poético na sua ponta final, como receptora, ou na ante-sala poética, como origem das motivações psicológicas da feitura do poema, mas a verdade da poesia está na estrutura-linguagem que ela é. Então, o que eles fizeram foi apenas desvalorizar o subjetivo e sobre-valorar a linguagem. Nunca se perguntaram: o sujeito e a linguagem são mesmo estruturas? São sistemas fechados que interagem entre si de maneira relativamente estável e previsível? Eles precisavam de uma perspectiva imanente de mundo, de questionar o sujeito e a linguagem (e a sociedade) enquanto estruturas. Faltou isto à sua poesia e, principalmente, à teoria, que é fraca, mais fraca que a poesia. A teoria da poesia concreta é quase sempre um catecismo da estruturação da linguagem. Tinha fé demais na linguagem como estrutura, na sua capacidade revolucionária. Ela aceita que a linguagem é um sistema fechado, assim como o sujeito e a sociedade. Esses sistemas fazem trocas entre si, mas de forma a nunca perder sua identidade própria, suas centralidades, sua unidade enfim. A poesia se desenvolve no plano do sistema-linguagem, ela é fundamentalmente estruturação dos signos lingüísticos. Tudo o mais, o afetivo, o perceptivo, o coletivo que aparece no poema são seres de linguagem, que remetem para fora da linguagem, para o sujeito e a sociedade, sim, mas cuja essência de verdade no poema é forma lingüística. Veja como a linguagem funciona como o último desaguadouro do universo poético, que suga e pára todo movimento, mesmo que a poesia seja altamente experimental e inventiva (e a poesia concreta era, e com furor), mesmo assim tudo conflui para o abismo da linguagem e seus rigores, veja como eles transformaram a função poética no ponto de transcendência da poesia – oh! São João Jakobson anunciador.

Então a tentativa de imanência concretista fracassou e acabou em outra transcendência. E a outra tentativa de imanência, a engajada?

Essa é fraca em poesia. Ela é da prosa, mas se infiltrou na poesia... quando? É difícil precisar. Em língua portuguesa já a divisamos em Cesário Verde, com aquela secura incrível, aquela linguagem chã, irônica, entre cética e imperturbável e que, no entanto, era estranhamente perturbada e perturbadora... Em Drummond o engajamento é poderoso, ágil, e em Cabral é levado ao ápice da desolação: o engajamento, mais que uma poesia da denúncia, é uma poesia da desolação, do desengano ateu, eis sua força crítica. É por conta desse ceticismo ateu que o engajamento aparece como alternativa à profundidade. E os engajados também são inimigos encarniçados da igreja profunda e, muitas vezes, desafetos da nova igreja da estruturação. É só conferir a briga de foice no escuro entre Roberto Schwartz e os concretistas. O seu projeto contra as transcendências profunda e de linguagem é a afirmação da historicidade radical da literatura. Mas sem entrar em muitos detalhes, os engajados também fracassam. O motivo principal do fracasso é acreditarem numa espécie de mimese literária, num certo vício representativo que rebate a forma literária (do poema ou da narrativa) nas formações históricas. Em suma, a estrutura do texto, de uma forma ou de outra, reflete, refrata ou renega dialeticamente a estrutura do real social. O mesmo jogo das estruturas estanques, só que, desta vez, a primazia, o ponto de transcendência está na estrutura social ou, pelo menos, na complexa dialética entre a linguagem literária e as formas sociais – como na engenhosa crítica de Schwartz. É incrível como se consegue transformar a historicidade, tão atéia e materialista, em um ponto de transcendência literário. É que toda vez que se tenta achar uma estrutura de base, um explicador final, uma poética da unidade para o texto, o que se acha, na verdade, é um buraco negro que vai, novamente, parar o movimento poético, mesmo que este buraco negro seja o mais agnóstico possível, como é o caso da historicidade.

Sim, mas há as soluções sincréticas para o texto, que considera tanto o social, o psicológico e a linguagem, seja na construção ou na leitura da poesia.

Os sincretismos, os hibridismos, as mesclagens, eles não resolvem nada, só fazem a replicação, a dialética e a convergência dos pontos de transcendência, mantendo a mesma concepção de sistemas fechados em relação dialética ou de troca. No máximo, o hibridismo produz uma tensão irresolvida entre as várias estruturas: sujeito, sociedade e texto. É o que se prega, uma leitura sincrética dos autores, de Drummond, por exemplo, pois ele, afinal de contas, seria o poeta completo e multifacetado, um mestre (o master poundiano) em que subjetividade, rigor lingüístico e engajamento são igualmente importantes e poderosos. O que iríamos encontrar com isto? Um triplo ponto de transcendência, a santa trindade moderna, o ecumenismo das três igrejas, a complacência piedosa das crenças rivais. Mas ainda assim, transcendências, pontos de confluência onde os movimentos poéticos cessam, onde nada mais passa, nada mais pulsa, o ponto da verdade eterna transcendental. Uma provocação à parte: não seria possível extrair uma imanência de Drummond, de Bandeira e mesmo de Jorge de Lima e Murilo Mendes?

Agora podemos retomar o Leminski, não? Ele superou os catecismos das igrejas poéticas? Ele driblou os seus pontos de transcendência?

Sim, mas não foi tarefa fácil. É difícil de fazer. Difícil de pensar também, de saber o que se faz. Muito da poesia do Leminski, sua poesia pós-Catatau, é no sentido de se livrar das catequeses, das transcendências do campo literário. Muitas vezes ele cai nas armadilhas do profundo, não o subjetivo, mas numa certa metafísica oriental, clássica e até mesmo cristã. Outras vezes sua poesia se deixa sugar pelo abismo da estruturação da linguagem, rezando na cartilha concretista. Que quer dizer isto? Que o Leminski oscila, a seu modo entre a lógica analógica e a razão do poema de tendência concretista ou, por outras palavras, que ele se insere na tradição da ruptura que caracteriza a poesia moderna, como diz o Octavio Paz. Mas, para o Leminski, havia a necessidade de sair dessa oscilação, de sair dos hibridismos e deslizar entre as estruturas e suas igrejas, estabelecer uma poética de movimento absoluto, não apenas do movimento relativo, interno às estruturas, mas o movimento que recusa qualquer estrutura e todo o freio, que seja puro erro. De uma perspectiva estrutural, esse erro seria o errôneo, o contrário do acerto, mas, de uma perspectiva imanente, seria a errância, uma poética errática que recusa os fechamentos sistêmicos. Muitas vezes ele vislumbra essa errância e não consegue um bom resultado poético.

Como acontece com muita poesia marginal...

Como Chacal, por exemplo. O problema da poesia marginal é que ela não conseguiu uma boa linguagem para o erro, não construiu os rigores da errância. É difícil se afastar dos pontos de transcendência: linguagem, sociedade, sujeito. Eles são uma referência poderosa, são como esqueletos ou germens de rigores (não são fórmulas prontas de rigores como no parnasianismo, é mais complexo) que indicam o ‘caminho estreito’ da experiência poética e escapar deles pode resultar em obras sem nenhum estilo, nenhuma sintaxe, obras que não se sustentam como tais, que não criam mundos e se tornam meros testemunhos textuais de impressões e vivências, como é o caso de boa parte da poesia marginal. No caso do Leminski, ele já nasceu, como poeta, vacinado contra o engajamento e a poesia subjetiva. Ele dá uma entrevista divertida sobre isto, em que diz estar cagando e andando pra poesia profunda, que ele não tem psique, que é uma besta dos pinheirais... O problema maior dele é com o concretismo, com os rigores concretistas, com o ponto de transcendência de linguagem que ele vai tentar distender, desviar, corromper. Ele sabe o quanto é difícil, pois não significa perder o rigor da linguagem, perder a sintaxe, o espírito de inovação e experimentação, não se trata disso. A questão é como construir os rigores da errância, rigores feiticeiros e não sacerdotais. Esses rigores não anunciam nenhuma voz sagrada, mas liberam as vozes do delírio, irremediavelmente plurais e proliferativas. Para os sacerdotes das igrejas literárias tais rigores são infernais, pois se não respondem a nenhuma transcendência certamente é coisa do diabo.

E o Leminski consegue isto em sua poesia?

Em alguns poemas, sim. E, sobretudo, ele consegue, também nestes poemas, pensar o assunto mais que nos seus ensaios que, no geral, tendem para o catecismo concretista. Há um poema excepcional dele que diz “Quero forças para o salto/ do abismo onde me encontro/ ao hiato onde me falto” e arremata “Pedra, letra, estrela à solta/ sim, quero viver sem fé,/ levar a vida que falta/ sem nunca saber quem é”. É a recusa de toda a transcendência, de todo buraco negro. A princípio parece que se trata apenas de uma recusa da psique, do ser, mas, na verdade, é a busca de uma pura imanência no poema e na vida. Aliás, o caminho que Leminski encontrou para a imanência foi encharcar a poesia de vida e vice-versa, fazer poesia e vida deslizarem uma na outra. Aliás, ele pagou com a vida por isto, era intenso demais...

Parece romântico, vida e poesia. Dor, amor, embriaguez e morte. Excesso de intensidade...

Parece romântico, neo-romântico (aliás é também meio beatnik, rock and roll). Pode até ser, mas enquanto os românticos (ou pelos menos é a leitura que se faz deles) tendem a ver sua perdição de vida como um passo para a comunhão com o mistério maior da vida, com o transcendente, em Leminski há a tentativa de levar o erro ao limite extremo da errância, viver sem fé, à velocidade da treva e não à velocidade da luz, como ele mesmo diz.

Então esta interpenetração de vida e poesia é diferente da que ocorre nos românticos. Seria diferente também da infiltração de vida na poesia modernista como em Bandeira e Mário?

Sim, pois o modernismo ainda evoca o sujeito, a vida do sujeito, a psique. Em geral, a leitura que se faz do poema modernista é tratando-o como uma expressão da subjetividade, por mais que de um lado ela transborde para o oceano do ser e da analogia e, de outro, ela se fragmente e se dissipe na historicidade desencantada da modernidade. Aliás, o sujeito seria exatamente o ponto de inflexão destes contrários, o ponto de dilaceramento desta tensão, novamente a tradição da ruptura. Por isso a subjetividade poética modernista é tão complexa e cheia de nuances, oscilando entre a nostalgia, a melancolia, o ceticismo e a utopia. O poema modernista seria a expressão, a representação ou a sondagem, quase sempre fracassada, das profundezas desse sujeito em crise, fraturado, fragmentado. Com o Leminski, há uma tentativa de desvio dessa trajetória, uma resistência à sondagem das profundezas, mas também à historicidade e à estruturação de linguagem que são as faces laicas e desencantadas da tradição da ruptura. Veja o caso dos afetos, da afetividade, do sentimento, ele não exclui isto de sua poesia e nem os reduz a seres de linguagem, não os fazem desaguar em estruturação de linguagem como os concretistas prescreviam. Mas também não são os afetos de um sujeito, não é a sondagem de uma psique, de uma alma, seja ela individual, nacional ou universal. Isso ocorre porque, de certa forma, Leminski tem uma concepção da linguagem e do sujeito diferente dos modernistas e dos concretistas. Para ele, a linguagem é um sistema aberto, uma atmosfera permeável que já está impregnada da vida dos homens desde sempre, uma espécie de concepção pragmática da linguagem, que não está no sistema de coordenadas dos eixos sintagmáticos e paradigmáticos, não é o código e nem mesmo o movimento do código, a sintaxe do código. A linguagem para o Leminski é seu uso, é utilitária, é a sua ferramenta, imperfeita, imprevisível, impura, misturada com o mundo desde as entranhas. Ele sabia e queria a impureza da linguagem, de cada sílaba e som. Assim como via o sujeito como um sistema aberto, sem essências. Tem um poema muito bom sobre isto, sem dúvida inspirado na filosofia zen do haikai: “apagar-me/diluir-me/desmanchar-me/até que depois/de mim/de nós/de tudo/não reste mais/que o charme”. O charme, que em francês remete ao poema, é também um estado sedutor, é resíduo, rarefação, deslizamento do sujeito, é uma atmosfera contagiante, uma circulação energética, uma individuação não essencial, uma linha de subjetivação, algo que transpassa e é transpassado pelo ambiente, muito precário e poroso. Essa sua concepção imanente da poesia e da vida, da linguagem e do sujeito, que recusa toda transcendência e todo rebatimento em estruturas finais, que recusa toda fórmula da eternidade, essa imanência vai ficar realmente clara no Agora é que são elas e no Metaformose.

Que muitos dizem ser um texto catatauesco, um Catatau de menor fôlego.

Bobagem, o Metaformose é muito melhor, mais incisivo e agudo, um texto que evita as firulas de linguagem. E, apesar de algumas semelhanças, é muito diferente do Catatau, que é um texto desigual, superestimado como prosa de invenção, neobarroca, esta ladainha dos fiéis da igreja da estruturação. Eles admiram o Leminski como neoconcretista, como poeta do rigor da linguagem que ousou se aproximar dos insigths de relaxo/vivência da poesia marginal e conseguiu uma espécie de fusão zen, de hibridismo entre a expressão subjetiva de descompressão da linguagem e o rigor objetivo concretista, pendendo para este último, é claro. Eles fazem uma interpretação sincrética do Leminski, usando as coordenadas poéticas dos concretistas.

O próprio Leminski interpretou sua poesia como uma pororoca, um encontro tropicalista entre a razão cartesiana concretista e o desbunde carnavalesco tropical.

É, e muita poesia dele é assim mesmo, entre a razão estrutural do poema e um pensamento analógico carnavalesco, mas há poemas e textos que deslizam entre essas polaridades e caminham para a errância, para outro regime poético. Talvez Leminski não tivesse plena lucidez da tarefa que empreendeu rumo ao erro. É normal em poetas, não que eles não saibam pensar, mas costumam fazer isso melhor de forma poética, não conceituando, mas imbricando o pensamento em sensações e afetos. O Leminski foi um grande pensador, os seus poemas e textos criativos tendiam para o que Pound chama de logopéia, mas um pensador estético, que é muito diferente de um intelectual, um crítico, um teórico. Temos então que extrair esse pensamento de sua obra, entender e até fabricar os conceitos que ele fareja e também discernir os problemas a que esse pensamento estético responde. Temos que estender, fazer proliferar o seu texto poético. Só assim podemos usá-lo de modo fecundo. E, muitas vezes, o que se extrai daí é contra as idéias acabadas, as totalizações interpretativas que o próprio autor faz de sua obra.

Sim, você estava falando de como no Agora é que são elas e no Metaformose a recusa da transcendência e a afirmação da imanência ficam claras. Será porque são dois textos em que há muito desse pensamento estético?

Sim, sim. E por incrível que pareça, são textos que refletem sobre a narrativa e não sobre a poesia. É como se o Leminski, que era por natureza um poeta, precisasse falar em narrativa e da narrativa para afirmar a imanência. Como se precisasse de um outro, o outro da prosa fabular, para buscar a imanência da linguagem da poesia e da vida. Às se busca num domínio conexo o que queremos para o nosso, como se fosse preciso passar por circuitos alternativos para melhor pensar as circulações em que estamos imersos.

Vamos falar no Metaformose, que é um texto sobre os mitos gregos. Não há assunto mais clássico, afinal. Aliás, não há matéria poética mais primordial, mais metafísica...

É verdade, por que o mito, por que recuperar os mitos gregos na era do capitalismo eletrônico? Parece, de início, uma tarefa regressiva, nostálgica, a recuperação das profundezas mais profundas do Ocidente, uma vontade de resgatar nossa origem substancial. O próprio Leminski diz, na parte mais didática do livro, que os gregos imaginaram todo o imaginável, o que pode ser interpretado como se eles tivessem fabulado todas as verdades do homem ocidental, guardadas desde sempre em sua mitologia. Restaria a nós interpretá-las, desvendá-las, sondá-las, o que não deixa de ser uma poética da profundidade, ao estilo clássico. Mas quando partimos para o texto, ele abandona esta concepção.

Partamos para o texto então...

É melhor começar pelo que o texto não é. Há pelo menos quatro maneiras modernas de tratar os mitos clássicos. A primeira vigorou entre os poetas e mitólogos até o século XIX. É acreditar, não na veracidade das fábulas ou dos deuses, mas no mito como expressão simbólica ou metafórica da verdade da alma ou da psique humana. É a crença no mito que os Junguianos ainda têm e que a psicanálise, de certa forma, também, com o Édipo. Dessa visão do mito certamente derivaria uma poética profunda, mesmo que seja a da crise do mito, a da sua impossibilidade nos dias de hoje, como é o caso dos poemas melancólicos do Alexei Bueno sobre os deuses gregos. No Metaformose não há essa crença, nem mesmo a desilusão da crença: “Fábulas não são parábolas, nenhum sentido oculto, toda fábula é feita de luz. Moral da história, histórias são amorais”. A segunda maneira é inserir o mito na história, vincular a mitologia a um contexto social e aí as fábulas gregas vão aparecer no contexto de uma sociedade aristocrática. É a leitura dos mitólogos no século XX, que não acreditam mais no mito e o vêem como um fenômeno histórico. Também este não é o caso do Metaformose, que não remete às formações da sociedade grega, a não ser em sua parte didática, onde Leminski toca levemente no assunto. A terceira leitura do mito é a que Levi-Strauss engendrou com sua antropologia cultural, numa tentativa de determinar a estrutura simbólica das culturas, que vai buscar uma espécie de lei do mito não nos seus conteúdos, mas nas suas relações formais. Muito próximo disso está a quarta leitura, também estruturalista, que busca uma espécie de forma geral da narrativa, muito técnica e abstrata, todo aquele troço que começou com o Propp (que não queria bem essa forma geral, mas foi o inspirador para sua procura posterior, não é à toa que Propp é o personagem central do Agora é que são elas), passando por Greimas e Genette. Estes dois últimos modos de ler o mito são os mais interessantes para nós, porque vão convergir com a poética concretista, amante do estruturalismo. E são neles que o texto do Metaformose se detém mais, justamente para evitá-los. Há todo um cuidado para que a proliferação mítica não caia no buraco negro ordenador do estruturalismo, para que a forma da linguagem não surja como um ponto de transcendência. Esta é a armadilha da qual Leminski se encontra mais próximo e justamente a que ele esconjura com mais vigor: “Não há lugar para sonhar com uma fábula que seja a soma de todas as fábulas, a Fábula total, a Fábula universo. Fábulas são sábias. Não há nenhuma fábula sobre isso”.

Sim, o Metaformose recusa todas essas leituras do mito. E o que ele coloca no lugar?

Todas essas leituras vinculam a estrutura do mito, da narrativa em geral, a uma outra estrutura de fundo: à estrutura profunda do homem universal, à estrutura social da Grécia pré-socrática, às estruturas formais da cultura ou da linguagem narrativa. São leituras transcendentais na medida em que estabelecem um fora para o jogo fabular, esse fora é uma estrutura primária que move, sustenta e explica o movimento da estrutura fabular. Como evitar esses abismos transcendentais que param o movimento das fábulas? Como atingir a pura imanência? É dizer, como Deleuze diz, não há unidade, não há centralidade, não há sentido (verdade) nem leis formais que regem o jogo das fábulas. No mundo das fábulas não há o jogo do dentro e do fora. Formulado de outro modo, tudo é fora, pois quando só existe o fora não há possibilidade de haver um exterior imune ao movimento, nenhum motor imóvel controlando a circulação das fábulas: “elas se expandem em todas as direções, entrópicas, auto-proliferando-se, alimentando-se do cadáver putrefato das fábulas já existentes.” Até os homens, que contam os mitos, aparecem, em certo momento, como seus meros reprodutores, como pontos de passagem das fábulas, que perfazem um mundo próprio sem dever sua existência e seu movimento a nada nem ninguém: “As histórias, sozinhas, se contam entre si. A história do Minotauro narra a saga de Perseu para um público de Medusas. Os homens são apenas os órgãos sexuais das fábulas”. O universo das fábulas que Leminski constrói no Metaformose é muito parecido com o que Deleuze & Guattari chamam de rizoma no início do Mil Platôs. É a construção estética da idéia de rizoma.

É um troço bem barthesiano esse, a própria escritura fabular se tecendo. Mas não se corre o risco de se construir, assim, um mundo das fábulas totalmente alheio ao dos homens, fechado em si mesmo? Um mundo ideal. E desse ideal para a transcendência é um pulo...

Não, não. Não é um mundo fechado, é um sistema aberto, um universo imanente, um Corpo sem Órgãos. Os homens, a sociedade, são outros corpos, outros universos imanentes. A imanência implica apenas que não há pontos de transcendência, não implica em fechamento, muito pelo contrário, ela é a abertura extrema, a porosidade máxima que se pode num corpo. Dizer que as fábulas não devem nada aos homens, que elas se contam a si mesmas, não significa erigir um mundo ideal das fábulas, onde os homens são apenas fantasmas, é apenas dizer que o movimento das fábulas não pode ser rebatido no mundo dos homens, que ele não é a representação de uma verdade que está na sociedade ou na psique do homem. O movimento das fábulas, para Leminski, é de produção e não de representação, elas não representam nada, “Que significam fábulas, além do prazer de fabular?”. Há, no Metaformose, duas realidades, dois níveis de acontecimentos, duas corporeidades: as fábulas e os homens. Como essas realidades se organizam, como se distribuem umas em relação às outras? Como se trata de arte, para responder essas questões é preciso se perguntar como isto se resolve esteticamente.

E como é?

É um texto simples, o Metaformose. Nada das finesses barrocas do Catatau ou das Galáxias. Nada de metafórico ou simbólico, nada de alusivo ou elíptico. É muito bruto. Leminski é um poeta bruto, sem muita sutileza. A princípio, parece que o texto não tem consistência, não tem densidade, é como se fosse um moto contínuo em que se transita entre as fábulas ou pedaços de fábulas misturadas aleatoriamente a fragmentos de idéias e pensamentos. O texto salta continuamente entre fábulas e idéias, na verdade, corre entre elas. Daí a falta de consistência, a impressão de que se está diante de algo sem densidade, diante de puras circulações, de energias. Mesmo que uma idéia seja desenvolvida, que ela reapareça em outro lugar do texto, isto é, seja obsessiva, como a idéia de que as fábulas não têm um ponto de transcendência, que emerge de diversas maneiras em vários lugares do livro, mesmo que haja essa insistência de certas idéias, a impressão que se tem é de fluidez, como se algo palpável se esboçasse no movimento ondulatório do texto para novamente mergulhar nele como energia indiferenciada. Trata-se de ondas, de compor um texto em ondas, como uma atmosfera ou um campo energético. Leminski retirou tudo o que poderia fazer refluir essas ondas, como a metáfora, o símbolo e até mesmo a estruturação de linguagem: a linguagem aqui procede por proliferação, não a do tipo neo-barroca, não estamos falando de um jogo auto-referente, mas de uma proliferação em que o texto se precipita em idéias, em perceptos e afetos, verdadeiramente construtiva. A proliferação neo-barroca das Galáxias é ainda reflexiva, um labirinto de espelhos literários, uma espécie de narcisismo da linguagem poética que gira loucamente, mas sempre em torno de si mesma. Leminski nunca quis só o texto, a literatura, o livro, a citação, ele quis que o livro se lançasse para fora de si, que o texto estético atingisse o ponto do pensamento, dos afetos, da vida. Neste aspecto ele é muito parecido com o Gullar e é por isto que a proliferação da linguagem no Metaformose, apesar de sua rudeza e despojamento, e até de um certo descuido, é mais interessante que a das Galáxias e a do Catatau, pois ela abandona o labirinto de espelhos neo-barroco. É literatura, sim, mas que não quer o narcisismo literário.

E como fica a relação entre fábulas e homens no Metaformose?

Há um ponto, ou melhor, uma linha de inflexão entre os dois, que é o Narciso: trata-se de uma fábula, de um elemento fabular ou de um homem? Essa ambigüidade irá percorrer o texto de ponta a ponta e não se resolverá, antes, ela vai se desdobrar, se recolocar o tempo todo. Ora Narciso são os homens, ora é coisa fabular. A partir daí, há todo um imbricamento entre as duas ondas imanentes que povoam o texto, as fábulas e os homens. Veja que se tratam de ondas, de sistemas abertos e porosos e não de estruturas. Não é a estrutura das fábulas de um lado e a estrutura da psique ou da sociedade, de outro. São duas ondas, duas atmosferas se entrecortando continuamente em seus mínimos fluxos. A sua relação não é reflexiva nem dialética, as fábulas não representam a ordem dos homens ou vice-versa. Dialética e reflexividade são relações estruturais, entre estruturas, que não cabem a sistemas abertos, que se organizam como ondas. A relação entre as fábulas e os homens é de interferência recíproca, como dois campos de energia que interagem microscopicamente, tornando difícil traçar o limite onde começa um e termina outro. Homens e fábulas são diferentes em sua natureza, mas os limites entre eles são indiscerníveis, pois sua interação se dá por limiares, pois as ondas (marítimas, atmosféricas, energéticas) passam de uma a outra por limiares e não por limites. Um necessita do outro, pois não há nem fábulas sem homens, nem homens sem fábulas, mas a existência de um não espelha a do outro, não representa o outro. São ondas que deslizam umas sobre as outras incessantemente. Os homens precisam das fábulas pra explicar o mundo e as fábulas necessitam dos homens para procriar, como se fossem dois corpos, duas espécies em simbiose. É uma visão inumana das fábulas, como se elas tivessem sua própria vida, não uma vida ideal, celestial, mas concreta, tumultuada, povoada de perigos, mortes e nascimentos e, ainda por cima, dependente, em parte, dos homens que as contam. As fabulas permanecem, os homens as compartilham, mas também as modificam e às vezes às esquecem, ou seja, elas morrem. Do mesmo modo a vida dos homens depende parcialmente das fábulas: o que seria de nós sem a capacidade de narrar, de lembrar e ordenar coisas e eventos na duração, sem a capacidade de acionar as fábulas, enfim? Esta é a relação que Leminski estabelece entre homens e fábulas, de acionagem, ambos necessitam acionar-se mutuamente para viver, fazer disparar o processo de vida um do outro. Parece estranho pensar assim, mas se atentarmos bem para a concepção de discurso que o Foucault tem, toda aquela circulação discursiva, aqueles dispositivos que passam pelos homens e os dispõe no mundo, é muito parecido com este mundo fabular do Metaformose.

E onde está a imanência nisto tudo?

É um mundo de puras circulações, puro movimento, sem pontos de apoio, sem origem nem fim, sem totalidade nem unidade, sem motor imóvel nem juízo de deus. As fábulas circulam nos homens que circulam nas fábulas, e nem homens, nem fábulas, nem qualquer outra instância possui as explicações ou os controles para o movimento, para as transformações incessantes. Então, fábulas e homens formam um universo imanente, são duas ondas precárias deste universo, a onda dos signos, que narra e explica, e a onda dos corpos, que vivem a vida biológica dos homens. Nesse universo não há possibilidade de transcendência exatamente porque o explicador, que é o signo, a linguagem, a fábula, enfim, este explicador não remete para nenhuma transcendência, nem mesmo de linguagem, pois está no mesmo nível de precariedade e devir que a vida humana, embora a vida das fábulas seja de uma natureza totalmente diferente. Não há uma celebração da verdade dos mitos, nem a busca de qualquer outra instância que os explicaria finalmente tais como a psique humana, as formações sociais, a estrutura simbólica ou as formas de linguagem, como se o mito fosse a expressão metafórica desse explicador final. No Metaformose há simplesmente uma afirmação, ao mesmo tempo sóbria e radical: a da pluralidade intransitiva das fábulas, mas também da vida humana, ou seja, a afirmação da imanência pura de um cosmo em que fábulas e homens estão imersos como acontecimentos.

Você usou conceitos de Deleuze & Guattari para explicar o Leminski, como rizoma, devir, CsO acontecimento, o que é bem interessante. Mas essa insistência em extrair um Leminski deleuziano não poderia matar a singularidade do poeta e dobrar a sua obra às exigências de uma teoria ou filosofia?

Não, não se trata de explicar o Leminski por meio da filosofia de Deleuze & Guattari, se bem que o efeito final pode até ser este, pois é da natureza do pensamento filosófico criar conceitos aplicáveis a certos problemas: então o problema estético Leminski seria explicável ou respondido com a solução conceitual Deleuze & Guattari. De certo modo você tem razão, digamos que os conceitos filosóficos dos autores do Antiédipo se aplicam bem ao problema Leminski ou, pelo menos, aos problemas que sua obra coloca. Mas talvez possamos pensar de outro modo, assim: que a obra de Leminski, particularmente o Metaformose, é já uma resposta estética bem acabada ao problema de como escapar da transcendência e instaurar a imanência, que é o mesmo problema ao qual a obra destes pensadores procura responder filosoficamente. Então, o que temos não é a filosofia de Deleuze & Guattari como chave conceitual para decifrar a poesia de Leminski, mas uma convergência de soluções para um mesmo problema que se impõe ao ocidente pelo menos desde o fim do século XIX. É claro que a solução de Deuleuze & Guattari é conceitual e a de Leminski é estética, mas são afins. A relação entre Leminski e esses filósofos é de afinidade, de ressonância, como dizia Deleuze. Eles fizeram obras que ressoam umas com as outras, cada um em seu campo específico e por conta própria, sem se conhecerem. Porque os conceitos do Antiédipo e do Mil platôs servem tão bem para falarmos do Metaformose? Não seria por conta de uma espécie de afinidade que eles mantêm com o pensamento-poesia de Leminski? Ora, isto é perfeitamente factível. As pessoas podem até estranhar quando aproximo o Metaformose do Poema sujo, quando encontro pontos de contato entres estes dois textos de intenções (textuais) tão diferentes, mas isso é aceitável, é literatura comparada. Por que não se pode aceitar que entre uma obra literária e uma filosófica não possa haver linhas de contato, espécies de isormorfias assimétricas do espírito? Assim, uma obra teórica não seria só o explicador da obra literária, mas, apesar de suas diferenças, que não são pequenas, teria uma espécie de empatia com ela, uma afinidade mágica, como acontece na amizade: os amigos são seres diferentes e, no entanto, afins, muito antes de se conhecerem e, se o encontro ocorre de fato, é como se um iluminasse a vida do outro. Os amigos (e os amantes também) dizem um para o outro: se você não aparecesse eu não saberia, mas era exatamente uma vida como a sua que a minha desejava. Não para que as vidas se tornem mais completas, nada desse papo furado de cara-metade ou alma-gêmea, mas um amigo, uma amada, uma obra (as obras que gostamos são nossas amantes) são como terras novas e fecundas que se avizinham, por onde nosso espírito se prolonga com alegria. Então, o que existe é essa amizade entre a obra do Leminski e a de Deleuze & Guattari, mesmo que uma não saiba da existência da outra.

E nós somos os amantes dessas obras?

Sem dúvida, a relação dos homens com as obras literárias, com os signos, enfim, é a do desejo, é a mesma relação dos homens com as fábulas: uns fecundam os outros sem cessar.

Que outras obras de poesia brasileira mais atual seriam amigas das de Leminski?

Deve haver uma porção delas, pois a literatura, depois de meados do século XX, entrou numa espécie de crise definitiva. Por um lado ela entrou demais no mercado, no jogo das premiações, esse troço todo. Por outro, ela deixou de ser um estado, ou uma igreja, deixou de ser a nobre expressão da alma de uma nação, do homem universal, da sociedade. Ela foi desincumbida do peso de representar estes paquidermes espirituais, de enobrecer a alma e atingiu uma leveza, uma marginalidade e uma liberdade com a qual vários escritores sonharam. É claro que isso tem seu preço, que é o de viver no submundo, no quase anonimato, ser, como diz o Augusto de Campos, um pulsar quase mudo. Mas quanto à sua pergunta, essa poesia que tende à imanência, uma espécie de tradição maldita em poesia, pode estar em autores muito diferentes entre si, como no Ferreira Gullar do Poema Sujo, em Manoel de Barros, Sebastião Uchôa Leite, no Augusto de Campos pós-concretista...

No Augusto de Campos?

Sim, no Augusto. É preciso extrair o leite imanente que brota e nos grita de seus popoemas visuais, contra as crenças estruturantes do próprio poeta, que é um sacerdote-mor da igreja da estruturação. Para isso é preciso pensar a sua poesia com sobriedade e rigor crítico, pensar e não simplesmente louvar, como fazem os seus discípulos basbaques, que repetem sempre o mesmo catecismo, a mesma cantilena concretista da invenção, do neo-barroco, do rigor conciso, essas baboseiras automáticas da igreja da estruturação da linguagem.

E o Gullar, que parece estar no extremo oposto do Leminski e do Augusto, com uma poesia que passa pela expressão subjetiva e pelo engajamento?

Realmente, o Gullar começa com uma poesia de expressão subjetiva, passa brevemente pelo concretismo, sem nunca ter tido convicção pelo movimento e depois se volta a uma poesia de engajamento. Todas essas passagens se dão por impasses, por crises, como se cada fase desaguasse num apocalipse poético depois do qual só restasse o silêncio. São mortes poéticas. Digamos que o Poema sujo seja a resolução possível dessas mortes, a vida possível da poesia para o Gullar. Muita gente pensa que o Poema sujo é uma espécie de síntese de toda a sua poesia anterior, já que neste texto há um diálogo com os outros e um aproveitamento de certas construções, a retomada de certas matérias, dilemas e obsessões do poeta. Mas o fato é que o Poema sujo é muito mais uma ruptura do que uma síntese, a ruptura mais radical de Gullar com sua obra anterior, no sentido em que ele, de fato, entra para outro regime poético. Talvez a palavra ruptura não seja boa, por dar uma idéia de antítese, de polaridade dialética, que é um movimento previsível num sistema fechado. A objetividade concretista, por exemplo, é uma polaridade diametralmente oposta ao subjetivismo modernista e faz sistema com ele. O melhor seria falar em escape. O Poema sujo é um texto de fuga, de deslizamento absoluto por entre os pontos de transcendência poéticos.

Como assim?

É preciso nos perguntar sobre as crises da poesia do Gullar, qual o significado delas. Em A luta corporal, ele começa a poesia na fratura que os poetas modernistas se instalaram e aprofundaram até o limite, que é a da ironia, a da consciência poética perturbada pela perda da aura. O Octavio Paz talvez tenha sido quem melhor expôs essa fratura, com a tradição da ruptura, a idéia de que a poesia moderna se instaura no espaço paradoxal de uma nostalgia analógica e uma utopia histórica, um desejo de volta ao paraíso combinado com o de uma revolução libertária. Independente de outras motivações, como os problemas da nação e a revolta contra a fôrma parnasiana, a tarefa mais urgente do modernismo foi retomar e colocar essa questão no panorama da poesia brasileira, pois os parnasianos não tinham nem idéia do que se tratava, presos na sua atmosfera neoclássica, deslocados da modernidade. O melhores modernistas levaram essa fratura ao extremo, aguçando a crise entre analogia e historicidade quase ao ponto de sua explosão. Assim é a poesia de Drummond, Murilo, Jorge de Lima e Bandeira. O concretismo não deixa de ser uma tentativa de saída desse impasse, pela afirmação da concreção da linguagem poética, na esteira de Cabral que também tenta sair do impasse. A luta corporal parte exatamente desta fratura, no momento em que ela se encontra mais aguda, ou seja, exatamente quando o impasse entre a analogia e a historicidade parece não ter mais solução. João Luiz Lafetá observa bem como os poemas de A luta corporal padecem de uma tristeza quase doentia ante constatação da irremediável fugacidade, casualidade e incomunicabilidade das coisas e dos seres no mundo. Há, nesses poemas, um desejo de permanência, sentido e comunhão, ou seja, que o mundo fosse uma espécie de cosmo analógico ou que, pelo menos a poesia fosse capaz de recuperar esse cosmo pela linguagem. Mas nem mesmo a linguagem poética é capaz dessa recuperação, restando a ela a constatação, o lamento e, por fim, a auto-dissipação como resultado de seu fracasso. A luta corporal é a expressão da insolubilidade da tradição da ruptura. É como se a analogia, um dos pólos desta tradição, não fosse mais factível, nem como desejo, como se esta saudade metafísica de um cosmo espelhado não estivesse mais no horizonte possível dos homens. Era uma crise metafísca, da impossibilidade da analogia, mesmo misturada com a historicidade. A luta corporal é a consciência e o desespero diante desse impasse, pois até então a tradição da ruptura, com sua metade metafísica e sua contraparte histórico-revolucionária tinha sido um terreno fecundo para a poesia, tinha sido, na verdade, o terreno poético por excelência da modernidade. Então, de que a poesia do Gullar fugia? Desse impasse. Particularmente, ela fugia da metafísica, da analogia, da instauração de horizontes do sagrado na poesia, mesmo do sagrado corrompido pela historicidade. É isto que Gullar, que Cabral e os concretistas não queriam mais, que não cabia mais na poesia de meados do século XX, no mundo tecnológico e desolado do pós-guerra. Por isso essa guerra empreendida contra o sujeito, a psicologia, a afetividade, e até contra a nação, contra um certo ufanismo disfarçado que atravessava a busca pelo Brasil real, que não deixava de ser a sondagem das profundezas de um sujeito coletivo, pois o modernismo deslocou para esses elementos a tradição da ruptura. A subjetividade, individual ou coletiva, era o palco no qual se digladiavam a saudade analógica e os ímpetos revolucionários, a nostalgia da unidade perdida e utopia de um novo homem. Mário de Andrade talvez não seja o melhor poeta modernista, mas é em sua poesia que essa tradição da ruptura vai aparecer com mais força enquanto expressão do sujeito, pois Mário é o poeta do sujeito, da subjetividade individual que emerge e se confunde com a nação. E ambos, indivíduo e nação, encontram-se dilacerados entre dois pólos do desejo, que são exatamente os pólos da analogia e da historicidade, do arcaico e do moderno, do primitivo e do civilizado: de um lado, a unidade, o sentido e a comunhão e, do outro, a fragmentação, a casualidade e a desagregação.

Sim, e o Gullar? Como ele soluciona o problema?

Não há solução, há escapes. A tradição da ruptura é um paradoxo, um bom paradoxo, muito fecundo. Os poetas modernos nunca resolveram o paradoxo, apenas o retomaram, aprofundaram-no à sua maneira, levaram-no à exasperação extrema. O paradoxo era, na verdade, a solução para a seguinte questão: como a poesia pode sobreviver num mundo sem magia, sem sagrado, num mundo histórico e agnóstico? Não há como abrir mão do desejo analógico, mas também não há como não se deixar seduzir pela historicidade e pelo ímpeto revolucionário, pela utopia. Era a pergunta dos românticos europeus e foram eles que instauraram a poesia nesse campo tenso em que não se queria perder nem a nostalgia nem a utopia, nem a metafísica nem a história. A poesia de Baudelaire deu consistência e consciência até então inéditas a este dilema romântico, foi a poesia da lucidez moderna, uma alucinada poesia da lucidez, uma espécie de simbolismo realista, a expressão brutal do paradoxo. O problema é que esse paradoxo parece não ter sido mais fecundo a partir de meados do século XX. Na verdade, algumas vanguardas do início do século já não acreditavam mais na sua eficácia, mas só no pós-guerra ele deixa de ser uma alternativa poética. Que fazer então? Uma poesia voltada para a linguagem? Concretismo. Para a historicidade? Gullar de Dentro da noite veloz, Cabral de Morte e vida severina. Para uma dialética de ambas as coisas? Toda a obra de Cabral. Mas há dois problemas com estas fugas. O primeiro é que elas acabam colocando outro ponto de transcendência no lugar da analogia, outro sagrado. No caso da poesia concreta é a linguagem, a estruturação da linguagem. No caso da poesia social é a historicidade, as formações históricas. Elas na verdade não mudam o regime poético mas, dentro do mesmo regime, erguem novas polaridades, novas estruturas (a linguagem, a sociedade) a serem representadas pela estrutura da poesia, não se sai do jogo das estruturas. Por isso elas ainda continuam estranhamente metafísicas, quando seu desejo era escapar à metafísica. O segundo é que essas fugas se fazem por meio de alijamentos, da rejeição de certos conteúdos e procedimentos poéticos. Por exemplo, afeto não pode, é coisa de sujeito, é psicologia, é idealismo, a poesia tem que ser impassível, se concentrar na construção da linguagem, que é a matéria sensível do poema. Transe, inspiração também não, é dádiva divina, metafísica, o negócio é estudo, talento, trabalho, geometria. Percepção mágica, vislumbre de mistérios são coisas das esferas celestes, vetado, perceba o mundo como um cientista, melhor, como um engenheiro. É muito cerceamento, muita limitação. Tudo bem, para um poeta como Cabral, como os concretistas está tudo bem, é por aí que eles são fecundos, mas para alguém como o Gullar e o Leminski, não. Eles são poetas do afeto, do transe, da magia, vêem o mundo atravessado de magias de ponta a ponta, têm uma sensibilidade mágica das coisas. Como fazer então para que esta magia não caia no sagrado, para que os afetos não se abismem em psicologia e o transe não seja dádiva de deus? Como evitar a visão analógica do mundo, como escapar da metafísica subjetiva fazendo uma poesia povoada com esses elementos que parecem ser a constituição mesma da analogia e da subjetividade?

O surrealismo seria uma saída...

Talvez. Mas talvez o surrealismo reponha a metafísica por linhas tortas, talvez não seja imanente o suficiente e o seu anarquismo onírico ainda remeta indiretamente às profundezas, a uma alquimia que busca a pedra filosofal do desejo e do inconsciente, ao cosmo espelhado da analogia. Cabral sempre desconfiou do surrealismo, com o qual flertou no início sob a influência de Murilo Mendes. O Leminski parece que não gostava, colocava no saco da poesia profunda, os concretistas perdoavam, se a linguagem fosse rigorosa, como sempre. O Gullar parece que gostava dos surrealistas ou, pelo menos, do seu comportamento anárquico, mas sua poesia não caminha por aí, talvez um pequeno flerte em A luta corporal. O surrealismo, no mínimo, guarda uma certa tentação de retomada metafísica.

Como fazer, então? Como poetas do mágico e do transe, poetas líricos enfim, poderiam fugir das profundezas subjetivas?

Magia, transe, afetos não remetem obrigatoriamente à analogia, à metafísica, à subjetividade. Esse é um engano crítico, tanto dos partidários da poesia profunda, quanto dos defensores do engajamento e da estruturação. As profundezas não são sinônimo do mágico, do afetivo e do transe, como se a simples presença desses elementos no texto poético implicasse na sondagem profunda de um ser ou de uma subjetividade, ou seja, implicasse em poesia metafísica. Emil Staiger nos mostra como o lirismo não significa a expressão da subjetividade, mas de um estado em que não se é possível discernir sujeito e objeto, aquém do estabelecimento destas estruturas, aquém da significância e até mesmo da referência. O poema como expressão da subjetividade, como sondagem das profundezas subjetivas é um trabalho posterior ao lirismo (que pode ser intrínseco ao desenvolvimento do poema ou exterior a ele, como trabalho interpretativo) e consiste exatamente em fazer esses movimentos incessantes e proliferativos do lírico se depositarem num abismo que dê a eles unidade, limites, imobilidade, o abismo do ser, do sujeito. A profundidade implica em fazer a magia transcender no sagrado, o transe se elevar em contemplação e os afetos se tornarem sentimentos do eu ou de deus. Somente depois desse trabalho de conversão (nos dois sentidos da palavra) é que o lirismo será a representação dessas profundidades, que a sua magia plural será a expressão de um sagrado universal, os seus transes serão os vislumbres da contemplação das verdades profundas e os afetos se tornarão manifestações dos sentimentos subjetivos ou divinos. Mesmo que as profundezas estejam em crise, que sua identidade esteja perdida e sua unidade fragmentada, elas estão lá, como o horizonte perdido ou por recuperar, é a analogia que não se tem mais num mundo descrente e que a poesia repõe como nostalgia, mesmo que seja como uma impossibilidade: o mundo analógico onde tudo a tudo se assemelha e com tudo comunga está lá, no horizonte quimérico da poesia moderna. No fim das contas, há uma estrutura, a das profundezas. A estrutura da poesia tem que exprimir a forma de conteúdo das profundezas, onde repousa (ou repousaria, pois a dúvida é o veneno moderno contra as certezas analógicas) a verdade. O que a poesia da estruturação da linguagem faz em resposta a essa sacralização? Recusa as profundezas e diz: a poesia é imanente, a imanência da poesia é a forma da linguagem em perpétua invenção porque a linguagem é a concreção do poema, é sua única matéria palpável e a invenção é o antídoto à estática que leva à sacralização. É curioso, pois parece realmente a fórmula revolucionária da imanência, a poesia só deve explicações a si mesma, só se diz a si mesma, não exprime, não representa nada exterior, não cai em nenhum abismo fora dela. E ainda por cima é uma constante invenção de linguagem, uma estruturação sem fim. É estranho porque essa solução de dobrar a poesia sobre si mesma, a linguagem sobre a linguagem (a função poética como fim último do texto) em movimento contínuo, essa solução é como se fosse um movimento de duplicação de sua própria estrutura. Ao contrário do que se desejou com isso, não há aí uma fuga da representação, uma substituição efetiva da representação pela produção ou pela construção, mas sim uma auto-representação, uma dinâmica auto-representativa: o poema representa o seu duplo, que é ele mesmo enquanto estruturação de linguagem. Daí o infindável jogo de citação e erudição, o narcisismo da literatura, aprisionada pela sedução do espelho que só lhe mostra a própria face, a transcendência vazia do texto no si mesmo de sua estrutura. Há movimento, invenção, labirintos, metamorfoses, sim, mas no interior da linguagem e quando o fora (a sociedade, o sujeito) entra no movimento é mediado por relações estruturais. O que a poesia engajada faz? Recusa as profundezas e diz: a imanência da poesia é a história, a materialidade da vida dos homens que fazem e lêem poesia. Tudo é irremediavelmente chão histórico. Não há afirmação mais verdadeira que esta: a poesia realmente é histórica. Então a forma poética se relaciona de alguma maneira (refletindo, refratando, negando, dialogando) com as formações sociais. Nada mais justo, sempre há de se achar tais correspondências entre texto e contexto. Eis, então, a fórmula da imanência, a estrutura da poesia representa de algum modo, mesmo que construindo alguma coisa contra, as estruturas sociais, que são, por sua vez, formações históricas que nada devem ao divino. O problema, novamente, é essa relação entre estruturas (texto e sociedade, ambas atéias, veja só), essa insistência na representação, essa busca pela verdade do texto que vai estar, agora, nas formações sociais. Do ponto de vista da história e das ciências humanas pode até ser um bom caminho, mas de uma perspectiva crítica, que obrigatoriamente deve partir do texto poético, é uma transcendência, o estabelecimento de uma verdade fora do texto e que será expressa por ele, mesmo que o sentido dessa expressão seja a negação e o confronto.

Como fazer então?

Parece que o Leminski e o Gullar sentiam (no sentido de intuir, pressentir) que era necessário abandonar essas relações estruturais, de representação ou auto-representação. Era preciso liberar o poema desses abismos, que eram um peso para eles. É como se eles quisessem atingir a natureza selvagem do lirismo, de transe e magia: algo como o espírito dionisíaco da poesia, para recuperar Nietzsche e, ironicamente, os gregos, já que foi lá que ele bebeu para criar o conceito. É o que o Metaformose e Poema sujo fazem. Quase se pode dizer que esses textos recusam ser uma estrutura, recusam representar a verdade do que quer que seja. Há neles uma espécie de consciência da imanência se tecendo, que se recusa a ser rebatida em pontos de transcendência, não se querem expressões de um sujeito individual ou coletivo e nem estruturação de linguagem. Eles fazem um mundo, são feitos no mundo, são fluxos no mundo. Sua função é se conectar com outros fluxos e não exprimir algo. Quem diz eu no Poema sujo? O Gullar tem uma explicação curiosa. Ele afirma que o indivíduo concreto, que a personalidade do poeta, é fundamental para a poesia, mas na medida em que ele diz por outros, em que ele se confunde com os outros que não têm voz e que, no entanto, também fazem a história, ou seja, que é preciso dar voz a esses outros, fazer minha vida passar por eles, fazê-los passá-los por minha voz de poeta, por minha vida, pois esses que não têm voz também fazem a história. Mas não se trata de praticar uma espécie de história do cotidiano, pois estamos falando de arte, de poesia. Trata-se, antes, de devir. Novamente, é muito parecido com Deleuze & Guattari, com o conceito de devir, que é sempre um devir minoritário, um devir negro, devir criança, devir mulher e até devires inumados, devir animal, celular, devir todo mundo, devir cósmico. E, de fato, o Poema sujo tem todos esses devires, humanos e inumanos, esses transes que vão levar um menino a passar pelos humildes, pelas árvores, pelas ruas de São Luiz, pelos objetos enterrados no quintal e pelas tardes, seres e coisas que, por sua vez, passam por ele e por sua voz de poeta: um historiador jamais faria uma coisa dessas, o devir não concerne à história, embora parta dela, ele escapa às formações históricas. Então, o eu do Poema sujo é o José Ribamar criança e adolescente, sim, sem ele não haveria poema nem a vivência de São Luiz, recordada no poema. Mas o que importa é que o José Ribamar não fala de sua história particular, pois ela não tem a menor importância pra ninguém, o importante é que essa história particular é uma história, a história de um menino, de um jovem numa cidade. Novamente Deleuze: um menino, um é qualquer um, um qualquer, é muito vagabundo o indefinido. Esse artigo indefinido (um) é que faz passar outras pessoas e até mesmo outras coisas, animais, vegetais, afetos, transes, tardes, percepções mágicas, atmosferas, delírios e acontecimentos por este um. O um em que devém/transita o poeta (o um poético) não é mais o sujeito, é um operador de fluxos de passagem, dos fluxos de uma cidade, dos fluxos de memória, da imanência da vida urbana relembrada. Nada aí se abisma em ser, em linguagem e nem mesmo em história, pois o poema não organiza seus fluxos como representação desses transcendentes, mas os fazem circular incessantemente: a relação do poema com o seu fora é de devir, de conexão produtiva: o mundo passa pela linguagem que passa no mundo que passa, por sua vez, nos sujeitos que se precipitam no mundo e na linguagem: tudo devém tudo, há apenas conexões de fluxo. É por isso que o poema nos passa a impressão de um campo energético (como o Metaformose), o movimento não cessa em nenhum abismo: sujeito, linguagem e história são evitados enquanto estrutura e buscados enquanto fluxões, linhas de devir.

Bem, se passássemos o resto da madrugada aqui ainda não seria suficiente, mas já alongamos esta entrevista para além de todo e qualquer bom senso, em se tratando de material para a internet, uma mídia de leituras rápidas. Se alguém chegar a este ponto da entrevista já terá sido um ato de heroísmo.

Ou de paciência.

Obrigado.

De nada.





Wilton Cardoso

Apareceu em Morrinhos/GO - 1971. Compulsão crônicaguda por escrever: poemas, ensaios... Leitor obcecado. E obsessivo. Mas preguiçoso. Mora em Goiânia. Caipira, caipora. Vive ao léu, como todo mundo.
E-mail: naumarginal@yahoo.com.br



página p.


conforme anunciei na edição anterior de ruído branco, daquela em diante, logo, passando por esta, eu usaria a página p. como residência de meu “Livro da lembrança”, que é a primeira parte de minhas Quatro intuições de rosas. o poema seguinte é o segundo do Livro.

intruções de uso: não faça nada. apenas vá lendo, na medida em que os versos vão aparecendo. se seu ritmo de leitura for mais lento do que aquele que anima o poema, não tenha uma parada cardíaca. espere a próxima execução. aliás, o loop de execução é infinito. o clichê novamente: boa leitura!









Jamesson Buarque

jamesson buarque é poeta, professor, crítico literário e doutor em estudos literários na ufg. publicou os delírios e novíssimo testamento. sente-se muito mais antigo do que sua idade tri-trina cristã. além de poesia e magistério, gosta de vinho, cachaça mineira, desenho animado, cinema, política, bíblia e fenomenologia, tudo colado. importante: é sobre essa colagem sua coluna.
E-mail: jamessonbuarque@yahoo.com.br



VIVER DÓI!



Mais das dores e um quê de amor


Tudo é um soluço, ôi, ôi, soluço inerte.

Ninguém, ninguém, ninguém. Nem os ciprestes.

A morte é surda. Amém nos teus ouvidos.


O céu mata, o sol mata, a mão também.

Quem é que está jorrando sangue sem

Espelho para ver-se em fronte rubra?

(JORGE DE LIMA)


“Trapo de língua é boca cheia de retalho!”, dizia um poeta em tempo outro senão esse de agora nós. Disso eu falo agora, mas com transpiração desnecessária (desculpo-me, em tempo) mas a agonia está em nós de pronto. Eu nem sabia nem sou sabido de que o poeta é receptáculo de angústias, acho que é o que é: é mesmo um gozador, no sentido eros-escatológico do termo e do ermo.

Um dessas espécies já adiantei aqui e adiante, no texto “cacos de dores” – mas isso não é somente uma contradicção, afinal, se o gozo é morte pequena, a dor de todo dia, aos cacos, deve ser uma gozada solitária, um suicídio pequeninamente temporário de quem tamanho não é documento. O que nos lembra o diminuto e bem dotado sátiro: ecce poeta. Havia citado apenas alguns de seus versos: “O menino nasceu entre a lama e a faca/um deus de bermuda, um pé de chinelo/imperador do morro, reizinho nagô/o corpo fechado por babalaô”.

O nome do poeta João Bosco são dois. Não digo os vocábulos (João e Bosco), digo que ouvíamos no rádio e nos discos uma canção da fuleragem e dos escombros e dos subúrbios em que falavam dois nomes: João Bosco e Aldir Blanc. Recentemente, João é do mundo, “ê, João!”. Foi escavocar raízes nos lados orientais, depois do Japão, junto aos seus desertos e calores; foi o seu filho quem lhe apresentou na contramão “As mil e uma aldeias” e depois outros pout pourris. Também conheceu-se muito quando formou um triunvirato com a saudade que temos de Wally Salomão (“eu vou tomar aquele velho navio” e tomou) e o que sabemos guardar de Antônio Cícero. Não se pode deixar esse mundo de meu deus sem ouvir, ao menos uma vez, mesmo que Diogo Mainardi deteste, uma canção cujos versos dizem verdades como “sábios costumam mentir” e que começa com uma esquizofrenia surrealista como “estrelas no escuro e fenômenos do vir a ser/que os deuses me invejem, eu dou tudo por mero prazer”.

Entretanto, em um agora que foi dantes, sou forçado a me danar e me doer sem Wally Salomão nem Antônio Cícero e nem mesmo Aldir Blanc.

“Ai ai ai de mim” — pois é, ai ai ai de mim mesmo! — é o nome do disco em que João Bosco nos eleva à agonia da “morte surda” com a canção “Das dores de oratórios”. Não é somente uma canção sobre uma noiva que grita e chora, mas de um menino que assiste a essa cena ao passar pela porta de um cemitério, conforme o testemunho adolescente do próprio autor.

Enquanto fumo mais um cigarro (não consigo parar!), leiam novamente os versos:

Porque o amor é como fogo

Se rompe em chama

Não há mais remédio...

(solos de violão)


Foi por amar

Que ela — iôô iô iô — se amasiou com a tal solidão do lugar

Iééé!

Foi por amar

Que ela — iôô iô iô — só pecou nas noites de sonho ou gozar

Iééé!

Foi por amar

Que ela — iôô ôi iô — só ficou só ele a deixou só estará (Uhn!)

Foi por amar


Foi no altar

Que ela — iôô iô iô — noiva que um andor podia carregar

Iééé!

Foi no altar

Que ela — iôô iô iô — dor que a própria dor de das dores será

Iéé!

Foi no altar

Que ela — iôô iô iô — não virá não, ele virá não, não virá (Uhn!)

Foi no altar (Aiii!)


Era um lugar

Era — iôô iô iô — Salvador, Maria de Antônio e pilar

Iéé!

Era um lugar

Era — iôô iô iô — seja o que gastou de tanto esperar

Iéé!

Louca a gritar

Ela — iôô iô iô — esquecer, quem há de esquecer o sol dessa tarde?! (Uhn!)

Sol a gritar... (Aiii!)

(choros de violões)

Tentei escrever os efeitos vocais e instrumentais, mas é inútil. Porém, deve-se saber que o cantor e os instrumentos gemem por contaminação. Também é bom ouvir em alto volume, para sentir o efeito do que significa ter o (nosso) choro abafado.

Como Jorge de Lima lembra, o pior da morte é que ela é surda, embora isso não baste para que deixemos de gritar e chorar. E não pensemos que isso ocorre somente porque protestamos sobre seus atos, pois meu compadre Finado Túlio há muito profere impropérios à vida, a fim de cortejar a morte por intriga, mas a “indesejada das gentes” não ouve Túlio (e Túlio é gente!?).

“Quem há de esquecer o sol dessa tarde?”: “o sol mata”. Diante daquela cena, o menino sentiu-se no lugar (em que “a dor que própria dor de Das dores será”) de ouvir o que a morte não queria (ou podia?). João ouviu Das dores. Ela, noiva, virgem, viúva desejava não ser; todavia quem deveria vir, para fazê-la não mais ser, não virá. Faltou o noivo, e não as cinco virgens imprudentes da parábola cristã.

Mas João 1:1 diz “E o verbo se fez carne”. Tudo o que a noiva virgem disse em seus oratórios João canificou em música — “a mão também”— e foi assim que seu punho, que escreve e toca, a desvirginou com o seu semen est verbum dei: um gozador, um põeteiro, um poeta. “Quem é que está jorrando sangue sem/espelho para ver-se em fronte rubra?”



Nilson Pereira de Carvalho

nilson pereira de carvalho foi inventado à base de amizade com o sol e a lua, desde criança e a fazer histórias com naipes de baralho, como a Alice que não mora mais aqui. Estudar letras ocorreu antes de fazê-lo na UFG, hoje, disserto, busco contrair doutorado em tesão sobre o de Chico Buarque em suas obras. Os documentos rezam goiano, mas, si mesmo, rezo olhano para todas as cidades, do céu ao inferno, que deus as tenham, pois o diabo jaz. São longos os quarenta anos e já vãos tardes quentes a ressecar a pele negra e sangue mofo e frio, qual a vida que faz doer meu compadre, o Finado Túlio, de quem literopsicografo uns poemas aí.
Email: noslinnilson@yahoo.com.br



C-dur


“Chico Buarque entende de mulheres”

Goiânia é uma cidade estranha. Lugar onde coisas improváveis acontecem. Terra que combina literatura de auto-angústia, Césio, Lacan, música eletroacústica e Leandro e Leonardo. E é também a casa do compositor Deoclécio Carlos. Um compositor estranho, improvável: em sua poética coabitam ruidosamente: literatura de auto-angústia, Césio, Lacan, música eletroacústica e Leandro e Leonardo. E, claro, um ódio sem limites por Chico Buarque. Testemunha viva da viagem de Ravel a Goiânia, amigo de Stockhausen e Odair José, Deoclécio Carlos é um enigma. Ser que transpira música e não tem papas na língua. Visitei a casa do compositor para esta rara entrevista e fui saudado com uma saraivada de impropérios, além de uma obra inédita para nosso deleite auditivo. Tiro para todo lado. Deoclécio é isso.




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Música para a voz, segunda voz, guitarra, baixo, teclado, saxofone e bateria


Paulo Guicheney: O senhor poderia nos falar de quando conheceu Ravel em Goiânia?

Deoclécio Carlos: Não.

Paulo Guicheney: Eu sei que o senhor está cansado de falar disso, todos perguntam, mas desde quando eu coloquei a notícia no site muitas pessoas querem saber e…

Deoclécio Carlos: Olha filho, eu estou de saco cheio de falar disso. Eu te disse que não queria falar disso. Se for pra falar desse porra desse Ravel a entrevista acaba aqui.

Paulo Guicheney: Tudo bem, então. Por que o senhor se tornou músico?

Deoclécio Carlos: Mas é uma pior que a outra. Como assim? Sou músico porque não sou médico. Só por isso. Em Goiânia, na minha época, você tinha duas possibilidades: ser médico ou esculhambar tudo e ser músico. Imagina que desgraça na vida de uma família quando o menino queria ser músico. Hoje me arrependo, claro. Deveria ter me tornado cabeleireiro, estilista, a desgraça seria ainda maior.

Paulo Guicheney: Quando a música entrou na sua vida?

Deoclécio Carlos: Nossa, achei que você fosse perguntar quando a música entrou no... Deixa pra lá. Outra perguntinha matadora. Olha, você quer uma resposta bonita sobre meu envolvimento com música ou uma resposta verdadeira?

Paulo Guicheney: Verdadeira, claro.

Deoclécio Carlos: Eu me tornei músico porque a música é a mais bela das artes. Ela enleva a alma, ela fala de coisas que as palavras não conseguem dizer. Ela nos transporta pra mundos nunca vistos. A música nos faz viajar sem sair do lugar.

Paulo Guicheney: Isso não foi verdadeiro.

Deoclécio Carlos: Eu me tornei músico pra comer as meninas, porra! Por que mais? E hoje que tudo já está perdido não vejo nenhuma razão mais pra isso.

Paulo Guicheney: Mas o senhor continua a compor.

Deoclécio Carlos: Sim, e daí?

Paulo Guicheney: Alguma coisa ainda existe.

Deoclécio Carlos: Sim, e daí?

Paulo Guicheney: Certo. Como o senhor classificaria sua música?

Deoclécio Carlos: Música pós-serial calcada na nova complexidade e embebida de um pathos genuinamente goiano, ou seja, Música Cereal. Essa é a música que eu faço. Filho, você não vai me perguntar sobre Chico Buarque? Eu sei que toda essa enrolação é só pra me ouvir falar do pulha, não é? Faz tempo que você está querendo um embatezinho, eu sei. Pode começar.

Paulo Guicheney: OK, por que o senhor odeia Chico Buarque?

Deoclécio Carlos: Eu não odeio Chico Buarque. Só se odeia quem se respeita, não foi isso que o Paulo Francis disse? Eu desprezo o Chico Buarque, é diferente.

Paulo Guicheney: Por que o senhor despreza Chico Buarque?

Deoclécio Carlos: Finalmente uma pergunta descente. Chego a ter comichão. Vamos lá. Eu não agüento a babação de ovo em torno dele. Pra mim ele enquanto músico entende de mulheres, mais nada. Chico Buarque entende de mulheres, é assim que eu o defino.

Paulo Guicheney: Curioso, em uma entrevista ele disse que não, que ele não entendia de mulheres. Por isso ele se dispôs a falar delas. Me parece que é justamente esse caráter impalpável das mulheres que o fascina.

Deoclécio Carlos: “Caráter impalpável”? Filho, você é estranho… Tudo bem, então nem de mulheres ele entende. Como já me disse o Estércio (Estércio Cunha, compositor goiano): “O Chico Buarque enquanto músico é um grande poeta”. E olha que eu disse isso a um amigo escritor e ele ficou puto comigo.

Paulo Guicheney: Mas não seria uma combinação das duas coisas?

Deoclécio Carlos: De quê? De puto e impalpável?

Paulo Guicheney: Não, de poeta e músico?

Deoclécio Carlos: Não me venha com esse papo de que ele é um trovador, um Raimbaut de Vaqueiras do nosso tempo. Ele é fraco enquanto músico e é fraco enquanto poeta. A combinação é um desastre. Por isso ninguém fala dele enquanto músico, não há o que dizer. Não há nada pra falar dele, por isso falam das letras. Puta merda. Falam das letras. Eles separam as coisas e acham que falam de música.

Paulo Guicheney: Fale da música então.

Deoclécio Carlos: Ele não sai do lugar. Ele se repete. É um chato. Preciso falar mais? Basta ouvir. De vez em quando, pra quem gosta, ele tem lá seus laivos literários de dor de cotovelo. As pessoas são pegas por isso, o cotidiano pequeno burguês que ele descreve. Aquela história de quem vai pagar o aluguel depois da separação, da mulher que aprendeu a gostar de dar. Essas coisas. Ele é o porta-voz desse tipo de coisa. Musicalmente não há nada, se é que podemos separar as coisas. Ele é pobre. Tem aquelas melodias chinfrins, aquela harmoniazinha que se acha a tal. É sempre igual. São as letras que pegam as pessoas.

Paulo Guicheney: Pra mim ele tem canções que são perfeitas. Irretocáveis. Concordo que ele se repete, que tem uma fórmula e se agarra a ela, mas mesmo assim às vezes ele acerta. Mas a música popular não é assim?

Deoclécio Carlos: Eu esperava mais de você. Ganhador de Bienal e tal. Esperava mais. Olha que eu gostei do CD que você me deu. Mas o Brasil é isso. Sua fala é típica desses intelectuais brasileiros. No Brasil o intelectual lê Joyce, faz doutorado sobre Mallarmé, vai ao cinema assistir Tarkovsky e escuta quem? Quem? Chico Buarque, claro. Imagina um intelectual brasileiro escutando Boulez, Ligeti, Almeida Prado, Estércio Cunha…

Paulo Guicheney: Eu escuto Deoclécio Carlos…

Deoclécio Carlos: Você é músico. Olha, Chico Buarque é o meio do caminho. Ele não está nem lá nem cá. Ele é falso. Pra mim ou você lê Paul Celan ou lê Paul Coelho (sic). Mário Quintana não. O Chico Buarque é o Mário Quintana da canção. Ele nem é brega e nem é erudito. O Paul Coelho (sic) é muito mais verdadeiro que ele. Chega! Cansei. Já falei demais. Vamos parar.

Paulo Guicheney: OK, pra encerrar o senhor poderia falar de “Música para voz, segunda voz, guitarra, baixo, teclado, saxofone e bateria”?

Deoclécio Carlos: Não.

Paulo Guicheney: Nem do título?

Deoclécio Carlos: Não.

Paulo Guicheney: Muito obrigado pela entrevista.

Deoclécio Carlos: De nada.






Paulo Guicheney

Paulo Guicheney é compositor. Quando criança teve de optar entre ABBA e Trio Parada Dura. Optou por ABBA, mas depois descobriu que a coisa pegava mesmo era com Beethoven. Estudou piano e composição na UFG, onde também fez mestrado em música eletroacústica. Atualmente leciona composição na UNB.
E-mail: pauloguicheney@hotmail.com



A TRAMA MURILIANA


Organizar a desorganização,

ou desorganizar a organização?

Rotação, contaminação,

colóquio com os tempos.

Subversão do espaço.


Murilo Mendes

“Texto Setor Délfico”

(Poliedro, 1965-1966)


Na subversão do tempo, na destruição das colunas da ordem e da desordem vemos o poeta oscilando entre a composição e a recomposição de elementos que se (des)integram em cada poema. Talvez por isso, a poesia de Murilo Mendes, como bem lembra Italo Moriconi, é de difícil acesso e pouco popularizável, porque nela quase não há, como afirma, poemas individualmente marcantes, “daqueles que a gente decora e carrega na cabeça até a hora da morte”. São poemas complexos, surreais e abstratos que marcam pelo modo como agem em nosso pensamento — rotação, contaminação, subversão.

Os poemas, assim como os escritos em prosa, dialogam constantemente entre si. Palavras aparentemente incompatíveis vivem em harmonia em cada verso em metamorfose, ultrapassam estratos da escrita e se proliferam em outros estratos. Num processo contínuo, a máquina muriliana produz uma espécie de entrecruzamento de linhas e idéias que criam as redes de analogias entre os signos. Como lembra Arlindo Daibert, ao longo da obra de Murilo Mendes, a afinidade entre as artes plásticas e a poesia caminha para uma perspectiva de entrelaçamento. A imagem, o quadro, já não ‘contaminam’ o poema, tornam-se seu tema.

A palavra é muito adequada para tal união. Entrelaçando uma palavra a outra, Murilo conceitua a arte de cada pintor num juízo de gosto antagonicamente desprovido de conceito (lembro Kant). Esse entrelaçamento reúne idéias e signos que se misturam, se embaralham, se vinculam por analogias e por metáforas passando uns por dentro dos outros. O entrelaçar ocorre tanto na superfície da escrita ao cruzar artes, música e literatura, quando na interfície desta, no interior de cada verso, ao cruzar poemas com outros poemas, como lembra Raul Antelo.

Murilo caminha livremente no interior de certos quadros e se reconhece através deles. Um caminhar lento, minucioso, aguçado ao sentir a cor e ver o cheiro. Murilo procura um elemento territorializado, um altro revelado na pintura e que será incorporado ao corpo do poema.

Murilo afirma não seguir regras ou convenções e escreve poesias sem os artifícios usuais. Sendo assim, o poema não-convencional, como aponta Antonio Candido, lança o leitor diretamente no campo do significado ou na busca deste. O leitor não se preocupa em observar a rima, pois esta não se faz presente. O ritmo, este sim, está intrincado nos versos. Cada verso tem um ritmo próprio que completa a melodia do poema de tal maneira que este pode ser lido como uma partitura, um andamento musical. Fica difícil, portanto, analisar convencionalmente um poema de Murilo. Resta analisar o conteúdo estético, o modo de composição artístico de cada texto e entrecruzá-los, vendo-os como peças que formam um único mosaico — ressaltando, sobretudo, o RITMO, o SIGNO e a TRAMA.

RITMO é uma palavra-chave para a compreensão da leitura que Murilo faz das artes plásticas. Esse movimento ou ruído que ocorre com intervalos regulares é uma modalidade de compasso que caracteriza uma espécie de composição. O movimento apresenta uma relação de intensidades entre as pulsações e atuou no desejo de abstração de muitos pintores modernos que tomaram como referência a música (sons puros = cores puras) e a arquitetura. A ligação de Murilo com a música desempenha um importante papel na leitura das telas que o poeta denomina de certa forma abstratas (mesmo que outros críticos dêem outras terminações).

O ritmo — essa musicalidade transeunte — encontra-se no entre-lugar do texto. O ritmo em Murilo não é perdido nas múltiplas cesuras dos poemas, ao contrário, ele se desterritorializa num verso e se reterritorializa no seguinte (o que Deleuze caracteriza como ritornello, forte coeficiente de reterritorialização). Para Deleuze, o ritmo não se coloca no meio, mas entre dois meios, entre dois entre-meios e o fato que o caracteriza é justamente mudar de meio. É justamente o ritornello territorializante que traça uma linha transversal entre os versos numa (re)composição: um signo, um ritmo, outro signo, um ritmo, o mesmo signo — uma música, uma tela.

Como afirma Kandinsky em De lo espiritual en el arte (1997), as vozes interiores das coisas não ressoam isoladamente, mas todas juntas, música das esferas. Kandinsky busca o sentido cósmico do mundo, o som da própria tela, aconselhando-nos a ouvir as linhas e as cores: o poder de (re)ver essências. Murilo ouve o som da tela e o transfere para o poema, o ouvido é aguçado como o olhar.

Kandinsky utiliza o olhar por cima do muro para tirar proveito das artes vizinhas, ou seja, colorismo em música e ritmos em pintura. O motor dessas máquinas do fazer é sem dúvida o desejo, uma finalidade inconsciente, mas existente. O conteúdo da obra de arte, segundo o pintor, é o desejo, a princípio vago, que o artista quer materializar. Murilo nos faz ouvir o que o quadro tem a dizer, sentir suas cores, vivenciar o tempo da tela: olha por cima do muro e ouve ruídos de todos os lados. Para Deleuze, a música tem uma força territorializante maior.

Ritmos constantes e desordenados são característicos de muitos pintores citados por Murilo, algo que, em “Formação de Discoteca“, o poeta-crítico chama de inteligência ordenadora, mesmo que perante o caos dos sentidos. A inteligência ordenadora atua em Gastone Biggi nos pontos e nas figuras geométricas ritmadas e progressivas num contexto tecnológico de fragmentos mecânicos. Murilo afirma que o esquema geométrico instaura algo de vivo na tela mesmo que se dissolva nos objetos, como em Giorgio Morandi. Em Giuseppe Capogrossi, Murilo observa uma operação eletrônica onde o signo se fecha na tela e se abre ao fruidor, instaurando uma presença metálica. Através dos fragmentos dentados, da presença mecânica como dos seus próprios símbolos torcitários, Murilo elenca uma predileção por certos instrumentos, certas operações e, sobretudo, sobre a geometria da tela. Reduzir e captar a essência, eis um provável fator de incorporação do signo ao quadro através do olho que se torna “mão” do rosto, podendo “tocar” certos objetos e doar-lhes vida estética.

Nas crônicas musicais, como nas críticas de arte, existe a possibilidade de conhecer o artista através de Murilo por meio de suas transgressões e (re)criações. Percebemos a polifonia do coro (o indivíduo polifônico vence o coro), a melodia, a inteligência ordenadora e o papel do espectador. O espectador mostra outro tipo de postura e é convidado a participar da obra, a experienciá-la com seus sentidos (aqui sim, livramo-nos da ditadura do olhar: a arte envolve outros sentidos, passamos a tocar a obra de arte, a cheirá-la em formas cada vez mais maleáveis e efêmeras).

Já em 1931, num pequeno texto de Boletim Ariel, Murilo Mendes apontava a crise da pintura, relacionando-a com o surgimento da fotografia e do cinema, versado sobre um valor capitalista de arte, excluindo a idéia de arte puramente decorativa, assumindo caráter universal. As mudanças de concepção estética e o aprimoramento do conhecimento sobre as artes mudam o pensamento do poeta. Ao caracterizar o quadro como um “texto”, porém “plástico”, o crítico delega o poder da palavra ao quadro.

Enquanto outros falam da técnica, da história da arte, Murilo dá ênfase ao método de composição da tela, à percepção, ao pintor — mais que ultrapassar o plástico e atingir a poesia é ultrapassar a poesia e atingir o plástico. A teoria da contaminação poética de Murilo, que é clara aos olhos e enigmática à percepção, contradiz uma assertiva do próprio poeta: “a poesia habita um mundo, a prosa outro”. Os escritos de Murilo provam o contrário: na prática, a teoria é outra. A TRAMA poética tecida por Murilo (atentos que tramar é sinônimo de engendrar), tanto em poesias como em prosas, prova que os dois estilos co-dividem o mesmo espaço tranqüilamente, num contínuo processo de entrelaçamento experimental.


* Daniela Bunn mora em Florianópolis e é doutoranda em Literatura na Universidade Federal de Santa Catarina. (danibunn@yahoo.com.br)

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TUDO MUITO RÁPIDO


Tudo muito rápido, sem profundidade, sem elos.

Todos querem respostas imediatas para seus interesses e deglutições.

A morte os olha, os acompanha, os mostra veios corroídos

Pela fatalidade do instante que nos leva para os túmulos.

Continuamos perdidos, desamparados interiormente,

Movidos a impaciência e a desassossegos, atrelados a dores e vazios.

O homem reclama da falta de tempo, não se acha, se atrasa, era após era,

Nesse vôo em si mesmo, que nunca se realiza por completo.

Há muito desespero, muita ganância, olhares desconfiados,

Um medo de ir além do que se pode ir.

O amanhã nos encontrará mais atormentados do que já somos,

Nos trairá, nos locomoverá para abismos e ilhas aflitas.

E nesse ir e vir de tensões e comunhões espatifadas,

Nos sentiremos piores, atores indefesos, meninos perdidos a caminho

De suas próprias casas.

A pressa tomou conta de nossos corações, nos desnorteou,

Nos fechou para nós mesmos, nos aprisionou,

Nos condicionou a não acreditarmos em nossos sonhos,

Nos transportou para espaços escuros,

Abertos a fadigas e contratempos.

As vinte e quatro horas do dia, de repente, ficaram muito curtas.

Cada um vive sua individualidade procurando deturpar a do outro.

O espírito se confunde, se funde ao que não se sabe, não cabe em si

De descontentamento e renúncia.

O futuro trará mais incertezas,

A certeza de que permanecemos ruins, rudes, sugados

Pela ausência, filhos de um tempo que não traz respostas,

Que isola e fere os sensíveis,

Que intranqüiliza a alma.

O instante é de indelicadeza, de alheamento.

Aroldo Ferreira Leão, Petrolina, 01/08/2007.


ESTE É O TEMPO


Este é o tempo em que os homens se angustiam e se desprezam com intensidade,

Se descobrem frágeis e aboletados por desgostos e insuficiências renais.

Este é o tempo dos desencontros, das desconversas, das mentiras.

A falta de sensibilidade é gritante, dá medo.

Uns correm pra cá outros pra acolá, se entediam, se frustram.

Os assombros são freqüentes. A realidade pune, cobra, culpa, mata.

Viver é cada vez mais difícil, temeroso. Ser gente é ser cúmplice das desconfianças

E das trapaças, alicerçar em si o ódio e a ganância, enganar e ser enganado.

A alma é confundida e sacudida a todo instante, surrupiada,

Moldada para não evoluir, travada, estruturada nas fugas e nos óbitos.

Em qualquer circunstância, somos traiçoeiros, manipuladores.

Há vozes em nossos interiores que não nos acordam,

Que nos encontram embalados pela musicalidade dos mofos e dos vermes.

Os velórios se multiplicam nos corações apressados, o dia-a-dia consome, some com muitos.

A verdade beija a face da criança que nunca deixamos de ser,

Compreende nossos desníveis e necessidades, nos conduz por veios que não nos secam,

Interpreta nossas vivências e temores, nos traz silêncio, vida.

Cada um é responsável pelo espírito que o guia e o transforma

Naquilo que ele poderá vir a se transformar, testemunha decadente de si mesmo.

Renascer é preciso, mas o processo é mais demorado do que se pensa.

Avançar, avançar com cuidado. Ouvir mais, estar atento a tudo.

Traduzir-se no tempo, nas perplexidades, nas fatalidades.

Reconstruir-se, refazer-se, renovar-se, reafirmar-se em si.

Sustentar-se nos sonhos, refletir-se nas impossibilidades,

Reorientar-se na busca dos próprios segredos,

Vivenciar-se, serenizar-se, olhar-se fundo, humanizar-se.

Aroldo Ferreira Leão, Petrolina, 22/09/2007.


Os poemas acima são do livro A alma que se desconhece, de Aroldo Ferreira Leão, a mais poderosa, comovente e intrigante metralhadora de escritura em poesia brasileira contemporânea. Aroldo Leão é uma alma sem descanso, uma força de uma vitalidade que conhece a morte de perto, de dentro de suas entranhas. Este poeta me vem sempre com um golpe do peso de uma lágrima no gesto de um sorriso. Ele é poeta sabedor de sílabas, sabedor de medidas, sabedor dos miasmas da gente doída que somos, das pessoas cada vez mais vivendo para mais dentro do guarda-roupa. Aroldo Leão tem uma mão singular. Esta é capaz de, como espectro preciso, penetrar nosso peito pela carne, sem fazer alarde e sem rasgá-la. Penetrando nosso peito, este poeta faz sua mão singular nos alcançar pelo coração, e agarrá-lo e afagá-lo, dizendo: Vem comigo e eu mostrarei a vocês até onde a humanidade chegou. Senhor da linguagem que habita todas as possíveis dores e todos os possíveis júbilos humanos; dores e júbilos que existiram, que existem e que ainda existirão. Mas vocês, leitoresnautas, somente saberão disso que falo se lerem Aroldo Leão com o cuidado da alma que não se apascenta, e que, mesmo quando se apascenta, permite-se romper com gás de grito e gás de beijo e gás de saliva e gás de suor, bailando nos pavimentos mais interiores da inteligência. Cuidado volvido a calma. Volvido a vapor de vontade. Cuidado de uma emoção que asa enquanto canta, e cantando lágrima. Por isso, voltem lá, leiam-no de novo. E, lendo-o novamente, sintam em cada estalido de seus ossos como ler Aroldo Leão é próprio de tornar-se sabedor de que a humanidade se sustém em sentir nojo e medo e amor e desprezo simultaneamente.

jamesson buarque


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Primeiro segredo


Caminhando contra o tempo

Passeando por minhas recordações

num tempo em que eu tomava baré tutti-frutti

Enquanto tantos se envergonham

do passado, um passado que mora ao lado

do lado de dentro das minhas emoções

Sou criança: menino bonito ai, menino bonito ai

Irritantemente adorável

Das lembranças que tenho de meu pai,

sou o filho que ele sempre quis ter, e ver crescer

— Vai trabalhar, meu filho, vai!

— Vai trabalhar, meu filho

Pai, o mundo não é meu nem seu

Você não disse

que a velhice iria nos perseguir por toda a vida

até que ela me encontrasse

Ah, se todos se perguntassem quantos anos têm

saberíamos de pessoas com mais de cem eu

Tenho saudade cansada dos problemas que eu já resolvi

tenho saudade de casa, cada caso um reflexo de si

tenho saudade da rua onde cresci e sentia um pouco de medo

hoje toneladas de ódio asfaltam meu primeiro segredo

Quem não tem medo, meu amigo, do inimigo do tempo?

que faz com que o vento sopre em nossas caras

a verdade de que tudo passa

Somos a massa da poeira estelar

Somos a massa da poeira estelar

Somos a massa A massa Que massa

Hei de confessar que eu tenho medo daquilo que entope a aorta

eu tenho medo de quem se esconde atrás da porta e não quer entrar

Somos a massa da poeira estelar

Tudo porque a idade chegou

O peso da idade chegou, meu pai

Tenho saudade cansada dos problemas que eu já resolvi

tenho saudade de casa, cada caso um reflexo de si

tenho saudade da rua onde crescia e senti um pouco de medo

hoje toneladas de ódio asfaltam meu primeiro segredo

Meus cuidados te roubaram meu passado, pequeno.



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Reginaldo Mesquita

bacharel em letras e lingüística pela ufg (ensino e pesquisa em letras — português, literatura e línguas estrangeiras: inglês, francês e latim),
costureiro,
professor de expressão corporal,
recepcionista e secretário de escola de idiomas,
produtor executivo do 1º álbum da actemia — "Com licença Dona cidade",
atendente de call center — vivo,
monitor de latim na faculdade de letras da ufg,
diretor assistente do curta-metragem *cuecas,
diretor assistente do curta-metragem *uma questão de mídia,
diretor assistente e co-roteirista do curta-metragem *a padaria,
(*todos estes curtas são da christianfilmes, direção de christian mariano)
corretor de redações e de provas de literatura e língua portuguesa,
professor de música, inglês e português,
experiência nas áreas de dança, teatro e música desde os 15,
trabalha no cinema desde os 20.

grupos nos quais já trabalhou:
grupo tribbus de dança contemporânea, coreógrafo: eurim pablo borges pinho —
corpo de baile da escola de artes veiga valle
grupo de teatro arte e fatos da ucg, direção: danilo alencar
cia de teatro abaporu, direção: eduardo de souza

grupos nos quais atua:
banda actemia
fanzine literário demo cognítio
banda toc-toc
christianfilmes produções audiovisuais

links:
www.reginaldomesquita.blogspot.com
www.tramavirtual.com.br/actemia




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Venho explorando em meus trabalhos a personagem Madame Bovary, protagonista do livro homônimo de Gustave Flaubert. Tive uma identificação com a personagem. A angústia, o tédio, a idealização romântica, a frustração no casamento e na vida, a alma inquieta, a falta de afinidades com seu meio, enfim, tudo o que compõe a personagem também faz parte, obviamente, do universo feminino não-fictício. E para abordar essa questão de gênero, utilizo a impressão de rendas que remetem ao vestido de noiva e ao casamento.


Sylvana Lobo


Sylvana Lobo nasceu em 1979, no interior de Goiás. Em 2001, morando em Goiânia, formou-se em Direito, mas não exerceu a profissão. Em 2005, concluiu o curso de graduação em Artes Visuais na Universidade Federal de Goiás. Sua produção começou no período da faculdade de Artes, com a atenção voltada para as linguagens pictórica e fotográfica. Deste então, vem participando de algumas exposições, como o 7º Salão de Artes Visuais de Guarulhos/SP (2007); "Madame Bovary sou eu" — individual e realizada no Teatro Nacional, em Brasília/DF (2007); 5º e 6º Salão de Artes Visuais do Museu de Arte Contemporânea de Jataí/GO (2006 e 2007); XXIX Concurso Novos Valores, na Fundação Jaime Câmara, em Goiânia/GO (2006); "Vetores", no Museu de Arte de Goiânia/GO (2005).

http://www.sylvanalobo.com/

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Bryan Holmes é chileno, filho de mãe servo-croata e pai inglês, e mora no Rio. Ou seja, é um autêntico brasileiro. Em “Altrenativa”, o compositor nos surpreende com uma viagem em que um piano e um violino se transmutam em trens, motosserras e coisas de um outro planeta. Música com imaginação e senso de humor.

Paulo Guicheney

Altrenativa (2003) - violino e piano

Esta obra programática representa reminiscências da infância do compositor, específicamente de sua primeira viagem ao sul do Chile, de trem. A viagem começa com o duo em potente rítmica, imitando o trem, até frear, passar por uma estação, continuar, etc. Ao chegar ao destino, a beleza da floresta nativa e o deslumbramento pueril são evocados no solo do piano, de carácter contemplativo, onde o pedal é pressionado e mantido até o final da seção. Logo o violino irrompe violentamente, evocando uma moto-serra numa improvisação brutal, acompanhado do piano, insinuando nesta parte a devastação da floresta pelas companhias madeireiras, causando comoção. Mais uma improvisação do violino, desta vez em glissandi contínuos e agitados, leva à reexposição do tema do trem através do acompanhamento de piano e assim, como se estivesse voltando, a obra é encerrada com um cluster do antebraço esquerdo que finaliza o gradativo “frenando” indicado na partitura.

Gravada no Teatro Municipal de Valparaíso, Chile, e publicada no CD Caleidoscopio.

Estreada por Sebastián Rojas (vln) e Priscila Vergara (pno) no salão de honor do Instituto Chileno-Norteamericano de Cultura de Valparaíso, 21 de novembro de 2003.

Editada por PERIFERIA Sheet Music Barcelona:

http://www.periferiamusic.com/eng/detalle.php?id=144



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Bryan Holmes [Chile, 1981] É Bacharel em Ciências e Artes Musicais pela Pontificia Universidad Católica de Valparaíso, Chile, onde estudou composição e orquestração com Eduardo Cáceres. Em 2007 ingressou no Mestrado em Composição da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, como bolsista da CAPES. Compositor e multi-instrumentista, tem participado na área da música erudita e em diversas bandas de música experimental, rock, etno-folklore, eletrônica, etc. Compôs para os formatos solista, de câmara, coral, sinfônico e eletroacústico e trabalhou com cinema, dança, teatro, televisão e rádio. Como regente estreou obras de câmara de diversos compositores em prestigiosos teatros e salas de concerto em Valparaíso, Viña del Mar, Santiago e Rio de Janeiro. Em 2004 venceu o primeiro concurso de composição “Darwin Vargas W”, realizado em Viña del Mar. Sua música foi publicada em alguns CDs independentes, um deles com distribuição internacional, e em partituras pela editora PERIFEIRA Sheet Music de Barcelona, Espanha. Estreou suas obras em diferentes cidades da América Latina e atuou como produtor musical em Valparaíso, onde organizou concertos, gravações, instalações, happenings, festivais, etc., com apoios do Conselho Nacional da Cultura e das Artes do Chile, do Fondo de Fomento à Música Nacional, do Governo e da Prefeitura de Valparaíso e da PUCV. Foi fundador da Associação de Música Contemporânea de Valparaíso e é membro da Rede de Arte Sonora Latino-americana e da Comunidade Eletroacústica do Chile.

www.bryanholmes.net



Cova do Corvo



“Enciclopédia saída do silêncio: uma mulher enterrada em teias, um rosto dissipado na cidade e não sei se Chaplim virou Da Vinci ou se um fantasma atravessou meus olhos e me mergulhou num poço. Essas são notícias de Fred Martins.”

Jamesson Buarque






















Frederico Assunção Martins

Frederico é responsável pela identidade visual da Revista Ruído Branco desde de a sua criação. Fred é contra-baixista e também explora as mais diversas linguagens de criação artística.
E-mail: selfgrind@yahoo.com.br



Gargântua



Leitor,

Atendendo a pedidos, cedi e escrevi mais um de meus Discursos de Entretenimento Útil e Saudável (D.E.U.S.).

TISSOT

Discurso no qual se pretende mostrar como nosso Deus muito aprendeu sobre os progressos medicinais do século XVIII

Em 1760, o doutor Tissot, médico suíço, descreve a doença segundo os termos de Hipócrates. Acrescenta procedimentos inovadores à sua receita de cura, desconhecidos na época de seus predecessores e mais apropriados à moral de seu tempo. Mas sua maior contribuição foi, sem dúvida, ter revestido de medicinal e científico o que não passava de lorota religiosa. Deus pensava: vou conseguir finalmente livrar-me de certos aborrecimentos.

Tissot entoava.

Quando o doente encontra-se em mau estado é preciso dar-lhe um remédio que o faça vomitar, depois um outro que o purgue a cabeça e em seguida um que o purgue pelas partes baixas. Não se esqueçam de que essa cura se faz sobretudo a partir do outono. Depois dos purgativos, daremos ao criminoso um leitinho com azeitonas durante quarenta dias. Nesse período, ele não comerá carne e evitará qualquer exercício venéreo e fará caminhadas longe do frio e do sol. Nos dias que seguirão esse primeiro tratamento, dar-lhe-emos uma flanela perfumada de incenso para que ele friccione os rins, a virilha, o pênis (se o criminoso masturbador for homem) e o clitóris (no caso de um criminoso masturbador do sexo frágil). Somente na última fase da cura é que os remédios secretos prescritos pela Onania Inglesa poderão ser administrados localmente. São eles: the strenthening tincture e the prolific powder.

Por uma questão de controle de qualidade, Deus tomou a iniciativa e foi, ele próprio, o primeiro a provar os remédios. Procurou o pintinho no meio daqueles mantos todos, pediu o frasco para Tissot e aplicou, como indicava o médico, um depois do outro, primeiro the strenthening tincture, em seguida the prolific powder. Putz!, eram fortes mesmo. Deu um revertério do diabo no Santo Senhor. No princípio foi a pele. Talvez Tissot tivesse exagerado no óleo de alcatrão mineral, porque o revestimento do Velho foi minguando e escurecendo feito carvão gasto. Ardia, gelava, ardia, gelava, num desconforto que vendo. Depois de meia hora de muita reza, conseguiram abrandar aquela pena toda. Deus olhou feio para os olhos de Tissot, que a essa altura eram pura misericórdia. Continuou olhando até não ver mais nada. Ou melhor, até ver coisas. Tissot talvez tivesse exagerado no pirocatecol. O Todo Poderoso babava e alucinava. Imaginem vocês a cena: o Velho Divino avistando o céu no lugar do inferno e vice-versa. Aquela anjarada privada de asas despencando na Terra, e a Terra, quem diria, redonda rodopiando e contornando o sol, não é possível: Galileu, Copérnico e o cosmos inteiro rindo, gargalhando, que pesadelo!

Mas que idéia. Tanto vagabundo, tanto leproso, tanto aleijado, tanto mongolóide, tanto preto, tanto sarraceno, tanto pagão, tanto infiel, tanto homem rapariga, tanta mulher devassa, tanta criança, tanto poeta, enfim, tantos sub-seres mais adequados à condição de cobaia e Deus foi eleger a si próprio para provar a maldita fórmula do suíço. É certo, não perdoaria nunca nem a si nem ao bruxo do Tissot.

estava elaborando a punição quando o excesso de C7H8O (Tissot talvez tivesse exagerado no ácido) correu e corroeu-lhe de vez as tripas. Deus berrou! não morreu ali mesmo porque era Deus. Mas o que sobrou do Divino era um espetáculo cujo horror desagradaria o mais robusto dos cristãos: uma espécie de cadáver, magricela, sujo, fétido, despejando pelo nariz um sangue pálido e aquoso, a carne e os ossos convulsionando, os olhos caçando moscas, o ânus diarreiando e a boca com nenhuma ou quase nenhuma respiração. Sem falar na desordem do espírito, incapaz de restabelecer o fluxo da memória nem de colar uma frase na outra: mim Deus, vós também, vós mim, mim também vós, masturbadores, assim seja, amém, Tissot, Copérnico, diabos, viva Galileu, viva Galileu...

Ninguém entendia uma vírgula.

É verdade, o quadro acima descrito era de uma bestialidade tremenda Não fossem os fiéis de Deus adoradores de sangue e chagas, tão ávidos por brutalidade, não se escusaria a impetuosa fidelidade deste relato.

O fato é que mal se reconhecia naquela figura babando no chão o herói que reinara outrora no céu e em todas as coisas. Dava .

Para alguns, entretanto, pecado maior era o fato de, depois de tanto sofrimento, o nome de Deus, tão pronunciado em todas as esferas do monoteísmo mundial, ter perdido para o nome de Tissot, um reles curandeiro suíço, o privilégio de dar o título a este discurso. Isso, sim, imperdoável.






Nereu Afonso da Silva

Nereu Afonso da Silva nasceu em São Paulo, em 1970. É autor de Correio Litorâneo, Editora Record, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006, na categoria contos. Formado em filosofia pela USP, enveredou para o teatro. Foi um dos Doutores da Alegria (palhaços em hospitais). Hoje vive na França, onde escreve, atua, leciona e dirige para o teatro. Mantém o blog http://bombyx.wordpress.com.
E-mail: nereu.afonsodasilva@neuf.fr



Hexercício Íbrido


Primeiro Adiamento

Ela precisa de lâminas como quem precisa de águas.


Adiamento Segundo

Tendo impressões de medo
Tendo impressões de sono
Tendo impressões de vida

Pegou uma lâmina, um creme de barbear. Então cortou uma lágrima no meio. Não era pelo cabelo que caía. Não era. Por isso. Totalmente lisa a pele, escorregada nos azulejos tingidos dos pretos cabelos, livres. Os pêlos estavam livres. Uma xícara de café frio. Outra angústia nos olhos. Não havia . Por quê? Era o muito sono que trincava as paredes daquele estábulo interno. Cavalo deitado. Silêncio. Sugou o nariz. O rosto gemia. Suavam os olhos. Empurrava. Pra que direção, soluço. Olhou para trás. De que lhe adiantavam varas, cosméticos, palavras, portas. Gritos sufocados. Chá. Debaixo da cama com dedos. Erros. Sucos. O leite em pó caindo da prateleira. Pernas cruzadas. Botões, botões, botões. Infinito um botão, impalpável. Serragens. Cabelos que doíam. Por para que doíam? Esticados, ficavam os sorrisos. Águas depois, sempre, todavia. Mais calma, mais calmo. Calos. Perebas, aonde. Nos fios. Penetravam os fios. As pedras entravam pelos pêlos joelhos. Furúnculos na bunda. Espelhos entre os dedos. Rasgos de gilete. Hematomas de depilação. Tudo entrando pelos fios. Um garfo cravado na mão do outro. Também saiu pelo cabo, e entrou pelo cílio. Fincou. Ferpas. Abobrinha e arroz, abobrinha e arroz, abobrinha e arroz. É como Perdas Vãos Acúmulos Nada Nada Nada Salva do afogamento Era uma casa muito engraçada não tinha teto não tinha Nada Nariz escorrendo no banheiro cabeludo A pele lisa pra não mais entrar Nada Sempre agora Nada Substituir as saudades depois Nada


Adiamento III

Campainha que não se move na sua anunciação.


Quarto

Adiamento

Colocou o sorriso do guarda no bolso. Bolso furado. Memórias amarelas carcomidas pela gravidade. As coisas caem, ela pensava. O guarda sorria sempre. Sorria como se não fosse guarda, como se não fosse roubado todo mês, como se ela não sofresse andar. A imagem daqueles dentes óculos bigode negro na parede do quarto sob a luz dos faróis. Reacendendo. Fogos de artifício, não. Boa tarde como quem passa pela árvore de todos os dias da mesma esquina, não. Dentes esticados e bochecha dolorida ao fim dos dias, não. Era um guarda que sorria no seu quarto escuro. Teria filhos, teria mulher, teria algemas? Teria medo, teria angústia, teria ódio? Teria aquele sorriso destroçado nos cacos do milésimo espelho cortado entre os dedos? Teria vômito dos azulejos com detergente? Teria inveja, epitáfio, sujeira? Teria pelos? Ânsia de desaparecer de todos os sorrisos e de não ter mais que tê-los? De pulos? Teria medo? Teria outro uniforme? Teria domingos de feira e missa? Teria brinquedo, brincado? Coragem. Com que mais audácia poria acima de tudo isso aquele? Com que mais humor fitaria os olhos doando pedaços? Com mais que terno assombraria um quarto daquele? Os carros diminuem, as horas aumentam, os dias não acabam. Pena não foi ter colocado o maldito sorriso do guarda no bolso. Pena o bolso ter furado. Suas pernas agora esfriavam não de morte. Pelos fios entrava descarnado o. Comia sua carne e roía seu osso, enfiando-se no branco turvo da memória. Amarelecendo. Sol. Sono.


Quinto adiamento

Sem mais palavras o desespero solta as sedas
Cobrindo-a
Sedando-a
Consumindo mais que com garras.
Estratégias de dor.

Novamente as lâmpadas opacas.
O velho pudor de novo
Joelhos e mãos:
abraço.
O ninho eterno do nunca mais a-feto.
Salivas nos dentes salgados
Doce ninar da respiração.

Batidas na porta
adiam
mais um quinto de chão.


Adiamento 6

. Não, nada. Isso se torna divertido depois que a consciência da inutilidade se torna. Voltando para. No início novamente. Outro começo. As primeiras linhas são sempre bem-vindas, por introdutórias. Antes dessa, aquela. Eu comecei tantas vezes. De trás pra frente. Adiamento. Sobre o. Ela era assim dessa definição vaga até então errônea talvez sempre. Não, ela não se entusiasmava muito. Ela era assim um pouco, diria ou não, entusiasmada com o nada. E com cortes, lâminas. E com espelhos, quebrados. Com o vazio. Com o opaco. Com a aceitação alheia. Com os reflexos insones de noite enquanto dormia de dia. É, talvez seja ela mais entusiasmada que se pensa. Principalmente superfície limpa. A superfície lisa. Os fios podados. Os fios crescendo podados. Tudo, acreditava, entrava-lhe pelos fios, pêlos, cílios. Dessa forma, óbvio, não tinha portanto nada. Sim? As dores voltavam. Os cortes. Como lembranças que escapam no intervalo de um cheiro voltado. Indecifrável não é. Longínquo quem sabe. De qualquer modo inútil. Ela não está presente agora.


IIIIIII Adiamento

Seus dentes rangidos

ocultando ruídos da alma mais cariados.

As grades perfurando os rins

a púbis

o seio.

A inércia do sentimento

colégio que nunca cursou.

O cabelo crespo gasto podre

de uma boneca que nunca queimou.

As cinzas dos cigarros fumados pelo ar

As horas dos relógios mastigados pelos cães.

As saias das brincadeiras do vento.

As migalhas dos recreios poupados.


Não pela dor da ausência da ausência

de presença alguma

Não pelo barbeador cego e sangrado

Não pelas mãos enrugadas de água

Não pela escuridão do quarto, do beco, do mundo

Não pela urina meio amarga

Não pelo chão

Pelas janelas abertas

Pelas folhas despejadas

Pelos bueiros

Pelo fim.

Não pela mesma porta que é entrada e saída.

Não existir pela vida

Tampouco deixar pela morte.

Não por nada

Não Perturbe Nunca

a perturbação eterna.



__________________

MISSIVA DO POETA, CRÍTICO LITERÁRIO E PROFESSOR JAMESSON BUARQUE À POETA DHEYNE DE SOUZA

Sobre “Adiamentos” de I a IIIIIII:


Muitas vezes a poesia se esconde querendo ser nós mesmos. Por isso o formato de um poema ora tem formato de sino apto a soar sílabas, ora tem formato de respiração, ora tem formato do intervalo entre a dor que aponta na ponta da cabeça (para aguilhoar os olhos) e o apito da panela de pressão. É poeta com um programa estético resolvido, em processo ou incipiente, quem consegue transitar em no mínimo dois destes formatos. Obviamente, isso não é uma engenharia perniciosa. Há uma série de variações dentre um formato e outro e há, também, e isto é bom, muitíssima promiscuidade entre eles. É preciso, didaticamente, dividir os formatos para saber como nossa fala fala se dizendo poesia. Espero que entenda assim meu modelo de formatos. E eles não são paradigmáticos. Quando ouvi sua leitura dos “Adiamentos”, naquele dia no Sesc, fiquei com um intervalo fremindo labaredas de sorrisos na ponta da úvula. O que é isso? A poesia falando em no mínimo dois daqueles formatos. Você respira pelos passos da dor. Sabendo disso, no espírito e, quiçá, no albergue do raciocínio — o que menos vem ao caso —, você se desmede numa medida apropriada para cantar. Por que o “Adiamento Primeiro” é um aforismo? Porque você precisou fundar um mundo. Os “Adiamentos” formam um mundo possível numa possibilidade de mundos dentro do mundo que chamamos de realidade. (Essa é a fala mais recorrente de minha fala, porque ela é tão resolvida em minha reflexão que, uma vez que encontro a poesia de fato, preciso dizê-la à voz da autoria.) Os mundos são fundados por aforismos — desígnio óvulo-seminal da palavra, sobretudo, da palavra de dizer poesia. Todo mundo no Ocidente sabe que no princípio havia somente águas e que o poder de Deus pairava sobre elas. Há uma necessidade de águas toda vez que um mundo se assinala, por isso os deuses, em uníssono, são todos hidroglotas. Para começar o mundo possível dos “Adiamentos”, a potência coabitada por sua inteligência e sensibilidade golpeia seu martelo no nada, e das faíscas você fez escorrer o mundo de “ela”, senhora e súdita e casa e carta de “o”. Seu mundo começa de uma contração. Você se contrai, e porque toda contração é para dentro, você implode o fora gesticulando nada. Da implosão, de toda implosão, nasce o mais dentro ainda do que para dentro. E lá, toda a humanidade um dia, ou segundo que seja, faz hora. Em minha poesia, a mitologia que fiz para mim é quadrimórfica, a sua é unimórfica. A minha tem quadro formas porque sou hiperbólico desde as primeiras unhas — e não por haver melhor ou pior qualidade estética em relação a sua. Há o Vale que vale verde, a livroteca, o travesseiro e as ruas. Para tanto, preciso de quatro vozes: eu, Ranar, Manno e Jamesson Buarque. O primeiro se basta em verbo. O segundo foi inventado pela palavra, mas tem formato de sonho. O terceiro tem cinco anos e mora no canto mais canhoto de minha aorta — ele é cardilátero ao sinistro (sinistrus, -a, -um: adj. canhoto, esquerdo, gauche). O quarto tem formato de biografia e se movimenta em nome do amor. Em seu mundo possível você só precisa de uma voz: “ela”. E da sensibilidade indelével dela, “o” brota seu corpo lipogramático de nada. E isso é tão belo! Talvez você nem saiba como comove! Digo isso porque é próprio de tanta destreza escapar dos dedos da voz-que-fala-o-poema. Fundado o mundo, como Deus coabitou as águas e se vez verbo até que o verbo cresceu pelo fermento das horas e se fez carne, você apresenta o mundo. Dispõe-no diante de nossos olhos. O mundo, dali, é uma casa casada com todas as partes: cozinha, quarto, sala e banheiro são todos os lugares ao mesmo tempo e povoam todas as pessoas possíveis — que existiram, existem e existirão —, uma vez que o feminino é a essência plantada nas veias daquele mundo. Tudo nasce no feminino: casa, ilha, cidade, palavra, língua, sílaba, poesia, carta, cama, pessoa, gente, vida, alma, morte, paz, guerra, prosa, lâmina e as pernas que nos levam para dentro do mais dentro ainda possível. Em seus “Adiamentos”, os símbolos “lâminas” e “águas” são o feminino que lambem os demais símbolos, e, lambendo-os, metamorfoseiam-nos em feminino também: espelho, nada, o, amarelo, pêlos e fios e cílios, joelhos e mãos e dedos. E porque tudo acaba em livro, até o livro é feminino, porque não há livro sem formato de páginas. O “Adiamento Segundo” é a paisagem do mundo. Sua narradora, voz única que nos possibilita que “ela” nos apareça em toda humana problemática, é certamente “ela” mesma quando na ausência de fala. Então porque o formato de prosema — que não é poema em prosa nem prosa em poema, é uma forma que fala pela respiração da poesia e conta idioma de enredo — neste “Adiamento Segundo”? Porque somente um mundo incipiente poderia ficar no meio termo que é termo para o -∞ e termo para o +∞: termo de tudo. Não cabe a apresentação de um mundo em um aforismo; em aforismo cabe a fundação do mundo: Fiat lucem!, diriam os sabedores da Igreja. O “Adiamento III” é outro aforismo. Nele há, indubitavelmente, uma materialização exemplar do formato da poesia quando é igual ao formato do intervalo entre a dor que aponta na ponta da cabeça (para aguilhoar os olhos) e o apito da panela de pressão. Ali é o lugar do silêncio. Diriam os sabedores da suposta pós-modernidade: é o não-lugar. Um dia Manoel de Barros fotografou o silêncio, sabia? Verdade, a Goiandira viu a fotografia. Pede a ela para ver também. Veio em formato de poema, é claro! Somente a música, a matemática, a dança, as artes plásticas (e visuais) e a poesia (com a prosa dentro) são capazes de fotografar o silêncio. Seu “Adiamento III” é aquele momento da vida humana em que nos perguntamos: e agora? O mundo nasceu, a casa está (des)pronta… o que fazer? Para tanto, você responde com mais um prosema: casar. Sem acasalamento a fundação de um mundo jamais toma destino de reticências. E como casar sempre escapa pelos dedos, ao entrar e sair simultaneamente, burlando a lógica descarteana da física clássica, você, no formato preciso das orações rápidas, dos sintagmas nominais que sustam o predicado por força de zeugma, convida o caos. O acasalamento sempre é um problema. Sem problemas, as coisas param e se esquecem até de serem fósseis. Ninguém presta atenção nos próprios olhos até que os olhos comecem a doer. Há um poema, “The waste broethels 1, 2 e 3”, de Gerardo Mello Mourão, escrito por reminiscência de The waste land, de T. S. Eliot, e que fala da derruição da casa de Dora Ferreira da Silva, que seria interessante que você lesse. Na verdade, seria interessante que lesse os dois. Seus “Adiamentos” estão prontos. Não carecem de retífica. Só indico a leitura para que você goze, se quiser, do prazer de dialogar com a construção estetizada da destruição de um mundo, via duas vozes altíssimas da poesia ocidental. (Leia-se: estetizar é converter matéria e discurso, por força de racionalização intuída, em arte: harmonia sócio-historial de grotesco e belo em variações infinitas. Em termos práticos: se Camões quisesse escrever a história de Portugal até sua época, ele simplesmente não teria feito Os lusíadas, teria feito um ensaio, como João de Barros o fez.) No primeiro “Adiamento” em formato de poema, o “Quinto”, o mundo está pronto: “Sem mais palavras o desespero solta as sedas”. O mundo pronto, ou cosmos, dos “Adiamentos” é uma saborosa transgressão: a aceitação da derruição provocada pela contração supracontraída de “ela” gera uma estabilidade ou estado de equilíbrio dentro de um todo de fagulhas que ululam na concomitância de retas e curvas, como se jamais houvesse sido possível o absurdo: “Batidas na porta/ adiam/ mais um quinto de chão”. Não há mais o que fazer; a casa de “ela” em “o” é não ou onde. Tanto é verdade que adiante, no “Adiamento Sexto”, você, pela primeira vez, encarna nos beiços com cacos falando do cântico da goela o formato de caos do mundo de “ela” sobre “o”. Este novo “Adiamento” é uma metalinguagem comovente! Você nunca saberá como vibrei quando cheguei a ele! Não vibraria se o lesse separadamente. Acho que seria chato. O desmonte da linguagem nele parece retórica de contracultura ou de malabarismos lingüísticos — e nada contra uma coisa ou outra. Mas não é. É preciso estar muito apressado para não enxergar o que há ali. A pressa é um problema sério. Inclusive, se me permite mais uma digressão, é ela responsável pelo fracasso de resposta do leitor-possível do Novíssimo testamento. O poema-livro que lancei vendeu feito água, afinal, tive mais aluno no Estado de Goiás do que tive em minha vida toda. E, ainda por cima, o Gismair e o Rogério, que foram meus colegas de mestrado, fizeram uma página toda dO Popular a respeito. Depois, veio Micheliny Verunschk e divulgou o livro na revista EntreLivros, que tem alcance nacional. O leitor apressado jamais conseguirá ler o Novíssimo testamento, como chama atenção, no posfácio do livro, o poeta Aroldo Ferreira Leão. O leitor apressado, reservadas as diferenças de beleza de sua poesia em contrapartida da minha, também jamais conseguirá sofrer seu despedaçamento da linguagem, sua fineza metalingüística de não dizer a linguagem com a linguagem mesma, mas de sê-la e sofrê-la, porque voz e discurso e forma não poderiam ser mais outra coisa. E porque quando estamos diante do caos e somente o resta e, por isso, ele se torna cosmos, uma vez que a única ordem possível é a impossibilidade de ordem, restam as lâminas em pêlos dissipados em águas pelo mundo, se não juntar, pelo menos desfilar aleatoriamente os fragmentos de tudo. Dessa maneira é que sofri o “Adiamento Sétimo”. Intrigante é que você escolheu para esta parte de exposição dos cacos de tudo a forma de poema novamente. Dheyne, observe que exatamente quando você mais precisou da conformação diante do mundo derruído, quando mais você realmente precisou cantar adiamentos, você usou a forma de poema — toda medida em sintagmas estilhaçados pela respiração que não podia mais sofregar-se: formato de sino apto a soar sílabas. Sua toada de sílabas, é interessante, sai da convulsão que havia antes, entre ritmo binário e ternário aleatoriamente gritados, como quem não agüenta mais o peso angustiante daquela respiração sofrida do prosema e daquele formato interrompido pelo constante “adiamento” das coisas diante do caos.

Estou convencido: você é um exemplo alto do casamento entre inteligência e sensibilidade movidas a palavras que voam ainda que sangrem. E se disse que é, é incontestável. Uso método cartesiano. Mas meu cartesianismo é movido a sorrisos quando sabem flambar lágrimas e fazer de um guarda-roupa um planeta inteiro. Em outras palavras: sou dado ao condão do infinito.

Pérolas dos “Adiamentos” em formato de metáfora:

“Ela precisa de lâminas como quem precisa de águas” (I)

“Então cortou uma lágrima no meio” (II)

“Campainha que não se move na sua anunciação” (III)

“Colocou o sorriso do guarda no bolso. Bolso furado” (IIII)

“Com que mais humor fitaria os olhos doando pedaços?” (IIII)

“Sem mais palavras o desespero solta as sedas” (IIIII)







Dheyne de Souza

Dheyne de Souza nasceu em Cristalândia- TO, cidade menor que Vianópolis-GO, para onde foi com dois anos e que tem menos habitantes que o campus II da ufg e que fica a 96 km de Goiânia, cidade esta em que está, no momento. Dheyne às vezes fala, quase nunca de forma audível e às vezes ri muito, inclusive de si mesma, inclusive é muito engraçada, embora. Dheyne às vezes é bacharel em literatura, às vezes fez letras, às vezes nada. Sempre escreve e voltou a desenhar. Não gosta de comer e seu nome é como Jane, em inglês, vulgo mulher do Tarzan. Dheyne não é mulher de ninguém, o que não é menos perigoso. Ela faz planos, dorme e cai. Fala com vacas.
E-mail: dheyness@gmail. com



Mieloma de Ocasião


CONTЯA O DIA


todos falam inglês muito bem, mas eu não. eu fico pelos cantos, bebericando esse troço que nem sei que nome tem. é um troço amargo, cor de mijo. talvez seja mijo. eles fazem de conta que eu não existo e eu me encaixo relativamente bem nesse papel. não é que eu sinta saudades de casa. não é que eu sinta saudades daquele meu futuro com o qual sonhei tanto, campeão em tudo. eu não falo inglês, mas eles, ora, é claro que falam. e francês. e alemão? pareceu alemão, mas não posso ter certeza. me chamaram pra festa, disso eu tenho certeza. alguém, em algum momento, me chamou pra essa festa. talvez tenha sido um engano. talvez alguém tenha cometido uma gafe formidável e tenha perdido o emprego por conta disso. cabeças rolaram. cabeças sempre rolam. o problema é que eu simplesmente não me encaixo. eu não me encaixava na minha adolescência ébria, todos rolando no tapete ao som de quê, meu deus? não me lembro de nada. tudo bem, eu falo muita merda. eu sempre falo as coisas mais erradas nas horas mais erradas e todos me olham como se eu tivesse cagado no tapete. olham pra mim e eu leio nos olhos deles: esse aí é um fodido completo. não dá pra me levar a sério. simplesmente não dá pra me levar a sério. quem foi o imbecil que, um dia, me levou a sério? porque alguém deve ter feito isso em algum momento. não é possível. campeão em tudo. contra o dia. que dia? há tantos dias, há dias demais. alemão, com certeza. preciso ir ao banheiro mijar. mijar e vomitar. o problema sou eu. me disseram boa noite, senhor quando entrei. sozinho aqui, agora. a uma distância segura. eles não acreditam, simplesmente não crêem. nem eu. é um troço amargo. por que saudades de casa? meu nome está na lista, checaram na entrada. há quem me cumprimente. eu tenho as mãos bonitas. incapaz de dizer qualquer coisa que preste.





André de Leones

André de Leones nasceu em Goiânia no ano da desgraça do nosso senhor eu-sei-que-você-não-existe 1980. É autor do romance "Hoje está um dia morto" (ed. Record), vencedor do Prêmio SESC de Literatura 2005 e na época ele achou que isso significava alguma coisa. Venceu também, com um livro de contos de título engraçado nunca publicado, o Prêmio Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, mas esta piada já é velha. Mantém o blog http://canissapiens.blogspot.com, cheio de piadas mais novas.
E-mail: alleones@gmail.com



Patchwork


Idols of Perversity

Este texto é dedicado, com muito carinho, aos alunos do 2.° ano A, matutino, e do 2.° D, vespertino, da Faculdade de Letras da UFG.

Na passagem do século XIX para o século XX, as mulheres se tornaram criaturas reverenciadas e, ao mesmo tempo, temidas. Bram Dijikstra, no livro Idols of Perversity: Fantasies of Feminine Evel in Fin-de-Siècle Culture (1988), registra a crescente preocupação da sociedade, especificamente dos artistas, em relação ao perigo do poder feminino. Salomé foi o arquétipo da mulher fatal que emergiu na arte da época. Esta femme fatale da mitologia judaico-cristã articulava os perigos do olhar (sedução) e da decapitação (castração).

A peça Salomé, de Oscar Wilde, contribuiu muito para dar à personagem centralidade e autonomia sexual dentro de sua própria história. Wilde escreveu a maior parte do texto de Salomé em Paris, em 1891, possivelmente após ter visto as pinturas de Gustave Moreau sobre o mesmo tema:

Salomé exige a cabeça de João Baptista, de Gustave Moreau

No Novo Testamento, nos livros de Mateus e Marcos, vemos que Herodias motiva e orquestra todos os eventos que levam à decapitação de João Batista, para satisfazer seu desejo de vingança. Porém, na peça de Wilde, é a princesa Salomé que satisfaz seu próprio desejo de vingança através do espetáculo erótico de sua dança. Ela é sujeito de seus próprios desejos, como ela mesma declara: “Não escuto minha mãe. É para meu próprio prazer que eu peço a cabeça de Jokanaan em uma bandeja de prata” (Wilde, 1993, Obra Completa, p. 614).

A Salomé, de Wilde, é descrita com a palidez e a frieza de uma vamp, mas são as ilustrações de Aubrey Beardsley, de 1894, para a peça, que lhe atribuem uma aura realmente demoníaca:

Salomé, Aubrey Beardsley, 1894

Richard Strauss assistiu a uma das primeiras representações de Salomé na Alemanha e, a partir do texto de Wilde, escreveu o libretto para a sua ópera Electa. Na obra de Srauss, Salomé é identificada com a personagem Clytemnestra, uma femme fatale tão perversa quanto sedutora, cuja face se confunde muito mais com uma máscara de artificialidade:

Anna Bahr-Mildenberg como Clytemnestra em Electra de Richard Strauss, 1909

A visão dos artistas da mulher fatal se associava a uma criatura fria, perversa, sensual, com sede de sangue e vingança e que, negando a própria natureza, se transformava num ser artificial e estéril.

Salomé passou a ser o modelo dessa mulher, tanto que quando Klimt criou suas representações de Judite, elas logo passaram a ser denominadas de Salomé pelo público austríaco, mesmo sem a aprovação do próprio Klimt:

Judite I (Salomé), Klimt, 1901

Segundo o livro de Judite, do Velho Testamento, a cidade israelita de Betúlia estava sobre um forte cerco assírio, prestes a se render. Judite, uma viúva conhecida por sua sabedoria, concebeu um plano para salvar a cidade. Em preparação, vestiu-se com belos vestidos e ornamentos, embelezando-se a fim de seduzir os homens que a vissem. Como esse “fantasiar-se” não decorria de sensualidade, mas de virtude, o Senhor aumentou a sua beleza para todos os olhares masculinos. Tendo chegado às linhas inimigas, convenceu o comandante assírio, Holofernes, de que tinha um plano viável para tomar Betúlia sem perdas assírias. Para comemorar, ele organizou um banquete em homenagem a Judite, embora, secretamente, tencionasse possuí-la. No final dos festejos, quando os dois ficaram sozinhos, Holofernes foi “afogado” pelo vinho. Judite aproveitou a oportunidade para cortar-lhe a cabeça com dois golpes de espada. Ela voltou para Betúlia antes do feito ser descoberto. Quando a notícia foi divulgada, os assírios ficaram confusos e fugiram.

O fato das duas Judites de Klimt terem sido retratadas semi-nuas e com a expressão de um “orgasmo assassino”, ao invés de representarem a virtuosa viúva judia, levou as duas obras a serem identificadas com a figura da femme fatale Salomé:

Judite II (Salomé), Klimt, 1909

O perigo relacionado à mulher fria, perversa, artificial e estéril parece não ter desaparecido com a aproximação do século XXI. O poema “Os Manequins de Munique”, dos anos 1960, de Sylvia Plath e a instalação Manekin-corpse, do coletivo Autoconstrutores, de 1996, nos deixam uma aguda impressão final sobre este tema:

A perfeição é horrível, ela não pode ter filhos.
Fria como o hálito da neve, ela tapa o útero

Onde os teixos inflam como hidras,
A árvore da vida e a árvore da vida.

Desprendendo suas luas, mês após mês,
sem nenhum objetivo.

O jorro de sangue é o jorro do amor,
O sacrifício absoluto.

Quer dizer: mais nenhum ídolo, só eu
Eu e você.

Assim, com sua beleza sulfúrica, com seus
sorrisos

Esses manequins se inclinam esta noite
Em Munique, necrotério entre Roma e Paris,

Nus e carecas em seus casacos de pele,
Pirulitos de laranja com hastes de prata

Insuportáveis, sem cérebro.
A neve pinga seus pedaços de escuridão.

Ninguém por perto. Nos hotéis
Mãos vão abrir portas e deixar

Sapatos no chão para uma mão de graxa
Onde dedos largos vão entrar amanhã.

Ah, essas domésticas janelas,
As rendinhas de bebê, as folhas verdes de confeito,

Os alemães dormindo, espessos, no seu insondável desprezo.
E nos ganchos, os telefones pretos

Cintilando
Cintilando e digerindo

A mudez. A neve não tem voz.

Manekin-corpse, Coletivo Autoconstrutores (1996), Roma






Patrícia Ferreira Martins

Patrícia é artista plástica e, atualmente, doutoranda em letras e lingüística pela UFG. Adora música alternativa na linha punk rock e grindcore. Também adora literatura, assistir televisão, surfar na internet, comer pipoca no cinema e tomar mirinda com os amigos. É casada com o Wellington.
E-mail: patricia@wsmartins.net



Vaca de Nariz Sutil



Dheyne de Souza, Carvão sobre papel, 2007

Desmontagem de um haikai ainda

inescrito ou homem pensando eixos

de sua biografia inervada nessacidade


[1.]

A lógica o objeto o pássaro morto a carne viva

do homem morrendo as estrelas entristecem as paisagens,

iluminam o pó da pele e a matéria das palavras

deixando bocas digitando a curvatura azul

do som da sombra

de qualquer quem se empedra

no movimento ensurdecedor de operar enigmas

e o manejo até mesmo as gramáticas do afeto.

[2.]

A substância angústia

inerva a medula metálica do homem

feliz esperando a morte

a morte sempre mórbida do aparelho perceptivo

do homem inervado pela substância

amorodiar o alimento convém ao Deus

também convém ao homem,

a mortalidade torna o homem inamordaçável.

As nervuras da carne jamais se calam,

andarilham infernos, paredes móveis

movendo os vazios de lugar.

[3.]

Não há sequer sofrimento estável.

A angústia:

máquina orgânica logoilógica

despe limitrofias e analogias,

veste nem relógio digital

e sequer o silêncio em que investe.

[4.]

A despeito da montagem

não há imagemnemônica

nem nenhum som radiografado

nem código algum nada

cura da-coisa-anônima-ele o homem.




Wesley Peres

Wesley tem 31 anos, mas sempre acham que ele tem cara de 30. Vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006, com o romance Casa entre Vértebras (romance), Editora Record, 2007. É autor de Água Anônima (Prêmio Cora Coralina, 2001) e Rio Revoando (Com-Arte/USP, 2003). Em 2007 lançará Palimpsestos, pela UFG. Acha deplorável pessoas que gostam de Fanta Uva, gosta muito de estourar aquelas bolinhas de plástico e da literatura produzida na Papua-Nova Guiné. Ah, é psicanalista e mestre em estudos literários pela UFG e doutorando em Psicologia Clínica na UnB. Mora na Cataluña. E-mail: wesleyperes@uol.com.br